COMO VEJO O MUNDO

Albert Einstein


Traduo de H. P. de Andrade

11 edio

Editora Nova Fronteira
#
Titulo original
MEIN WELTBILD


 1953, Europa Verlag, Zurich


Direitos adquiridos para a lngua portuguesa, no Brasil, pela
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
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Rio de Janeiro  RJ


Capa
DULCE MARY


Reviso
LUIZ AUGUSTO MESQUITA


FICHA CATALOGRAFICA
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.


E35c
Einstein, Albert, 1879-1955.
Como vejo o mundo / Albert Einstein; traduo de H. P. de Andrade.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
81-0094
Traduo de: Mein Weltbild
1. Einstein, Albert, 1879-1955 1. Ttulo
CDD  925
CDU  92 Einstein

#
CONSIDERAES INICIAIS


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SUMRIO

Captulo I
COMO VEJO O MUNDO


Como vejo o mundo ..............................................................................................
 8
Qual o sentido da vida? ..........................................................................................
 9
Como julgar um homem?.........................................................................................
 9
Para que as riquezas? ...........................................................................................

10
Comunidade e personalidade .................................................................................

10
O Estado diante da causa individual .........................................................................

11
O bem e o mal ...................................................................................................

11
Religio e cincia ...............................................................................................

12
A religiosidade da pesquisa ...................................................................................

13
Paraso perdido ..................................................................................................

14
Necessidade da cultura moral .................................................................................

14
Fascismo e Cincia .............................................................................................

14
Liberdade de ensino ............................................................................................

15
Mtodos modernos de inquisio ............................................................................

15
Educao em vista de um pensamento livre..................................................................

16
Educao/Educador..............................................................................................

16
Aos alunos japoneses ...........................................................................................

17
Mestres e alunos..................................................................................................

17
Os cursos de estudos superiores de Davos....................................................................

17
Alocuo pronunciada junto do tmulo de H. A. Lorentz ................................................

18
A ao de H.A. Lorentz a servio da cooperao internacional .........................................

18


H.A. Lorentz, criador e personalidade .......................................................................

19
Joseph Popper-Lynkaeus..........................................................................................21
Septuagsimo aniversrio de Arnold Berliner ................................................................21


#
Saudaes a G.B. Shaw ..........................................................................................22


B. Russell e o pensamento filosfico ..........................................................................22
Os entrevistadores..................................................................................................24
Felicitaes a um crtico .........................................................................................25
Minhas primeiras impresses da Amrica do Norte .........................................................25
Resposta s mulheres americanas ..............................................................................27


Captulo II
POLTICA E PACIFISMO


Sentido atual da palavra paz....................................................................................

28
Como suprimir a guerra? ......................................................................................

28
Qual o problema do pacifismo? ..............................................................................

28
Alocuo na reunio dos estudantes pelo desarmamento..................................................

29
Sobre o servio militar .........................................................................................

30
A Sigmund Freud.................................................................................................

30
As mulheres e a guerra .........................................................................................

31
Trs cartas a amigos da paz ...................................................................................

31
Pacifismo ativo ..................................................................................................

32
Uma demisso ...................................................................................................

33
Sobre a questo do desarmamento ...........................................................................

33
A respeito da conferncia do desarmamento em 1932 ....................................................

34
A Amrica e a conferncia do desarmamento em 1932 ...................................................

36
A Corte de Arbitragem .........................................................................................

37
A Internacional da cincia .....................................................................................

37
A respeito das minorias ........................................................................................

38
Alemanha e Frana .............................................................................................

38
O Instituto de cooperao intelectual.........................................................................

39
Civilizao e bem-estar ........................................................................................

39
Sintomas de uma doena da vida cultural ...................................................................

40


#
Reflexes sobre a crise econmica mundial...................................................................40
A produo e o poder de compra ...............................................................................42
Produo e trabalho................................................................................................43
Observaes sobre a atual situao da Europa.................................................................43
A respeito da coabitao pacfica das naes .................................................................44
Para a proteo do gnero humano ............................................................................45
Ns, os herdeiros ..................................................................................................45


Captulo III
LUTA CONTRA O NACIONAL-SOCIALISMO
PROFISSO DE F


Correspondncia com a Academia de Cincias da Prssia .................................................46
Carta da Academia de Cincias da Baviera ...................................................................48


Captulo IV
PROBLEMAS JUDAICOS


Os ideais judaicos ...............................................................................................

50
H uma concepo judaica do mundo? ......................................................................

50
Cristianismo e judasmo .......................................................................................

51
Comunidade judaica ............................................................................................

51
Anti-semitismo e juventude acadmica ......................................................................

52
Discurso sobre a obra de construo na Palestina...........................................................

53
A Palestina no trabalho ......................................................................................

56
Renascimento judaico ..........................................................................................

56
Carta a um rabe..................................................................................................

57
A necessidade do sionismo ....................................................................................

57
Aforismos para Leo Baeck ....................................................................................

58


#
Captulo V
ESTUDOS CIENTFICOS


Princpios da pesquisa.............................................................................................59
Princpios da fsica terica........................................................................................60
Sobre o mtodo da fsica terica ...............................................................................62
Sobre a teoria da relatividade ...................................................................................65
Algumas palavras sobre a origem da teoria da relatividade geral .........................................67
O problema do espao, do ter e do campo fsico.............................................................69
Johannes Kepler ...................................................................................................74
A mecnica de Newton e sua influncia sobre a formao da fsica terica .............................76
A influncia de Maxwell sobre a evoluo da realidade fsica..............................................80
O barco de Flettner.................................................................................................82
A causa da formao dos meandros no curso dos rios. Lei de Baer ......................................84
Sobre a verdade cientfica .......................................................................................87
A respeito da degradao do homem de cincia...............................................................87


#
CAPTULO I

Como vejo o mundo

COMO VEJO O MUNDO

Minha condio humana me fascina. Conheo o limite de minha existncia e ignoro por que
estou nesta terra, mas s vezes o pressinto. Pela experincia cotidiana, concreta e intuitiva, eu me
descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam
inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoes semelhantes s minhas.

E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida  corpo e alma  integralmente tributria do
trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e no paro de receber. Mas
depois experimento o sentimento satisfeito de minha solido e quase demonstro m conscincia ao
exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei
que nada as justifica a no ser pela violncia. Sonho ser acessvel e desejvel para todos uma vida
simples e natural, de corpo e de esprito.

Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosfico. Eu no sou livre, e sim s vezes
constrangido por presses estranhas a mim, outras vezes por convices ntimas. Ainda jovem,
fiquei impressionado pela mxima de Schopenhauer: O homem pode,  certo, fazer o que quer,
mas no pode querer o que quer; e hoje, diante do espetculo aterrador das injustias humanas, esta
moral me tranqiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto ento melhor
meu sentimento de responsabilidade. Ele j no me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos
outros, a srio demais. Vejo ento o mundo com bom humor. No posso me preocupar com o
sentido ou a finalidade de minha existncia, nem da dos outros, porque, do ponto de vista
estritamente objetivo,  absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas aes e
orientam meus juzos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo
este tipo de satisfao aos indivduos reduzidos a instintos de grupo.

Em compensao, foram ideais que suscitaram meus esforos e me permitiram viver.
Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se no me identifico com outras sensibilidades semelhantes
 minha e se no me obstino incansavelmente em perseguir este ideal eternamente inacessvel na
arte e na cincia, a vida perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por
finalidades irrisrias que tm por nome a riqueza, a glria, o luxo. Desde moo j as desprezava.

Tenho forte amor pela justia, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me
integro com os homens e em suas comunidades. No lhes sinto a falta porque sou profundamente
um solitrio. Sinto-me realmente ligado ao Estado,  ptria, a meus amigos, a minha famlia no
sentido completo do termo. Mas meu corao experimenta, diante desses laos, curioso sentimento
de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distncia. Conheo com
lucidez e sem preveno as fronteiras da comunicao e da harmonia entre mim e os outros homens.
Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocncia, mas ganhei minha independncia. J no mais
firmo uma opinio, um hbito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. 
inconsistente.

A virtude republicana corresponde a meu ideal poltico. Cada vida encarna a dignidade da
pessoa humana, e nenhum destino poder justificar uma exaltao qualquer de quem quer que seja.
Ora, o acaso brinca comigo. Porque os homens me testemunham uma incrvel e excessiva
admirao e venerao. No quero e no mereo nada. Imagino qual seja a causa profunda, mas
quimrica, de seu sentimento. Querem compreender as poucas idias que descobri. Mas a elas
consagrei minha vida, uma vida inteira de esforo ininterrupto.

Fazer, criar, inventar exigem uma unidade de concepo, de direo e de responsabilidade.
Reconheo esta evidncia. Os cidados executantes, porm, no devero nunca ser obrigados e
podero escolher sempre seu chefe.

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Ora, bem depressa e inexoravelmente, um sistema autocrtico de domnio se instala e o ideal
republicano degenera. A violncia fascina os seres moralmente mais fracos. Um tirano vence por
seu gnio, mas seu sucessor ser sempre um rematado canalha. Por esta razo, luto sem trguas e
apaixonadamente contra os sistemas dessa natureza, contra a Itlia fascista de hoje e contra a Rssia
sovitica de hoje. A atual democracia na Europa naufraga e culpamos por esse naufrgio o
desaparecimento da ideologia republicana. A vejo duas causas terrivelmente graves. Os chefes de
governo no encarnam a estabilidade e o modo da votao se revela impessoal. Ora, creio que os
Estados Unidos da Amrica encontraram a soluo desse problema. Escolhem um presidente
responsvel eleito por quatro anos. Governa efetivamente e afirma de verdade seu compromisso.
Em compensao, o sistema poltico europeu se preocupa mais com o cidado, com o enfermo e o
indigente. Nos mecanismos universais, o mecanismo Estado no se impe como o mais
indispensvel. Mas  a pessoa humana, livre, criadora e sensvel que modela o belo e exalta o
sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dana infernal de imbecilidade e de
embrutecimento.

A pior das instituies gregrias se intitula exrcito. Eu o odeio. Se um homem puder sentir
qualquer prazer em desfilar aos sons de msica, eu desprezo este homem... No merece um crebro
humano, j que a medula espinhal o satisfaz. Deveramos fazer desaparecer o mais depressa
possvel este cncer da civilizao. Detesto com todas as foras o herosmo obrigatrio, a violncia
gratuita e o nacionalismo dbil. A guerra  a coisa mais desprezvel que existe. Preferiria deixar-me
assassinar a participar desta ignomnia.

No entanto, creio profundamente na humanidade. Sei que este cncer de h muito deveria ter
sido extirpado. Mas o bom senso dos homens  sistematicamente corrompido. E os culpados so:
escola, imprensa, mundo dos negcios, mundo poltico.

O mistrio da vida me causa a mais forte emoo.  o sentimento que suscita a beleza e a
verdade, cria a arte e a cincia. Se algum no conhece esta sensao ou no pode mais
experimentar espanto ou surpresa, j  um morto-vivo e seus olhos se cegaram. Aureolada de temor,
 a realidade secreta do mistrio que constitui tambm a religio. Homens reconhecem ento algo
de impenetrvel a suas inteligncias, conhecem porm as manifestaes desta ordem suprema e da
Beleza inaltervel. Homens se confessam limitados e seu esprito no pode apreender esta
perfeio. E este conhecimento e esta confisso tomam o nome de religio. Deste modo, mas
somente deste modo, soa profundamente religioso, bem como esses homens. No posso imaginar
um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criao. No posso fazer idia de um ser que
sobreviva  morte do corpo. Se semelhantes idias germinam em um esprito, para mim  ele um
fraco, medroso e estupidamente egosta.

No me canso de contemplar o mistrio da eternidade da vida. Tenho uma intuio da
extraordinria construo do ser. Mesmo que o esforo para compreend-lo fique sempre
desproporcionado, vejo a Razo se manifestar na vida.

QUAL O SENTIDO DA VIDA?

Tem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais
perguntas se tenho esprito religioso. Mas, fazer tais perguntas tem sentido? Respondo: Aquele
que considera sua vida e a dos outros sem qualquer sentido  fundamentalmente infeliz, pois no
tem motivo algum para viver.

COMO JULGAR UM HOMEM?

De acordo com uma nica regra determino o autntico valor de um homem: em que grau e
com que finalidade o homem se libertou de seu Eu?

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PARA QU AS RIQUEZAS?

Todas as riquezas do mundo, ainda mesmo nas mos de um homem inteiramente devotado 
idia do progresso, jamais traro o menor desenvolvimento moral para a humanidade. Somente
seres humanos excepcionais e irrepreensveis suscitam idias generosas e aes elevadas. Mas o
dinheiro polui tudo e degrada sem piedade a pessoa humana. No posso comparar a generosidade de
um Moiss, de um Jesus ou de um Gandhi com a generosidade de uma Fundao Carnegie
qualquer.

COMUNIDADE E PERSONALIDADE

Ao refletir sobre minha existncia e minha vida social, vejo claramente minha estrita
dependncia intelectual e prtica. Dependo integralmente da existncia e da vida dos outros. E
descubro ser minha natureza semelhante em todos os pontos  natureza do animal que vive em
grupo. Como um alimento produzido pelo homem, visto uma roupa fabricada pelo homem, habito
uma casa construda por ele. O que sei e o que penso, eu o devo ao homem. E para comunic-los
utilizo a linguagem criada pelo homem. Mas quem sou eu realmente, se minha faculdade de pensar
ignora a linguagem? Sou, sem dvida, um animal superior, mas sem a palavra a condio humana 
digna de lstima.

Portanto reconheo minha vantagem sobre o animal nesta vida de comunidade humana. E se
um indivduo fosse abandonado desde o nascimento, seria irremediavelmente um animal em seu
corpo e em seus reflexos. Posso conceb-lo, mas no posso imagin-lo.

Eu, enquanto homem, no existo somente como criatura individual, mas me descubro
membro de uma grande comunidade humana. Ela me dirige, corpo e alma, desde o nascimento at a
morte.

Meu valor consiste em reconhec-lo. Sou realmente um homem quando meus sentimentos,
pensamentos e atos tm uma nica finalidade: a comunidade e seu progresso. Minha atitude social
portanto determinar o juzo que tm sobre mim, bom ou mau.

Contudo, esta afirmao primordial no basta. Tenho de reconhecer nos dons materiais,
intelectuais e morais da sociedade o papel excepcional, perpetuado por inmeras geraes, de
alguns homens criadores de gnio. Sim, um dia, um homem utiliza o fogo pela primeira vez; sim,
um dia ele cultiva plantas alimentcias; sim, ele inventa a mquina a vapor.

O homem solitrio pensa sozinho e cria novos valores para a comunidade. Inventa assim
novas regras morais e modifica a vida social. A personalidade criadora deve pensar e julgar por si
mesma, porque o progresso moral da sociedade depende exclusivamente de sua independncia. A
no ser assim, a sociedade estar inexoravelmente votada ao malogro, e o ser humano privado da
possibilidade de comunicar.

Defino uma sociedade sadia por este lao duplo. Somente existe por seres independentes, mas
profundamente unidos ao grupo. Assim, quando analisamos as civilizaes antigas e descobrimos o
desabrochar da cultura europia no momento do Renascimento italiano, reconhecemos estar a Idade
Mdia morta e ultrapassada, porque os escravos se libertam e os grandes espritos conseguem
existir.

Hoje, que direi da poca, do estado, da sociedade e da pessoa humana? Nosso planeta chegou
a uma populao prodigiosamente aumentada se a comparamos s cifras do passado. Por exemplo, a
Europa encerra trs vezes mais habitantes do que h um sculo. Mas o nmero de personalidades
criadoras diminuiu. E a comunidade no descobre mais esses seres de que tem necessidade
essencial. A organizao mecnica substituiu-se parcialmente ao homem inovador. Esta
transformao se opera evidentemente no mundo tecnolgico, mas j em proporo inquietadora
tambm no mundo cientfico.

A falta de pessoas de gnio nota-se tragicamente no mundo esttico. Pintura e msica
degeneram e os homens so menos sensveis. Os chefes polticos no existem e os cidados fazem
pouco caso de sua independncia intelectual e da necessidade de um direito moral. As organizaes

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comunitrias democrticas e parlamentares, privadas dos fundamentos de valor, esto decadentes
em numerosos pases. Ento aparecem as ditaduras. So toleradas porque o respeito da pessoa e o
senso social esto agonizantes ou j mortos.

Pouco importa em que lugar, em quinze dias, uma campanha da imprensa pode instigar uma
populao incapaz de julgamento a um tal grau de loucura, que os homens se prontificam a vestir a
farda de soldado para matar e se deixarem matar. E seres maus realizam assim suas intenes
desprezveis. A dignidade da pessoa humana est irremediavelmente aviltada pela obrigao do
servio militar e nossa humanidade civilizada sofre hoje deste cncer. Por isso, os profetas,
comentando este flagelo, no cessam de anunciar a queda iminente de nossa civilizao. No fao
parte daqueles futurlogos do Apocalipse, porque creio em um futuro melhor e vou justificar minha
esperana.

A atual decadncia, atravs dos fulminantes progressos da economia e da tcnica, revela a
amplido do combate dos homens por sua existncia. A humanidade a perdeu o desenvolvimento
livre da pessoa humana. Mas este preo do progresso corresponde tambm a uma diminuio do
trabalho. O homem satisfaz mais depressa as necessidades da comunidade.

E a partilha cientfica do trabalho, ao se tornar obrigatria, dar a segurana ao indivduo.
Portanto, a comunidade vai renascer. Imagino os historiadores de amanh interpretando nossa
poca. Diagnosticaro os sintomas de doena social como a prova dolorosa de um nascimento
acelerado pelas bruscas mutaes do progresso. Mas reconhecero uma humanidade a caminho.

O ESTADO DIANTE DA CAUSA INDIVIDUAL

Fao a mim mesmo uma antiqssima pergunta. Como proceder quando o Estado exige de
mim um ato inadmissvel e quando a sociedade espera que eu assuma atitudes que minha
conscincia rejeita?  clara minha resposta. Sou totalmente dependente da sociedade em que vivo.
Portanto terei de submeter-me a suas prescries. E nunca sou responsvel por atos que executo sob
uma imposio irreprimvel. Bela resposta! Observo que este pensamento desmente com violncia o
sentimento inato de justia. Evidentemente, o constrangimento pode atenuar em parte a
responsabilidade. Mas no a suprime nunca. E por ocasio do processo de Nuremberg, esta moral
era sentida sem precisar de provas.

Ora, nossas instituies, nossas leis, costumes, todos os nossos valores se baseiam em
sentimentos inatos de justia. Existem e se manifestam em todos os homens. Mas as organizaes
humanas, caso no se apiem e se equilibrem sobre a responsabilidade das comunidades, so
impotentes. Devo despertar e sustentar este sentimento de responsabilidade moral;  um dever em
face da sociedade.

Hoje os cientistas e os tcnicos esto investidos de uma responsabilidade moral
particularmente pesada, porque o progresso das armas de extermnio macio est entregue  sua
competncia. Por isto julgo indispensvel a criao de uma sociedade para a responsabilidade
social na Cincia. Esclareceria os problemas por discuti-los e o homem aprenderia a forjar para si
um juzo independente sobre as opes que se lhe apresentarem. Ofereceria tambm um auxlio
queles que tm uma necessidade imperiosa do mesmo. Porque os cientistas, uma vez que seguem a
via de sua conscincia, esto arriscados a conhecer cruis momentos.

O BEM E O MAL

Em teoria, creio dever testemunhar o mais vivo interesse por alguns seres por terem
melhorado o homem e a vida humana. Mas interrogo-me sobre a natureza exata de tais seres e
vacilo. Quando analiso mais atentamente os mestres da poltica e da religio, comeo a duvidar
intensamente do sentido profundo de sua atividade. Ser o bem? Ser o mal? Em compensao, no
sinto a menor hesitao diante de alguns espritos que s procuram atos nobres e sublimes. Por isto
apaixonam os homens e os exaltam, sem mesmo o perceberem. Descubro esta lei prtica nos

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grandes artistas e depois nos grandes sbios. Os resultados da pesquisa no exaltam nem
apaixonam. Mas o esforo tenaz para compreender e o trabalho intelectual para receber e para
traduzir transformam o homem.

Quem ousaria avaliar o Talmude em termos de quociente intelectual?

RELIGIO E CINCIA

Todas as aes e todas as imaginaes humanas tm em vista satisfazer as necessidades dos
homens e trazer lenitivo a suas dores. Recusar esta evidncia  no compreender a vida do esprito e
seu progresso. Porque experimentar e desejar constituem os impulsos primrios do ser, antes mesmo
de considerar a majestosa criao desejada. Sendo assim, que sentimentos e condicionamentos
levaram os homens a pensamentos religiosos e os incitaram a crer, no sentido mais forte da palavra?
Descubro logo que as razes da idia e da experincia religiosa se revelam mltiplas. No primitivo,
por exemplo, o temor suscita representaes religiosas para atenuar a angstia da fome, o medo das
feras, das doenas e da morte. Neste momento da histria da vida, a compreenso das relaes
causais mostra-se limitada e o esprito humano tem de inventar seres mais ou menos  sua imagem.
Transfere para a vontade e o poder deles as experincias dolorosas e trgicas de seu destino.
Acredita mesmo poder obter sentimentos propcios desses seres pela realizao de ritos ou de
sacrifcios. Porque a memria das geraes passadas lhe faz crer no poder propiciatrio do rito para
alcanar as boas graas de seres que ele prprio criou.

A religio  vivida antes de tudo como angstia. No  inventada, mas essencialmente
estruturada pela casta sacerdotal, que institui o papel de intermedirio entre seres temveis e o povo,
fundando assim sua hegemonia. Com freqncia o chefe, o monarca ou uma classe privilegiada, de
acordo com os elementos de seu poder e para salvaguardar a soberania temporal, se arrogam as
funes sacerdotais. Ou ento, entre a casta poltica dominante e a casta sacerdotal se estabelece
uma comunidade de interesses.

Os sentimentos sociais constituem a segunda causa dos. fantasmas religiosos. Porque o pai, a
me ou o chefe de imensos grupos humanos, todos enfim, so falveis e mortais. Ento a paixo do
poder, do amor e da forma impele a imaginar um conceito moral ou social de Deus. Deus-
Providncia, ele preside ao destino, socorre, recompensa e castiga. Segundo a imaginao humana,
esse Deus-Providncia ama e favorece a tribo, a humanidade, a vida, consola na adversidade e no
malogro, protege a alma dos mortos.  este o sentido da religio vivida de acordo com o conceito
social ou moral de Deus. Nas Sagradas Escrituras do povo judeu manifesta-se claramente a
passagem de uma religio-angstia para uma religio-moral. As religies de todos os povos
civilizados, particularmente dos povos orientais, se manifestam basicamente morais. O progresso de
um grau ao outro constitui a vida dos povos. Por isto desconfiamos do preconceito que define as
religies primitivas como religies de angstia e as religies dos povos civilizados como morais.
Todas as simbioses existem mas a religio-moral predomina onde a vida social atinge um nvel
superior. Estes dois tipos de religio traduzem uma idia de Deus pela imaginao do homem.
Somente indivduos particularmente ricos, comunidades particularmente sublimes se esforam por
ultrapassar esta experincia religiosa. Todos, no entanto, podem atingir a religio em um ltimo
grau, raramente acessvel em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade csmica e no
posso falar dela com facilidade j que se trata de uma noo muito nova,  qual no corresponde
conceito algum de um Deus antropomrfico.

O ser experimenta o nada das aspiraes e vontades humanas, descobre a ordem e a perfeio
onde o mundo da natureza corresponde ao mundo do pensamento. A existncia individual  vivida
ento como uma espcie de priso e o ser deseja provar a totalidade do Ente como um todo
perfeitamente inteligvel. Notam-se exemplos desta religio csmica nos primeiros momentos da
evoluo em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas. Em grau infinitamente mais elevado, o
budismo organiza os dados do cosmos, que os maravilhosos textos de Schopenhauer nos ensinaram
a decifrar. Ora, os gnios-religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o
cosmos. Ela no tem dogmas nem Deus concebido  imagem do homem, portanto nenhuma Igreja

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ensina a religio csmica. Temos tambm a impresso de que os hereges de todos os tempos da
histria humana se nutriam com esta forma superior de religio. Contudo, seus contemporneos
muitas vezes os tinham por suspeitos de atesmo, e s vezes, tambm, de santidade. Considerados
deste ponto de vista, homens como Demcrito, Francisco de Assis, Spinoza se assemelham
profundamente.

Como poder comunicar-se de homem a homem esta religiosidade, uma vez que no pode
chegar a nenhum conceito determinado de Deus, a nenhuma teologia? Para mim, o papel mais
importante da arte e da cincia consiste em despertar e manter desperto o sentimento dela naqueles
que lhe esto abertos. Estamos comeando a conceber a relao entre a cincia e a religio de um
modo totalmente diferente da concepo clssica. A interpretao histrica considera adversrios
irreconciliveis cincia e religio, por uma razo fcil de ser percebida. Aquele que est convencido
de que a lei causal rege todo acontecimento no pode absolutamente encarar a idia de um ser a
intervir no processo csmico, que lhe permita refletir seriamente sobre a hiptese da causalidade.
No pode encontrar um lugar para um Deus-angstia, nem mesmo para uma religio social ou
moral: de modo algum pode conceber um Deus que recompensa e castiga, j que o homem age
segundo leis rigorosas internas e externas, que lhe probem rejeitar a responsabilidade sobre a
hiptese-Deus, do mesmo modo que um objeto inanimado  irresponsvel por seus movimentos.
Por este motivo, a cincia foi acusada de prejudicar a moral. Coisa absolutamente injustificvel. E
como o comportamento moral do homem se fundamenta eficazmente sobre a simpatia ou os
compromissos sociais, de modo algum implica uma base religiosa. A condio dos homens seria
lastimvel se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperana de uma recompensa
depois da morte.

 portanto compreensvel que as Igrejas tenham, em todos os tempos, combatido a Cincia e
perseguido seus adeptos. Mas eu afirmo com todo o vigor que a religio csmica  o mvel mais
poderoso e mais generoso da pesquisa cientfica. Somente aquele que pode avaliar os gigantescos
esforos e, antes de tudo, a paixo sem os quais as criaes intelectuais cientficas inovadoras no
existiriam, pode pesar a fora do sentimento, nico a criar um trabalho totalmente desligado da vida
prtica. Que confiana profunda na inteligibilidade da arquitetura do mundo e que vontade de
compreender, nem que seja uma parcela minscula da inteligncia a se desvendar no mundo, devia
animar Kepler e Newton para que tenham podido explicar os mecanismos da mecnica celeste, por
um trabalho solitrio de muitos anos. Aquele que s conhece a pesquisa cientfica por seus efeitos
prticos v depressa demais e incompletamente a mentalidade de homens que, rodeados de
contemporneos cticos, indicaram caminhos aos indivduos que pensavam como eles. Ora, eles
esto dispersos no tempo e no espao. Aquele que devotou sua vida a idnticas finalidades  o nico
a possuir uma imaginao compreensiva destes homens, daquilo que os anima, lhes insufla a fora
de conservar seu ideal, apesar de inmeros malogros. A religiosidade csmica prodigaliza tais

foras. Um contemporneo declarava, no sem razo, que em nossa poca, instalada no
materialismo, reconhece-se nos sbios escrupulosamente honestos os nicos espritos
profundamente religiosos.

A RELIGIOSIDADE DA PESQUISA

O esprito cientfico, fortemente armado com seu mtodo, no existe sem a religiosidade
csmica. Ela se distingue da crena das multides ingnuas que consideram Deus um Ser de quem
esperam benignidade e do qual temem o castigo  uma espcie de sentimento exaltado da mesma
natureza que os laos do filho com o pai , um ser com quem tambm estabelecem relaes
pessoais, por respeitosas que sejam. Mas o sbio, bem convencido da lei de causalidade de qualquer
acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos s mesmas regras de necessidade e
determinismo. A moral no lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os
homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da
natureza, revelando uma inteligncia to superior que todos os pensamentos humanos e todo seu
engenho no podem desvendar, diante dela, a no ser seu nada irrisrio. Este sentimento desenvolve

#
a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servido dos desejos
egostas. Indubitavelmente, este sentimento se compara quele que animou os espritos criadores
religiosos em todos os tempos.

PARASO PERDIDO

Ainda no sculo XVII, os cientistas e os artistas de toda a Europa mostram-se ligados por um
ideal estreitamente comum de tal forma que sua cooperao mal se via influenciada pelos
acontecimentos polticos. O uso universal da lngua latina ajudava a consolidar esta comunidade.
Pensamos hoje nesta poca como um paraso perdido. Depois, as paixes nacionais destruram a
comunidade dos espritos, e o lao unitrio da linguagem desapareceu. Os cientistas, instalados,
responsveis por tradies nacionais exaltadas ao mximo, chegaram mesmo a assassinar a
comunidade.

Hoje estamos envolvidos numa evidncia catastrfica: os polticos, estes homens dos
resultados prticos, se apresentam como os campees do pensamento internacional. Criaram a
Sociedade das Naes!

NECESSIDADE DA CULTURA MORAL

Sinto necessidade de dirigir  vossa Sociedade para a cultura moral, por ocasio de seu
jubileu, votos de prosperidade e de sucesso. No , na verdade, a ocasio de recordar com satisfao
aquilo que um esforo sincero obteve no domnio da moral, no espao de setenta e cinco anos.
Porque no se pode sustentar que a formao moral da vida humana seja mais perfeita hoje do que
em 1876.

Predominava ento a opinio de que tudo se podia esperar da explicao dos fatos cientficos
verdadeiros e da luta contra os preconceitos e a superstio. Sim, isto justificava plenamente a vida
e o combate dos melhores. Neste sentido, muito se adquiriu nestes setenta e cinco anos, e muito se
propagou graas  literatura e ao teatro.

Mas, fazer desaparecer obstculos no conduz automaticamente ao progresso moral da
existncia social e individual. Esta ao negativa exige, alm disso, uma vontade positiva para a
organizao moral da vida coletiva. Esta dupla ao, de extrema importncia, arrancar as ms razes
e implantar nova moral, constituir a vida social da humanidade. Aqui a Cincia no pode nos
libertar. Creio mesmo que o exagero da atitude ferozmente intelectual, severamente orientada para o
concreto e o real, fruto de nossa educao, representa um perigo para os valores morais. No penso
nos riscos inerentes aos progressos da tecnologia humana, mas na proliferao de intercmbios
intelectuais mediocremente materialistas, como um gelo a paralisar as relaes humanas.

A arte, mais do que a cincia, pode desejar e esforar-se por atingir o aperfeioamento moral e
esttico. A compreenso de outrem somente progredir com a partilha de alegrias e sofrimentos. A
atividade moral implica a educao destas impulses profundas, e a religio se v com isto
purificada de suas supersties. O terrvel dilema da situao poltica explica-se por este pecado de
omisso de nossa civilizao. Sem cultura moral, nenhuma sada para os homens.

FASCISMO E CINCIA

Carta ao ministro Rocco, em Roma

Senhor e mui digno colega,

Dois homens, dos mais notveis e mais afamados dentre os cientistas italianos, dirigem-se a
mim em sua angstia moral e rogam-me que vos escreva a fim de evitar a cruel
iniqidade que
ameaa os sbios da Itlia. De fato, deveriam prestar um juramento em que se exalta a fidelidade ao

#
sistema fascista. Eu vos peo, portanto, que aconselheis o Senhor Mussolini no sentido de que se
evite esta humilhao para a nata da inteligncia italiana.

Apesar das diferenas de nossas convices polticas, um ponto fundamental, eu sei, nos
rene: ambos conhecemos e amamos, nas obras-primas do desenvolvimento intelectual europeu, os
valores supremos. Eles exigem liberdade de opinio e liberdade de ensino porque a luta pela
verdade deve ter precedncia sobre todas as outras lutas. Sobre este fundamento essencial, nossa
civilizao pde nascer na Grcia e celebrar sua ressurreio no tempo da Renascena na Itlia. 
um Bem supremo, pago pelo sangue dos mrtires, estes homens ntegros e generosos. A Itlia hoje 
amada e honrada, graas a eles.

No  minha inteno discutir convosco os danos causados  liberdade humana e as
possibilidades de justificao pela razo de Estado. Mas o combate pela verdade cientfica, afastado
dos problemas concretos da vida cotidiana, deveria ser considerado intocvel pelo poder poltico.
No ser de bom aviso deixar que os servidores sinceros da verdade vivam em paz o tempo
necessrio? No ser tambm este o interesse do Estado italiano e de sua reputao no mundo?

LIBERDADE DE ENSINO..
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A RESPEITO DO CASO GUMBEL


H muitas ctedras, mas poucos professores prudentes e generosos. H muitos grandes
anfiteatros, mas poucos jovens sinceramente desejosos de verdade e de justia. A natureza fornece
muitos produtos medocres e raramente produtos mais finos.

Bem o sabemos, que adiantam queixas? Sempre foi assim e assim ser sempre.  preciso
aceitar a natureza como . Mas, ao mesmo tempo, cada poca e cada gerao elaboram sua maneira
de pensar, transmitem-na e constituem, assim, as marcas caractersticas de uma comunidade. Por
isto cada um deve participar na elaborao do esprito de seu tempo.

Comparemos o esprito da juventude universitria alem de h cem anos com a de hoje.
Naquela poca acreditava-se na melhoria da sociedade humana, julgava-se de boa f cada opinio e
praticava-se aquela tolerncia, vivida nos conflitos narrados por nossos autores clssicos.
Ambicionava-se ento maior unidade poltica, seu nome era a Alemanha. A juventude universitria
e os mestres do pensamento viviam destes ideais.

Hoje, da mesma forma, tende-se para o progresso social, acredita-se na tolerncia e na
liberdade, procura-se maior unidade poltica, a Europa. Mas hoje, a juventude universitria no
mais corresponde nem s esperanas e ideais do povo nem dos mestres do pensamento. Todo
observador de nossa poca, sem paixo nem preconceito, tem de reconhec-lo.

Hoje estamos reunidos para nos interrogar sobre ns mesmos. O motivo do encontro chama-
se o caso Gumbel. Porque este homem, cheio do esprito de justia, com um zelo inaltervel, grande
coragem e exemplar objetividade, escreveu sobre um crime poltico no expiado. Por suas obras
presta assim imenso servio  comunidade. Mas hoje, sabemos que este homem foi atacado pelos
estudantes e em parte pelo corpo docente de sua universidade.

Tentam mesmo exclu-lo. Desencadeia-se a paixo poltica. Ora, eu assumo a
responsabilidade pelo que digo: quem quer que leia as obras de H. Gumbel com retido de esprito,
sentir as mesmas impresses que eu prprio senti. Temos preciso de personalidades como a sua,
se quisermos constituir uma comunidade poltica sadia.

Que cada um reflita em sua alma e sua conscincia, que chegue a uma idia baseada nas
prprias leituras e no nas conversas dos outros.

Que se proceda assim, e o caso Gumbel, aps um incio pouco glorioso, no deixar de servir
 boa causa.

MTODOS MODERNOS DE INQUISIO

O problema que os intelectuais desse pas tm de enfrentar parece muito grave. Os polticos

#
reacionrios, agitando o espectro de um perigo externo, conseguiram sensibilizar a opinio pblica
contra todas as atividades dos intelectuais. Graas a este primeiro sucesso, tentam agora proibir a
liberdade do ensino e expulsar de seu posto os recalcitrantes. Isto se chama aniquilar algum pela
fome.

Que deve fazer a minoria intelectual contra este mal? S vejo uma nica sada possvel: a
revolucionria, da desobedincia, a da recusa a colaborar, a de Gandhi. Cada intelectual, citado
diante de uma comisso, deveria negar-se a responder. O que equivaleria a estar pronto a deixar-se
prender, a deixar-se arruinar financeiramente, em resumo, a sacrificar seus interesses pessoais pelos
interesses culturais do pas.

A recusa no deveria fundar-se sobre o artifcio bem conhecido de objeo de conscincia.
Mas um cidado irrepreensvel no aceita submeter-se a uma tal inquisio, em total infrao do
esprito da constituio. E se alguns intelectuais se manifestarem, bastante corajosos para escolher
este caminho herico, eles triunfaro. A no ser assim, os intelectuais deste pas no merecem coisa
melhor do que a escravido que lhes est prometida.

EDUCAO EM VISTA DE UM PENSAMENTO LIVRE

No basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornar assim uma mquina
utilizvel, mas no uma personalidade.  necessrio que adquira um sentimento, um senso prtico
daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que  belo, do que  moralmente correto. A no
ser assim, ele se assemelhar, com seus conhecimentos profissionais, mais a um co ensinado do
que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivaes
dos homens, suas quimeras e suas angstias para determinar com exatido seu lugar exato em
relao a seus prximos e  comunidade.

Estas reflexes essenciais, comunicadas  jovem gerao graas aos contactos vivos com os
professores, de forma alguma se encontram escritas nos manuais.  assim que se expressa e se
forma de incio toda a cultura. Quando aconselho com ardor As Humanidades, quero recomendar
esta cultura viva, e no um saber fossilizado, sobretudo em histria e filosofia.

Os excessos do sistema de competio e de especializao prematura, sob o falacioso pretexto
de eficcia, assassinam o esprito, impossibilitam qualquer vida cultural e chegam a suprimir os
progressos nas cincias do futuro.  preciso, enfim, tendo em vista a realizao de uma educao
perfeita, desenvolver o esprito crtico na inteligncia do jovem. Ora, a sobrecarga do esprito pelo
sistema de notas entrava e necessariamente transforma a pesquisa em superficialidade e falta de
cultura. O ensino deveria ser assim: quem o receba o recolha como um dom inestimvel, mas nunca
como uma obrigao penosa.

EDUCAO/EDUCADOR

Muito cara senhorita,

Li cerca de dezesseis pginas de seu manuscrito que me causou prazer. Tudo ali, inteligente,
bem apreendido, muito justo, em certo sentido independente, mas ao mesmo tempo to feminino,
quer dizer, dependente e eivado de ressentimentos. Eu tambm fui tratado de igual maneira por
meus professores, que no gostavam de minha independncia e esqueciam-se de mim quando
tinham necessidade de assistentes. (Confesso mesmo que, estudante, era mais negligente do que a
senhora.) Todavia no seria til escrever fosse o que fosse sobre este perodo de minha vida e no
me agradaria assumir a responsabilidade de impelir algum a imprimi-lo ou a l-lo. No tem graa
nenhuma queixar-se de outrem, se o nosso prximo encara a vida de modo bem diferente.

Desista de ajustar contas com um passado desagradvel e guarde o manuscrito para seus
filhos. Eles se alegraro e pouco lhes importar o que dizem ou pensam seus professores.

Enfim, estou em Princeton apenas para a pesquisa cientfica e no para a pedagogia.

#
Preocupam-se demais com ela, principalmente nas escolas americanas. Ora, no existe outra
educao inteligente seno aquela em que se toma a si prprio como um exemplo, ainda quando no
se possa impedir que esse modelo seja um monstro!

AOS ALUNOS JAPONESES

Meus cumprimentos a vocs, alunos japoneses, e tenho razes especiais para faz-lo. De fato,
visitei pessoalmente o belo pas de vocs, suas cidades, suas casas, montanhas e florestas, e a vi as
crianas japonesas descobrirem o amor da ptria. Tenho sempre sobre minha mesa um grosso livro
cheio de desenhos coloridos por vocs.

Quando receberem esta carta, de to longe, meditem simplesmente sobre esta idia. Nossa
poca d a possibilidade da colaborao entre homens de diferentes pases, num esprito fraterno e
compreensivo. Antigamente os povos viviam sem se conhecerem mutuamente, tinham receio uns
dos outros ou at mesmo odiavam-se reciprocamente. Que o sentimento de compreenso fraterna
lance cada vez maiores razes nos povos. Eu, o velho, e de muito longe, sado os alunos japoneses:
possa sua gerao nos humilhar um dia!

MESTRES E ALUNOS

Alocuo a meninos

 tarefa essencial do professor despertar a alegria de trabalhar e de conhecer. Caros meninos,
como estou feliz por v-los hoje diante de mim, juventude alegre de um pas ensolarado e fecundo.

Pensem que todas as maravilhas, objetos de seus estudos, so a obra de muitas geraes, uma
obra coletiva que exige de todos um esforo entusiasta e um labor difcil e impretervel. Tudo isto,
nas mos de vocs, se torna uma herana. Vocs a recebem, respeitam-na, aumentam-na e, mais
tarde, iro transmiti-la fielmente  sua descendncia. Deste modo somos mortais imortais, porque
criamos juntos obras que nos sobrevivem.

Se refletirem seriamente sobre isto, encontraro um sentido para a vida e para seu progresso.
E o julgamento que fizerem sobre os outros homens e as outras pocas ser mais verdadeiro.

OS CURSOS DE ESTUDOS SUPERIORES DE DAVOS

Senatores boni viri, senatus autem bestia. Um professor suo meu amigo escrevia um dia,
deste modo engraado, a uma faculdade universitria que o havia irritado. As comunidades se
preocupam muito menos com os problemas de responsabilidade e de conscincia do que os
indivduos. Ora, os acontecimentos, as guerras, as represses de toda espcie traumatizam a
humanidade sofredora, queixosa, exasperada.

E no entanto, somente uma cooperao para alm dos sentimentos poderia estabelecer algo de
valor. A maior alegria para um amigo dos homens est aqui:  custa de terrveis sofrimentos,
organiza-se um empreendimento coletivo com o nico objetivo de desenvolver a vida e a
civilizao.

Esta alegria imensa foi-me oferecida quando ouvi falar dos cursos de estudos superiores em
Davos, desta obra de salvamento, inteligentemente concebida e habilmente dirigida, que
corresponde a uma grave necessidade no percebida de imediato. Com efeito, muitos jovens vm
para aqui, para este vale maravilhosamente batido de sol para reencontrar a sade. Afastado, porm,
dos estudos e de sua disciplina fortificante, entregue a desnimos depressivos, o doente perde
paulatinamente seu dinamismo mental, e o sentimento de sua funo essencial na luta pela vida.
Torna-se de certa maneira uma planta de estufa, e mesmo depois da cura do corpo, dificilmente
reencontra a via da normalidade.  este o caso da juventude estudantil. A ruptura do treino
intelectual em anos decisivos para a formao provoca um atraso, dificilmente recupervel mais

#
tarde.

Contudo, em geral, um trabalho intelectual moderado no prejudica a sade. Chega mesmo a
prestar servio, indiretamente, de certo modo  semelhana de um exerccio fsico razovel. Foram
portanto estes cursos de ensino superior criados neste esprito. De acordo com esta convico
ambicionam para vocs uma formao profissional preparatria, mas tambm um novo estmulo
para a atividade. O programa intelectual prope um trabalho, um mtodo e regras de vida.

No se esqueam de que esta instituio, em medida muito aprecivel, contribui para
estabelecer relaes entre homens de naes diferentes, para fortalecer o sentimento de pertencerem
a uma determinada comunidade. Neste sentido, a eficcia da nova instituio se manifesta ainda
mais proveitosa porque as circunstncias de sua criao sublinham bastante a recusa a qualquer
posio poltica. Serve-se mais  causa da compreenso internacional na medida em que se participa
de uma obra que promova a vida.

Para mim  uma alegria refletir sobre este programa. Porque a energia e a inteligncia
presidiram  criao dos Cursos de Ensino Superior de Davos e o empreendimento j ultrapassou o
cabo das dificuldades inerentes a cada fundao. Possam eles prosperar, oferecer a muitos um
enriquecimento interior, e suprimir assim a severidade da vida no sanatrio.

ALOCUO PRONUNCIADA JUNTO AO TMULO DE H. A. LORENTZ (1853-1928)

Representando os sbios do pas de lngua alem, de modo especial a Academia das Cincias
da Prssia, mas sobretudo discpulo e admirador entusiasta, eis-me diante do tmulo do mais
excepcional e mais generoso de nossos contemporneos. Seu luminoso esprito esclareceu o lao
entre a teoria de Maxwell e as criaes da fsica atual, para a qual contribuiu com importantes
trabalhos em que imps resultados e sobretudo seus mtodos.

Viveu sua vida com uma perfeio minuciosa, como uma obra-prima de enorme valor.
Incansavelmente, sua bondade, magnanimidade e senso de justia, junto com uma intuio
fulgurante sobre os homens e as situaes, fizeram dele, onde quer que trabalhasse, o Mestre. Todos

o escutavam com alegria, pois compreendiam que no procurava impor-se, mas servir. Sua obra, seu
exemplo continuaro a agir para esclarecer e guiar as geraes.
A AO DE H. A. LORENTZ A SERVIO DA COOPERAO INTERNACIONAL

Com a enorme especializao causada pela pesquisa cientfica e imposta pelo sculo XIX, 
muito raro que individualidades de primeira plana em seu campo especfico tenham a possibilidade
e a coragem de prestar eminentes servios  comunidade no nvel das instncias polticas
internacionais. Pois isto implica uma grande capacidade de trabalho, inteligncia viva e reputao
fundada em trabalhos de grande envergadura. Exige tambm uma independncia em relao a
preconceitos nacionais, bem rara em nossos dias e, por fim, grande devotamento s metas comuns a
todos. Jamais conheci algum que tivesse unido todas estas qualidades e de modo to exemplar
quanto H.A. Lorentz. Mas sua ao espantosa revela ainda um outro mrito: personalidades
independentes e de temperamento decidido, com freqncia as encontramos entre os sbios; elas
no se inclinam com facilidade diante de uma autoridade estranha e no se deixam facilmente
comandar. Mas quando Lorentz exerce as funes de presidente, estabelece-se ento um clima de
alegre cooperao, mesmo se os homens reunidos se separam quanto s intenes e aos modos de
pensar. O segredo deste sucesso no se explica unicamente pela compreenso imediata dos seres e
dos feitos ou pelo absoluto domnio da expresso; mas antes de tudo, percebe-se que H.A. Lorentz
est todo entregue ao servio em questo e unicamente preocupado com esta necessidade. Nada
desarma tanto os intratveis quanto agir desse modo.

Antes da guerra, a atividade de H.A. Lorentz a servio das relaes internacionais limitava-se
s presidncias dos congressos de fsica. Recordemo-nos dos dois congressos Solvay, realizados em
Bruxelas (1909-1911). Depois veio a guerra europia, o golpe mais terrvel que se podia conceber

#
para aqueles que se preocupavam com o progresso das relaes humanas. J durante a guerra, e
mais ainda depois de terminada, Lorentz trabalhou pela reconciliao internacional.

Seus esforos visavam em particular o restabelecimento das cooperaes proveitosas e
amigveis de sbios e de sociedades cientficas. Quem no conhece uma empresa destas no pode
imaginar sua dificuldade. Os rancores, nascidos da guerra, se perpetuam, e muitos homens
influentes se aferram a posies, irreconciliveis a que se deixaram levar pela presso dos
acontecimentos. O esforo de Lorentz parece com o do mdico: tem de tratar de um doente indcil
que recusa tomar os medicamentos cuidadosamente preparados para sua cura.

Mas H.A. Lorentz no desiste uma vez que reconheceu a exatido de uma atitude.
Imediatamente depois da guerra, participa da direo do Conselho de Pesquisa fundado pelos
sbios das potncias vitoriosas, com a excluso dos sbios e dos corpos cientficos das potncias
centrais. Por esta medida, criticada pelos sbios das potncias centrais, ele tinha em vista influir
sobre esta instituio para que ela se tornasse, ao crescer, real e eficazmente internacional. Aps
repetidos esforos, conseguiu, junto com outros sbios que aderiram  mesma poltica, fazer
suprimir dos estatutos do Conselho o tristemente clebre pargrafo da excluso dos sbios dos
pases vencidos. Sua meta, porm, o restabelecimento de uma cooperao normal e frutuosa dos
sbios e das sociedades cientficas, no foi ainda atingida porque os sbios das potncias centrais,
ressentidos por haverem sido durante dez anos eliminados de todas as organizaes cientficas
internacionais, tomaram por hbito uma prudente reserva. H ainda uma esperana viva: os esforos
de Lorentz, desejo de conciliao mas tambm compreenso do interesse superior, iro conseguir
dissipar os mal-entendidos.

Finalmente, H.A. Lorentz emprega suas foras de outra maneira a servio dos objetivos
intelectuais internacionais. Aceita ser eleito para a comisso de cooperao intelectual internacional
da S.D.N. criada, h cinco anos, sob a presidncia de Bergson. H um ano, H.A. Lorentz a est
presidindo e, com o apoio eficaz do Instituto de Paris, sempre sob sua direo, orienta uma
mediao ativa entre diversos centros culturais no campo intelectual e artstico. Ainda aqui, a
efetiva influncia de sua personalidade inteligente, acolhedora e simples permitir manter o bom
rumo. Sua divisa, sem discursos mas em atos, diz: no dominar, mas servir!

Que seu exemplo contribua para que seja este o clima intelectual!

H.A. LORENTZ, CRIADOR E PERSONALIDADE
No incio do sculo, H.A. Lorentz foi considerado pelos fsicos tericos de todos os pases
como um mestre e com toda a razo. Os fsicos das novas geraes no chegam a perceber
exatamente o papel decisivo de H.A. Lorentz na elaborao das idias fundamentais para a teoria
fsica.  incompreensvel, mas  verdade! Insensivelmente, as idias fundamentais de Lorentz se
nos tornaram to familiares que nos esquecemos de sua fora inovadora e da simplificao das
teorias elementares, tornada possvel graas a elas.

Quando H.A. Lorentz comeou, a teoria do eletromagnetismo de Maxwell estava se impondo.
Mas esta teoria apresentava curiosa complexidade dos elementos de base, a ponto de esconder os
traos essenciais. A noo de campo substitura a de ao a distncia, e os campos eltrico e
magntico no eram ainda considerados realidades primitivas, mas antes como momentos da
matria ponderal que se tratava como contnuos. Por conseguinte, o campo eltrico parecia se
decompor em vetor da fora do campo eltrico e vetor da deslocao dieltrica. Estes dois campos
eram, na hiptese mais simples, ligados pela constante dieltrica; foram, porm, em princpio,
considerados e tratados como realidades independentes. O mesmo acontecia com o campo
magntico. De acordo com esta concepo fundamental, tratava-se o espao vazio como um caso
especial da matria ponderal em que a relao entre fora de campo e deslocamento aparecia
particularmente simples. Da a conseqncia de que o campo eltrico e o campo magntico no
podiam ser considerados independentes do estado de movimento da matria, vista como portadora
do campo.

Aps estudo da pesquisa de H. Hertz sobre a eletrodinmica dos corpos em movimento,

#
perceber-se- melhor e mais sinteticamente a concepo da eletrodinmica de Maxwell, que ento
prevalecia.

 a que a inteligncia de H.A. Lorentz se manifesta com toda a eficcia. Ajuda-nos a
progredir e a nos ultrapassar. Com uma lgica cerrada, apia seu raciocnio nas seguintes hipteses:
a sede do campo eletromagntico  o espao vazio. Neste espao somente h um nico vetor do
campo eltrico e um nico vetor do campo magntico. Este campo  produzido pelas cargas
eltricas atmicas sobre as quais o campo exerce, por sua vez, as foras pndero-motrizes. Uma
ligao do campo eletromotor com a matria ponderal somente se produz porque as cargas
elementares eltricas esto rigidamente ligadas s partculas atmicas da matria. Mas, para a
matria, a lei do movimento de Newton continua vlida.

Nesta base assim simplificada, Lorentz funda uma teoria completa de todos os fenmenos
eletromagnticos ento conhecidos, bem como os da eletrodinmica dos corpos em movimento. 
uma obra de lgica extrema, muito clara e muito bela. Resultados assim, em cincia experimental,
raramente so alcanados. O nico fenmeno no explicvel pela teoria, isto , sem hipteses
suplementares, chama-se ento a clebre experincia Michelson-Morley. Ora, sem a localizao do
campo eletromagntico no espao vazio, esta experincia no pode levar  teoria da relatividade
restrita. O progresso decisivo consiste em aplicar as equaes de Maxwell ao espao vazio ou,
como se dizia ento, ao ter.

H.A. Lorehtz chegou mesmo a encontrar a transformao que tem seu nome, transformao
de Lorentz, sem a observar caracteres de grupo. Para ele, as equaes de Maxwell para o espao
vazio s eram aplicveis em um determinado sistema de coordenadas, aquele que parecia distinguir-
se por seu repouso em relao a todos os outros sistemas de coordenadas. Isto apresentava uma
situao verdadeiramente paradoxal, porque a teoria parecia restringir o sistema de inrcia ainda
mais estreitamente do que a mecnica clssica. Essa circunstncia inexplicvel do ponto de vista
emprico devia conduzir  teoria da relatividade restrita.
Graas ao convite amigo da Universidade de Leyde, por vrias vezes estive nesta cidade e
sempre me hospedava em casa de meu caro e inesquecvel amigo Paul Ehrenfest. Tive assim a
oportunidade de assistir s conferncias de Lorentz para um pequeno crculo de jovens colegas,
quando j se havia aposentado do ensino geral. Tudo quanto vinha deste esprito superior era claro e
belo como uma obra de arte e tinha-se a impresso de que seu pensamento se expressava com
facilidade e clareza. Jamais tornei a viver semelhante experincia. Se ns, os jovens, no
houvssemos conhecido H.A. Lorentz a no ser como um esprito particularmente lcido, nossa
admirao e estima j seriam extremas. Mas o que eu sinto ao pensar em Lorentz  coisa totalmente
diferente. Para mim, pessoalmente, valia mais do que todos os outros que encontrei em minha vida.

Ele dominava a Fsica e a Matemtica e, de igual maneira, dominava-se a si mesmo sem
dificuldade e com serenidade constante. Nele a ausncia de fraqueza humana jamais deprimia seus
semelhantes. Cada um sentia sua superioridade, mas ningum se acabrunhava por isso. Embora
tivesse grande intuio dos homens e das situaes, conservava extrema cortesia. Jamais agia por
constrangimento, mas por esprito de servio e de auxlio mtuo. Extremamente consciencioso,
concedia a cada coisa a importncia devida, porm no mais. Seu temperamento muito alegre o
protegia. Olhos e sorriso se divertiam. Apesar de totalmente devotado ao conhecimento cientfico,
estava convencido de que nossa compreenso no pode ir muito longe na essncia das coisas. Esta
atitude, meio ctica, meio humilde, s vim a compreend-la verdadeiramente em idade mais
avanada.

A linguagem, ou pelo menos a minha, no pode corresponder corretamente s exigncias
deste ensaio de reflexo a respeito de H. A. Lorentz. Queria ento tentar lembrar-me de duas curtas
sentenas de Lorentz. Elas tiveram sobre mim profunda influncia: Sou feliz por pertencer a uma
nao pequena demais para cometer grandes loucuras. Em conversa, durante a primeira guerra
mundial, com um homem que tentava persuadi-lo de que os destinos se forjam pela fora e pela
violncia, respondeu: O senhor tem talvez razo, mas eu no gostaria de viver num universo
assim.

#
JOSEPH POPPER-LYNKAEUS

Era mais do que um engenheiro e um escritor. Fazia parte daquelas poucas personalidades
marcantes, alma e conscincia de uma gerao. Ele nos convenceu de que a sociedade  responsvel
pelo destino de cada indivduo e nos mostrou como concretizar esta obrigao moral. A comunidade
ou o Estado no encarnam verdadeiros smbolos, porque um direito se fundamenta deste modo: se o
Estado exige uma abnegao do indivduo, se tem este direito, em compensao deve dar ao
indivduo a possibilidade de um desenvolvimento harmonioso.

SEPTUAGSIMO ANIVERSARIO DE ARNOLD BERLINER

Gostaria de dizer aqui a meu amigo Arnold Berliner e aos leitores de sua revista As Cincias
da Natureza por que o aprecio, a ele e a sua obra, de modo to veemente;  alis preciso que o diga
aqui, seno no terei mais ocasio. Nossa educao objetiva tornou tabu tudo o que  pessoal e
um homem s em circunstncias excepcionais, como esta, pode transgredir essa regra.

Aps ter-me justificado como agora, volto  terra no mundo objetivo. O campo dos fatos
cientificamente analisados estendeu-se prodigiosamente e o conhecimento terico aprofundou-se
alm do previsvel. Mas a capacidade humana de compreenso  e sempre estar ligada a limites
estreitos. Torna-se portanto inelutvel que a atividade de um nico pesquisador se reduza a um setor
cada vez mais restrito em relao ao conjunto dos conhecimentos. Por conseguinte, toda
especializao impossibilitaria uma simples compreenso geral do conjunto da Cincia,
indispensvel no entanto para o vigor do esprito de pesquisa, e, por
conseqncia, afastaria
inexoravelmente outros progressos da evoluo. Desse modo se constituiria uma situao anloga
quela descrita na Bblia de modo simblico pela histria da torre de Babel. Um pesquisador srio
experimenta um dia ou outro esta evidncia dolorosa da limitao. Malgrado seu, v o crculo de
seu saber ir apertando-se cada vez mais. Perde ento o senso das grandes arquiteturas e se
transforma em operrio cego num conjunto imenso.

Sentimos todos o esmagamento desta servido; mas, que fazer para libertar-nos? Surge Arnold
Berliner e inventa para os pases de lngua alem um instrumento de utilidade exemplar. Percebe
que as publicaes populares existentes bastavam para a vulgarizao e o estmulo dos espritos
profanos. Mas entende que uma revista, sistematicamente dirigida com o mximo cuidado, se
impe para os conhecimentos cientficos dos sbios. Estes querem conhecer e compreender a
evoluo dos problemas, os mtodos e os resultados para poderem formar um juzo pessoal.
Durante longos anos, persegue esta meta, inteligentemente, incansavelmente, e nos satisfez
plenamente, a ns e  Cincia. Jamais lhe seremos bastante reconhecidos por este servio.

Precisava obter a colaborao de autores cientficos de renome, mas tambm obrig-los a
expor seu assunto da forma mais acessvel, mesmo para um no-iniciado. Por vrias vezes falou-me
sobre os problemas que devia resolver para chegar a sua meta e, um dia, definiu-me seu tipo de
dificuldade por esta adivinhao: que  que  um autor cientfico? Resposta: o cruzamento entre
uma mimosa e um porco-espinho. A obra de Berliner existe. Porque tinha paixo pelas idias
claras nos domnios mais vastos. Este desejo o estimulou durante toda a vida. Vontade apaixonada
que o obrigou a compor com muita assiduidade, durante muito tempo, um tratado de fsica do qual
um estudante de medicina dizia-me, h bem pouco tempo: Sem este livro, no sei como teria
podido compreender os princpios da fsica nova, levando em conta o tempo de que dispunha.

A luta de Berliner pelas snteses claras permitiu-nos, de maneira especial, compreender ao
vivo os problemas atuais, os mtodos e os resultados das cincias. Sua revista continua sendo
indispensvel para a vida cientfica de nossos contemporneos. Tornar vivo, manter vivo este
conhecimento  mais importante do que resolver um caso particular.

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SAUDAES A G.B. SHAW

Raros so os espritos com suficiente domnio de si mesmos para ver as fraquezas e loucuras
de seus contemporneos sem cair nas mesmas armadilhas. Estes solitrios, porm, depressa perdem
a coragem e a esperana de melhoria moral, porque aprenderam a conhecer a dureza dos homens.
Somente a um pequenino nmero foi dado, por seu humor delicado, seu estado de graa, fascinar
sua gerao e apresentar a verdade sob o aspecto impessoal da forma artstica. Sado hoje, com a
mais viva simpatia, o maior mestre neste gnero. A todos ns ele encantou e instruiu.

B. RUSSELL E O PENSAMENTO FILOSFICO
Ao ser convidado pela redao para escrever alguma coisa sobre Bertrand Russell, minha
admirao e estima por ele me impeliram a aceitar imediatamente.  leitura de suas obras devo
inmeros momentos de satisfao, o que  exceo feita de Thorstein Veblen  no posso dizer de
nenhum outro escritor cientfico contemporneo. Mas bem depressa verifiquei que era mais fcil
prometer do que cumprir. Ora, prometi escrever algumas idias sobre Russell filsofo e terico do
conhecimento. E quando comecei a redigir, cheio de confiana, verifiquei logo em que terreno
escorregadio me aventurava. Porque sou um escritor inexperiente, s me arriscando com prudncia
at aqui a falar sobre fsica. Para o iniciado, portanto, a maior parte de meu artigo poder parecer
pueril; reconheo-o de antemo. Mas um pensamento me consola. Quem fez a experincia de
pensar em outro domnio sobrepuja sempre aquele que no pensa de modo algum ou muito pouco.

Na histria da evoluo do pensamento filosfico atravs dos sculos, uma questo vem
sempre em primeiro lugar: que conhecimentos o pensamento puro, independente das impresses
sensoriais, pode oferecer? Ser que tais conhecimentos existem? Do contrrio, que relao
estabelecer entre nosso conhecimento e a matria bruta, origem de nossas impresses sensveis? A
estas questes e algumas outras estreitamente relacionadas corresponde uma desordem de opinies
filosficas, absolutamente inimaginveis. Ora, nesta progresso de esforos meritrios, mas
relativamente ineficazes, uma linha indestrutvel vai se traando e se reconhece: um crescente
ceticismo manifesta-se diante de qualquer tentativa de procurar explicar pelo pensamento puro o
mundo objetivo, o mundo dos objetos oposto ao mundo simplificado das representaes e dos
pensamentos. Observemos aqui que, para um filsofo clssico, as aspas ( ) so empregadas para
indicar um conceito fictcio, que o leitor momentaneamente aceita, apesar de refutado pela crtica
filosfica.

A crena elementar da filosofia em sua gnese reconhece no pensamento puro a possibilidade
de descobrir todo o conhecimento necessrio. Era uma iluso, cada qual pode compreend-lo com
facilidade, se se esquecer provisoriamente das aquisies ulteriores da filosofia e da cincia fsica.
Por que se admirar, se Plato concede  Idia uma realidade superior  dos objetos empiricamente
experimentados? Spinoza, Hegel inspiram-se no mesmo sentimento e raciocinam fundamentalmente
da mesma forma. Poder-se-ia quase fazer a pergunta: sem esta iluso ser possvel no pensamento
filosfico inventar algo de grandioso? Mas deixemos de lado esta interrogao.

Diante da iluso, bastante aristocrtica, do poder de percepo ilimitada do pensamento,
existe outra iluso bem plebia, o realismo ingnuo, segundo o qual os objetos so a pura verdade
de nossos sentidos. Iluso que ocupa a atividade diria dos homens e dos animais. Na origem, as
cincias se interrogam deste modo, sobretudo as cincias fsicas.

As vitrias sobre as duas iluses nunca se separam. Eliminar o realismo ingnuo 
relativamente fcil. Russell define de forma muito caracterstica este momento do pensamento na
introduo a seu livro An inquiry into Meaning and Truth.

Comeamos todos com o realismo ingnuo, quer dizer, com a doutrina de que os objetos so
assim como parecem ser. Admitimos que a erva  verde, que a neve  fria e que as pedras so duras.
Mas a fsica nos assegura que o verde das ervas, o frio da neve e a dureza das pedras no so o
mesmo verde, o mesmo frio e a mesma dureza que conhecemos por experincia, mas algo de
totalmente diferente. O observador que pretende observar uma pedra, na realidade observa, se

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quisermos acreditar na fsica, as impresses das pedras sobre ele prprio. Por isto a cincia parece
estar em contradio consigo mesma; quando se considera extremamente objetiva, mergulha contra
a vontade na subjetividade. O realismo ingnuo conduz  fsica, e a fsica mostra, por seu lado, que
este realismo ingnuo, na medida em que  conseqente,  falso. Logicamente falso, portanto
falso.

 parte sua perfeita formulao, estas linhas expressam algo em que eu jamais pensara. Para
um olhar superficial, o pensamento de Berkeley e de Hume parece o oposto do pensamento
cientfico. Mas o enunciado acima de Russell revela uma relao. Berkeley insiste sobre o fato de
que no percebemos diretamente os objetos do mundo exterior por nossos sentidos, mas que os
rgos de nossos sentidos so afetados por fenmenos ligados como causa  presena dos objetos.
Ora, esta reflexo suscita a convico por j raciocinar como a cincia fsica. Se no se tem bastante
confiana na maneira de pensar fsica, mesmo em suas grandes linhas, no h razo alguma para
impor qualquer coisa entre o objeto e o ato de ver que isola o sujeito em relao ao objeto e torna
problemtica a existncia dos objetos.

A mesma tcnica de reflexo em cincia fsica e os resultados assim obtidos revolucionaram a
tradicional possibilidade de compreender os objetos e suas relaes pelo lado nico do pensamento
especulativo. Aos poucos, se firmava a convico de que todo conhecimento sobre os objetos era
inexoravelmente uma transformao da matria bruta oferecida pelos sentidos. Sob esta
apresentao geral (formulada intencionalmente em termos vagos), esta proposio  aceita
comumente. A convico repousa assim sobre dupla prova: a impossibilidade de adquirir
conhecimentos reais pelo puro pensamento especulativo, mas sobretudo a descoberta dos
progressos dos conhecimentos pela via emprica. Primeiro, Galileu e Hume justificaram este
princpio com uma perspiccia e uma determinao totais.

Hume bem compreendia que conceitos, julgados essenciais por ns  por exemplo, a relao
causal , no podem ser obtidos a partir da matria fornecida pelos sentidos. Esta compreenso o
levou ao ceticismo intelectual diante de qualquer conhecimento. Quando se lem suas obras, fica-se
espantado de que depois dele tantos filsofos, em geral bem considerados, tenham podido redigir
tantas pginas to confusas e encontrado leitores gratos. Contudo Hume marcou com sua influncia
os seus melhores sucessores. E ns o reencontramos na leitura das anlises filosficas de Russell: o
estilo preciso e a expresso simples so os mesmos de Hume.

O homem aspira profundamente ao conhecimento certo. E por esta razo, o sentido da obra de
Hume nos comove. A matria bruta sensvel, nica fonte de nosso conhecimento, nos modifica, nos
faz crer, esperar. Mas no pode conduzir-nos ao saber e  compreenso de relaes que revelam leis.
Kant ento prope um pensamento. Sob a forma em que foi apresentada  indefensvel, porm
marca um ntido progresso para resolver o dilema de Hume. O emprico, no conhecimento, jamais
 certo (Hume). Se queremos conhecimentos certos temos de base-los na razo. Tal  o caso da
geometria, tal o do princpio de causalidade. Estes conhecimentos, mais alguns outros, formam uma
parte de nosso instrumento-pensamento. Por conseguinte no devem ser obtidos pelos sentidos. So
conhecimentos a priori.

Hoje todo o mundo sabe, evidentemente, que os famosos conhecimentos nada tm de certo,
nada de intimamente necessrio, como Kant acreditava. Mas Kant colocou o problema sob o ngulo
desta constatao. Temos um certo direito de pensar conceitos que a matria experimental sensvel
no pode dar-nos, se permanecermos no plano lgico em face do mundo dos objetos.

Penso que  preciso ainda superar esta posio. Os conceitos que aparecem em nosso
pensamento e em nossas expresses lingsticas so  do ponto de vista lgico  puras criaes
do esprito e no podem provir indutivamente de experincias sensveis. Isto no  to simples de
admitir porque unimos conceitos certos e ligaes conceptuais (proposies) com as experincias
sensveis, to profundamente habituais que perdemos a conscincia do abismo logicamente
insupervel entre o mundo do sensvel e o do conceptual e hipottico.

Por isto, incontestavelmente, a srie de nmeros inteiros marca uma inveno do esprito
humano, um instrumento criado por ele para facilitar e ordenar algumas experincias sensveis. No
existe possibilidade alguma de tirar este conceito da prpria experincia sensvel. Escolho de

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propsito a noo do nmero porque pertence ao pensamento pr-cientfico e seu aspecto operatrio
 facilmente identificvel aqui. Mas quanto mais nos aproximamos dos conceitos elementares na
vida cotidiana, tanto mais o peso de hbitos arraigados nos embaraa para reconhecermos o
conceito como criao original do esprito. Assim se elaborou uma concepo fatal e gravemente
errnea para a compreenso das relaes reais e imediatas: os conceitos se constituiriam a partir da
experincia e em seguida da abstrao, mas com isto perdem uma parte de seu contedo. Desejo
mostrar por que esta concepo me parece to errnea.

Se se aceita a crtica de Hume, formula-se logo a idia de que todo conceito ou toda hiptese
devem ser rejeitados do esprito como metafsica, por no serem extrados da matria bruta
sensvel. Porque todo pensamento s recebe seu contedo material atravs da relao com o mundo
sensvel. Julgo perfeitamente exata esta idia; em compensao, uma construo que sistematiza
dessa forma o pensamento me parece falsa. Pois esta pretenso lgica, levada ao extremo, excluiria
inevitavelmente qualquer pensamento como metafsico.

Para que o pensamento no degenere em metafsica, quer dizer em parolice,  preciso que um
nmero suficiente de proposies de um sistema conceptual esteja ligado de modo exato s
experincias sensveis e que o sistema conceptual, na funo essencial de ordenar e de sintetizar o
vivido sensvel, revele a maior unidade, a maior economia possvel. Afinal, o sistema exprime um
livre jogo (lgico) de smbolos por meio de regras (lgicas) arbitrariamente dadas. De igual
maneira, tudo isto  vlido para traduzir o cotidiano; e at para pensar as Cincias, sob uma forma
mais consciente e mais sistemtica.

Aquilo que vou dizer torna-se ento mais claro: Hume, por sua crtica lcida, possibilita um
progresso decisivo da filosofia. Mas causa, sem responsabilidade de sua parte, um real perigo,
porque esta crtica suscita um medo da metafsica errado, por realar um vcio da filosofia
emprica contempornea. Este vcio corresponde ao outro extremo da filosofia nebulosa da
antiguidade, quando ela pretendia poder dispensar os dados sensveis, ou at mesmo desprez-los.

Apesar de minha admirao pela perspicaz anlise apresentada por Russell em Meaning and
Truth, tenho receio de que tambm a. o espectro do medo metafsico haja causado alguns estragos.
Esta angstia me explica, por exemplo, o papel da razo para conceber a coisa como um feixe de
qualidades, qualidades que devem ser abstradas da matria pura sensvel. Este fato (duas coisas
devem ser consideradas uma nica e a mesma coisa se se correspondem respectivamente em suas
qualidades) nos obriga a avaliar as relaes geomtricas dos objetos como qualidades. (De outro
modo, seramos obrigados, de acordo com Russell, a declarar serem a mesma coisa a Torre Eiffel
em Paris e a torre de Nova Iorque.) Diante disto, no vejo perigo metafsico em acolher o objeto
(objeto no sentido da fsica) como um conceito independente no sistema ligado  estrutura espacial-
temporal que lhe pertence.

Levando em conta esses esforos, estou contente ainda por descobrir, no ltimo captulo, que
no se pode dispensar a Metafsica. Minha nica crtica esclarece a m conscincia intelectual
que se sente atravs das linhas.

OS ENTREVISTADORES

Se pedem publicamente a algum que d as razes de tudo quanto declarou, mesmo por
brincadeira, num momento de capricho ou de despeito momentneo,  em geral coisa desagradvel,
mas afinal de contas normal. Mas se publicamente vm pedir-lhe uma justificativa daquilo que
outros disseram em nome do senhor, sem que pudesse proibi-lo, ento sua situao seria aflitiva.
Quem  este coitado? podero perguntar. Na verdade, qualquer homem cuja popularidade basta
para justificar a visita dos entrevistadores! Podem no acreditar! Tenho tanta experincia sobre este
assunto, que no hesito em referi-la.

Imaginem, uma bela manh, um reprter lhe faz uma visita e pede amavelmente que d sua
opinio sobre seu amigo N. A princpio o senhor sente alguma irritao diante desta pretenso. Mas
bem depressa percebe que no h escapatria possvel. Porque se recusar uma resposta equivaler a:
Interroguei o homem que  tido pelo melhor amigo de N., mas ele recusou prudentemente. Desta

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atitude, o leitor tirar inevitveis concluses. Ento, j que no h nenhuma escapatria, o senhor
declara:

N. tem um carter alegre, franco, estimado por todos os amigos. Sabe ver o lado bom de
cada situao. Pode assumir responsabilidades e chega a realiz-las sem restrio de tempo. Sua
profisso  sua paixo, mas ama a famlia e d  esposa tudo quanto tem...

Isto significar: N. no leva nada a srio. Possui o raro talento de se fazer amar por todos e
se esfora para isto por um comportamento exuberante e amvel. Mas  de tal forma escravo de sua
profisso que no pode refletir sobre assuntos pessoais ou interessar-se por questes estranhas a sua
pesquisa. Trata a esposa com excesso de cuidados, escravo ablico de seus desejos...

Um verdadeiro profissional em reportagem diria tudo isto num estilo ainda mais incisivo. Mas
para o senhor e seu amigo N., j  bastante. Porque no dia seguinte, N. l isto no jornal e outras
frases do mesmo gnero e sua clera contra o senhor explode com fria, apesar do carter alegre e
franco. A ofensa que lhe fizeram fazem com que o senhor fique profundamente aborrecido porque
gosta realmente de seu amigo.

Ento?! que fazer nesta situao? Se descobrir um mtodo, eu lhe suplico, ensine-me para que
possa aplic-lo imediatamente.

FELICITAES A UM CRTICO

Ver com os prprios olhos, sentir e julgar sem sucumbir  fascinao da moda, poder dizer o
que se viu, o que se sentiu, com um estilo preciso ou por uma expresso artisticamente cinzelada,
que maravilha. Ser preciso ainda felicit-lo?

MINHAS PRIMEIRAS IMPRESSES DA AMRICA DO NORTE

Tenho de cumprir a promessa de dizer em poucas palavras minhas impresses sobre a
Amrica do Norte. No  to simples assim. Porque nunca  simples julgar como observador
imparcial, quando se foi acolhido com tanta afeio e exagerada estima quanto o fui na Amrica.

Por isto, uma observao prvia:

O culto da personalidade  a meus olhos sempre injustificado.  claro, a natureza reparte seus
dons de maneira muito diferente entre seus filhos. Mas, graas a Deus, existe grande nmero de
filhos generosamente dotados e, na maior parte, levam uma vida tranqila e sem histria. Parece-me
portanto injusto e at de mau gosto, ver umas poucas pessoas incensadas com exagero e, alm do
mais, gratificadas com foras sobre-humanas de inteligncia e de carter.  este meu destino! Ora,
existe um contraste grotesco entre as capacidades e os poderes que os homens me atribuem e aquilo
que sou e o que posso. A conscincia deste estado de coisas falacioso seria insuportvel, se uma
soberba compensao no me consolasse. Porque  um sinal encorajador em nossa poca, tida por
to materialista, que transforme homens em heris, quando as finalidades de tais heris se
manifestam exclusivamente no domnio intelectual e moral. Isto prova que o conhecimento e a
justia so, para grande parte da humanidade, julgados superiores  fortuna e ao poder. Minhas
experincias me mostraram a predominncia desta estrutura ideolgica em grau elevado nesta
Amrica acusada de ser to materialista. Depois desta digresso, vou falar de meu assunto, mas,
peo, no dem a minhas modestas observaes mais importncia do que tm.

Para um visitante, a primeira e mais viva admirao  provocada pela assombrosa
superioridade tcnica e racional deste pas. Mesmo os objetos de uso comum so mais resistentes e
mais slidos do que na Europa, e as casas to mais funcionais! Tudo  calculado para economizar o
trabalho humano. Porque este  caro, uma vez que o pas  pouco povoado em comparao com os
recursos naturais. Mas b preo elevado da mo-de-obra estimula e desenvolve de modo fabuloso os
meios tcnicos e os mtodos de trabalho. Por contraste, pensa-se na ndia ou na China,
superpovoadas, em que o irrisrio preo da mo-de-obra humana impediu o desenvolvimento dos
meios tcnicos. A Europa ocupa posio intermediria. Quando o maquinismo se desenvolve

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bastante, ele se torna rentvel e custa menos do que a mo-de-obra humana. Na Europa, os fascistas
deveriam refletir sobre isto! Porque, por motivos de poltica a curto prazo, trabalham por aumentar
a densidade da populao em suas respectivas ptrias. Por outro lado, os Estados Unidos, mais
reservados, se fecham sobre si mesmos por um sistema de imposto proibitivo sobre as mercadorias
estrangeiras. Pode-se exigir de um visitante inofensivo que quebre a cabea? Pode-se realmente
estar seguro de que cada pergunta comporta uma resposta inteligente?

Segunda surpresa para o visitante; presta ateno na atitude americana feliz e positiva diante
da vida. Nas fotografias nota-se este sorriso dos seres, smbolo de uma das principais foras dos
americanos. Mostra-se amvel, consciente de seu valor, otimista e sem inveja, ao passo que o
europeu julga os contactos com os americanos inocentes e agradveis.

Em compensao, o europeu demonstra esprito crtico, forte conscincia de si, falta de
generosidade e de auxlio mtuo, exige muito de seus divertimentos e de suas leituras,
relativamente aos americanos. Mas no final das contas, revela-se bastante pessimista.

A vida suave, o conforto tm um lugar importante nos Estados Unidos. Sacrificam-lhes
fadiga, preocupao e tranqilidade. O americano vive mais em funo de uma meta precisa e para

o futuro do que o europeu. A vida, para ele,  mais um devir, no um estado. Neste sentido 
radicalmente diferente do russo e do asitico, mais ainda do que do europeu.
Todavia existe outro domnio em que o americano se assemelha mais ao asitico do que o
europeu. Reconhece ser menos estritamente egotista do que o europeu, encarado psicologicamente e
no economicamente.

Fala-se mais ns do que eu. Sem dvida, isto resulta de que os usos e a conveno
ocupam lugar importante, o ideal de vida dos indivduos e sua atitude moral e esttica parecem mais
conformistas do que na Europa. Este fato explica em grande parte a superioridade econmica
americana sobre a Europa. Com efeito, com mais rapidez, mais facilidade do que na Europa se
organizam o trabalho, sua repartio, eficcia na fbrica, na universidade ou at em um instituto
particular de beneficncia. Esta atitude social talvez provenha parcialmente da influncia inglesa.

Violento contraste, enfim, com os comportamentos europeus: a zona de influncia do Estado 
relativamente fraca. O europeu admira-se de que o telgrafo, o telefone, as estradas de ferro, a
escola pertenam na maioria a sociedades particulares. J explicamos isso acima. A atitude mais
social do indivduo o permite. Alm do mais, a repartio fundamentalmente desigual dos bens no
provoca as desigualdades insuportveis sempre pela mesma razo. O senso de responsabilidade
social dos ricos se revela mais vivo aqui do que na Europa. Acham muito natural consagrar grande
parte de sua fortuna, e at mesmo de sua atividade, a servio da comunidade. Imperiosamente, a
opinio pblica (poderosa!) o exige deles. Acontece ento que as funes culturais mais importantes
podem ser confiadas  iniciativa particular e que o raio de ao do Estado neste pas seja
relativamente bastante reduzido.

Contudo o prestgio da autoridade do Estado diminuiu singularmente por causa da Lei Seca.
Nada  mais prejudicial, para o prestgio da lei e do Estado, do que promulgar leis sem ter os meios
para faz-la respeitar.  uma evidncia reconhecida que o ndice crescente de criminalidade neste
Estado depende estreitamente desta lei.

Sob outro aspecto, a proibio contribui, no meu entender, para o enfraquecimento do Estado.
O botequim oferecia um lugar onde os homens tinham a oportunidade de trocar suas
idias e
opinies sobre os negcios pblicos. Oportunidade que aqui desaparece, a meu ver, a ponto de fazer
com que a imprensa, controlada em grande parte pelos grupos interessados, exera uma influncia
determinante e sem contraste sobre a opinio pblica.

O inegvel valor do dinheiro neste pas se revela ainda mais forte do que na Europa, mas
parece-me decrescer. Aos poucos se substitui a idia de que uma grande fortuna no  mais
indispensvel para uma vida feliz e prspera.

No plano artstico, sinto a mais viva admirao pelo gosto que se manifesta nas construes
modernas e nos objetos da vida diria. Em compensao, relativamente  Europa, julgo o povo
americano menos aberto para as artes plsticas e para a msica.

Admiro profundamente os resultados dos institutos de pesquisa cientfica. Entre ns, com

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muita injustia, se interpreta a superioridade crescente da pesquisa americana exclusivamente como
fruto do poder do dinheiro. Ora, devotamento, tolerncia, esprito de equipe, senso da cooperao
contribuem de modo singular para seu sucesso. Para terminar, uma observao! Os Estados Unidos,
hoje, representam a fora mundial tecnicamente mais avanada. Sua influncia sobre a organizao
das relaes internacionais nem se pode medir. Mas a grande Amrica e seus habitantes ainda no
manifestaram at agora profundo interesse pelos grandes problemas internacionais, e sobretudo por
aquele, terrivelmente atual, do desarmamento. Isto deve mudar, no interesse mesmo dos
americanos. A ltima guerra provou que no h mais continentes isolados, mas que os destinos de
todos os povos esto hoje estreitamente imbricados. Por conseguinte, ser preciso que este povo se
convena de que cada habitante seu tem uma grande responsabilidade no domnio da poltica
internacional. Este pas no deve se resignar com a funo de observador inativo, esta funo com o
correr do tempo se revelaria nefasta para todos.

RESPOSTA S MULHERES AMERICANAS

Uma liga de mulheres americanas julgou dever protestar contra a entrada de Einstein em sua
ptria. Recebeu a seguinte resposta:

Jamais encontrei, da parte do belo sexo, reao to enrgica contra uma tentativa de
aproximao. Se por acaso isto aconteceu, jamais, em uma s vez, tantas mulheres me repeliram.

No tm razo, estas cidads vigilantes? Deve-se acolher um homem que devora os
capitalistas calejados com o mesmo apetite, a mesma volpia com que, outrora, o Minotauro
cretense devorava as delicadas virgens gregas e que, alm do mais, se revela to grosseiro que
recusa todas as guerras, com exceo do inevitvel conflito com a prpria esposa? Escutai portanto,
vs, mulheres prudentes e patriotas; lembrai-vos tambm que o Capitlio da poderosa Roma foi
outrora salvo pelo cacarejar de suas fiis patas.

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CAPTULO II

Poltica e pacifismo

SENTIDO ATUAL DA PALAVRA PAZ

Os gnios mais notveis das antigas civilizaes sempre preconizaram a paz entre as naes.
Compreendiam sua importncia. Mas hoje, esta posio moral  rechaada pelos progressos
tcnicos. E nossa humanidade civilizada descobre o novo sentido da palavra paz: significa
sobrevivncia. Do mesmo modo, seria concebvel que um homem, em s conscincia, pudesse fugir
 sua verdadeira responsabilidade diante do problema da paz?

Em todos os pases do mundo, grupos industriais poderosos fabricam armas ou participam de
sua fabricao; em todos os pases do mundo, eles se opem  resoluo pacfica do menor litgio
internacional. Contra eles, porm, os governos atingiro este objetivo. essencial da paz, quando a
maioria dos eleitores os apoiar energicamente. Porque vivemos em regime democrtico e nosso
destino e o de nosso povo dependem inteiramente de ns.

A vontade coletiva se inspirar nesta ntima convico pessoal.

COMO SUPRIMIR A GUERRA

Minha responsabilidade na questo da bomba atmica se limita a uma nica interveno:
escrevi uma carta ao Presidente Roosevelt. Eu sabia ser necessria e urgente a organizao de
experincias de grande envergadura para o estudo e a realizao da bomba atmica. Eu o disse.
Conhecia tambm o risco universal causado pela descoberta da bomba. Mas os sbios alemes se
encarniavam sobre o mesmo problema e tinham todas as chances para resolv-lo. Assumi portanto
minhas responsabilidades. E no entanto sou apaixonadamente um pacifista e minha maneira de ver
no  diferente diante da mortandade em tempo de guerra e diante de um crime em tempo de paz. J
que as naes no se resolvem a suprimir a guerra por uma ao conjunta, j que no superam os
conflitos por uma arbitragem pacfica e no baseiam seu direito sobre a lei, elas se vem
inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra. Participando da corrida geral dos armamentos e no
querendo perder, concebem e executam os planos mais detestveis. Precipitam-se para a guerra.
Mas hoje, a guerra se chama o aniquilamento da humanidade.

Protestar hoje contra os armamentos no quer dizer nada e no muda nada. S a supresso
definitiva do risco universal da guerra d sentido e oportunidade  sobrevivncia do mundo. Daqui
em diante, eis nosso labor cotidiano e nossa inabalvel deciso: lutar contra a raiz do mal e no
contra os efeitos. O homem aceita lucidamente esta exigncia. Que importa que seja acusado de
anti-social ou de utpico?

Gandhi encarna o maior gnio poltico de nossa civilizao. Definiu o sentido concreto de
uma poltica e soube encontrar em cada homem um inesgotvel herosmo quando descobre um
objetivo e um valor para sua ao. A ndia, hoje livre, prova a justeza de seu testemunho. Ora, o
poder material, em aparncia invencvel, do Imprio Britnico foi submergido por uma vontade
inspirada por idias simples e claras.

QUAL O PROBLEMA DO PACIFISMO?

Senhoras, Senhores,

Meus agradecimentos por me permitirem exprimir minhas idias sobre este problema.
Alegro-me por terem os senhores me proporcionado a ocasio de expor brevemente o

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problema do pacifismo. A evoluo dos ltimos anos de novo ps em foco como temos poucas
razes para confiar aos governos a responsabilidade na luta contra os armamentos e as atitudes
belicosas. Mas tambm a formao de. grandes organizaes, mesmo com muitos membros, no
pode por si s nos aproximar da meta. Continuo a afirmar que o meio violento da recusa do servio
militar  o melhor.  proclamado por organizaes que, em vrios pases, ajudam moral e
materialmente os corajosos objetores de conscincia.

Por este meio podemos mobilizar os homens quanto ao problema do pacifismo. Porque esta
questo, posta assim to direta e concretamente, interpela as naturezas ntegras sobre esse tipo de
combate. Porque, na verdade, trata-se de um combate ilegal, mas de um combate pelo direito real
dos homens contra seus governos, j que estes exigem de seus cidados atos criminosos.

Muitos bons pacifistas no gostariam de praticar o pacifismo desta maneira, invocando razes
patriticas.

Nos momentos crticos, porm, poder-se- contar com eles. A guerra mundial provou-o
cabalmente.

Agradeo-lhes sinceramente por me terem dado a ocasio de lhes manifestar de viva voz
minha opinio.

ALOCUO NA REUNIO DOS ESTUDANTES PELO DESARMAMENTO

Graas s descobertas da cincia e da tcnica, as ltimas geraes nos ofereceram um
magnfico presente de valor: poderemos nos libertar e embelezar nossa vida como nunca outras
geraes o puderam fazer. Mas este presente traz consigo perigos para nossa vida, como nunca
antes.

Hoje, o destino da humanidade civilizada repousa sobre os valores morais que consegue
suscitai em si mesma. Por isto a tarefa de nossa poca de modo algum  mais fcil do que as
realizadas pelas ltimas geraes.

Aquilo de que os homens precisam como alimentao e bens de uso corrente pode ser
satisfeito ao cabo de horas de trabalho infinitamente mais reduzidas. Em compensao, o problema
da repartio do trabalho e dos produtos fabricados se mostra cada vez mais difcil. Percebemos
todos que o livre jogo das foras econmicas, o esforo desordenado e sem freio dos indivduos
para adquirir e dominar j no conduzem mais, automaticamente, a uma soluo suportvel deste
problema.  preciso uma ordem planificada para a produo dos bens, o emprego da mo-de-obra e
a repartio das mercadorias fabricadas; trata-se de evitar o desaparecimento ameaador de
importantes recursos produtivos, o empobrecimento e o retorno ao estado selvagem de grande parte
da populao.

Contudo, se na vida econmica o egosmo, monstro sagrado, acarreta
conseqncias
nefastas, na vida poltica internacional causa estragos ainda mais atrozes. Agora os progressos da
tcnica militar tornam possvel o extermnio de toda a vida humana, a menos que os homens
descubram, e bem depressa, os meios de se protegerem contra a guerra. Este ideal  capital e os
esforos at hoje empregados para atingi-lo so ainda ridiculamente insuficientes. Procura-se
atenuar o perigo pela diminuio dos armamentos e por regras limitativas no exerccio do direito 
guerra. Mas a guerra no  um jogo de sociedade onde os parceiros respeitam escrupulosamente as
regras. Quando se trata de ser ou de no ser, regras e compromissos no valem nada. Somente a
rejeio incondicional da guerra pode salvar-nos. Porque a criao de uma corte de arbitragem no
basta de forma alguma nesta circunstncia. Seria preciso que tambm os tratados inclussem a
afirmao de que as decises de semelhante corte seriam aplicadas coletivamente por todas as
naes. Afastada esta certeza, jamais as naes assumiro o risco do desarmamento.

Imaginemos! Os governos americano, ingls, alemo, francs exigem do governo japons a
imediata cessao das hostilidades contra a China, sob pena de um boicote estrito de todas as
mercadorias made in Japan. Julgam os senhores que um governo japons assumiria para seu pas
um risco to grande? Ora, contra toda a evidncia isto no se deu. Por qu? Cada pessoa, cada
nao receia verdadeiramente por sua existncia. Por qu? Porque cada qual s tem em vista o

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prprio proveito, imediato e desprezvel, e no quer considerar primeiro o bem e o proveito da
comunidade.

Por isso eu lhes declarei, logo de incio, que o destino da humanidade repousa essencialmente
e mais do que nunca sobre as foras morais do homem. Se quisermos uma vida livre e feliz, ser
absolutamente necessrio haver renncia e restrio.

Onde haurir foras para semelhante modificao? Alguns j desde a juventude tiveram a
possibilidade de fortalecer o esprito pelo estudo e de manter um modo claro de julgar. So os
antigos, eles olham para os senhores e esperam que lutem com todas as energias com o fito de obter
afinal aquilo que nos foi recusado.

SOBRE O SERVIO MILITAR

Extrato de uma carta

Em vez de autorizar o servio militar na Alemanha, dever-se-ia proibi-lo em todos os pases e
no admitir um exrcito a no ser o dos mercenrios, podendo-se discutir sobre sua importncia e
armamento. A Frana, por este meio, se tranqilizaria, mesmo que se satisfaa com a compensao
dada  Alemanha. Deste modo se impediria o desastre psicolgico provocado pela educao militar
do povo e a morte dos direitos do indivduo inerentes a esta pedagogia.

Que vantagem evidente para dois Estados, de pleno acordo, em dirimir seus inevitveis
conflitos por um arbitramento, e que progresso poder unificar sua organizao militar de
profissionais em um nico corpo de quadros mistos! Que economia financeira e que aumento de
segurana para os dois pases! Um arranjo assim poderia estimular unies cada vez mais estreitas e
at chegar a uma polcia internacional que se reduziria  medida que a segurana internacional
crescesse.

Querem discutir esta proposta-sugesto com nossos amigos? No quero defend-la de modo
especial. Mas julgo indispensvel que nos apresentemos com programas concretos. Porque ficar s
em posio de defesa no oferece nenhum interesse estratgico.

A SIGMUND FREUD

Muito caro Senhor Freud,

Sempre admirei sua paixo para descobrir a verdade. Ela o arrebata acima de tudo. O senhor
explica com irresistvel clareza o quanto na alma humana os instintos de luta e de aniquilamento
esto estreitamente relacionados com os instintos do amor e da afirmao da vida. Ao mesmo
tempo, suas exposies rigorosas revelam o desejo profundo e o nobre ideal do homem que quer se
libertar completamente da guerra. Por esta profunda paixo se reconhecem todos aqueles que,
superando seu tempo e sua nao, foram julgados mestres, espirituais ou morais. Descobrimos o
mesmo ideal em Jesus Cristo, em Goethe ou em Kant! No  bastante significativo ver que estes
homens foram reconhecidos universalmente como mestres apesar de terem fracassado em sua
vontade de estruturar as relaes humanas?

Estou persuadido de que os homens excepcionais que ocupam a posio de mestres graas a
seus trabalhos (mesmo em crculo bem restrito) participam deste mesmo nobre ideal. No tm
grande influncia sobre o mundo poltico. Em compensao, a sorte das naes depende, ao que
parece, inevitavelmente de homens polticos, sem nenhum escrpulo e sem qualquer senso de
responsabilidade.

Tais chefes e governos polticos obtm seu cargo seja pela violncia seja por eleies
populares. No podem se apresentar como representantes da parte intelectual e moralmente superior
das naes. Quanto  elite intelectual, no exerce influncia alguma sobre o destino dos povos.
Dispersa demais, no pode nem trabalhar, nem colaborar quando se trata de resolver um problema

#
urgente. Sendo assim, no pensa o senhor que uma associao livre de personalidades  garantindo
suas capacidades e a sinceridade da vontade por suas aes e criaes anteriores  no poderia
propor realmente um programa novo? Uma comunidade de estrutura internacional, na qual os
membros se obrigariam a ficar em contacto por permanente intercmbio de suas opinies, poderia
tomar posio na imprensa, mas sempre sob a responsabilidade estrita dos signatrios, e exercer
influncia significativa e moralmente sadia na resoluo de um problema poltico. Evidentemente,
tal comunidade se veria a braos com os mesmos inconvenientes que, nas academias de cincia,
provocam tantas vezes pesados malogros. So os riscos inerentes, indissoluvelmente ligados 
fraqueza da natureza humana. Apesar do que, no seria preciso tentar uma associao deste gnero?
Para mim, julgo-a um dever imperioso.

Se se chegasse a concretizar semelhante associao intelectual, ela teria de procurar educar
sistematicamente as organizaes religiosas no sentido de se baterem contra a guerra. Daria fora
moral a muitas personalidades cuja boa vontade se v esterilizada por penosa resignao. Creio
enfim que uma associao com tais membros, inspirando imenso respeito bem justificado por suas
obras intelectuais, daria precioso apoio moral s foras da Sociedade das Naes que realmente
consagram suas atividades ao nobre ideal dessa instituio.

Submeto-lhe estas idias, ao senhor mais do que a qualquer outro, porque o senhor  menos
vulnervel do que qualquer um s quimeras e seu esprito crtico se baseia em um sentimento muito
profundo da responsabilidade.

AS MULHERES E A GUERRA

Na minha opinio, na prxima guerra, dever-se-ia mandar para as primeiras linhas as
mulheres patriotas de preferncia aos homens. Isto seria pela primeira vez uma novidade neste
mundo desesperado de horror infinito e, alm disso, por que no utilizar os sentimentos hericos do
belo sexo de modo mais pitoresco do que em atacar um civil sem defesa?

TRS CARTAS A AMIGOS DA PAZ

1. Soube que, por inspirao de seus nobres sentimentos e levado pelo amor dos homens e de
seu destino, o senhor realiza quase secretamente maravilhas. Raros so aqueles que olham com os
prprios olhos e sentem com a prpria sensibilidade. Unicamente estes
poderiam evitar que os
homens venham de novo a mergulhar no clima de apatia, hoje proposto como inelutvel a uma
desorientada massa.
Possam os povos abrir os olhos, compreender o valor da renncia nacional indispensvel para
evitar a mortandade de todos contra todos! O poder da conscincia e do esprito internacional ainda
 tmido demais. No momento atual revela-se mais fraco ainda, j que tolera um pacto com os
piores inimigos da civilizao. Neste nvel, a diplomacia da conciliao se chama crime contra a
humanidade, mesmo se a defendem em nome da sabedoria poltica.

No podemos desesperar dos homens, pois ns mesmos somos homens. E  um consolo
pensar que existem personalidades como o senhor, vivas e leais.

2. Devo confessar que uma declarao, do tipo da que vai junto, no representa, a meu ver,
valor algum para um povo que em tempo de paz se submete ao servio militar. Sua luta deve
procurar ter como resultado a liberao de qualquer obrigao militar. O povo francs pagou
terrivelmente caro sua vitria de 1918! E no entanto, apesar do peso desta experincia, o servio
militar mantm a Frana na mais ignbil de todas as espcies de servido.
Seja portanto infatigvel nesta luta! O senhor tem mesmo aliados objetivos entre os
reacionrios e militaristas alemes. Porque se a Frana se aferra  idia do servio militar
obrigatrio, no lhe ser possvel, com o tempo, proibir a introduo desse servio na Alemanha.
Ento fatalmente se chegar  reivindicao alem da igualdade dos direitos. Para cada escravo
militar francs, haver dois escravos militares alemes. Ser que isto concordaria com os interesses

#
franceses? S a supresso radical do servio militar obrigatrio autoriza imaginar a educao da
juventude no esprito de reconciliao, na afirmao das foras da vida e no respeito de todas as
formas vivas.

Creio que a recusa ao servio militar, pela objeo de conscincia simultaneamente afirmada
por cinqenta mil convocados ao servio, teria um poder irresistvel. Porque um indivduo sozinho
no pode obter muita coisa e no se pode desejar que seres do maior valor sejam entregues ao
aniquilamento pelo abominvel monstro de trs cabeas: estupidez, medo, cobia.

3. Em sua carta o senhor analisou um ponto absolutamente essencial. A indstria dos
armamentos representa concretamente o mais terrvel perigo para a humanidade. Mascara-se,
poderosa fora maligna, por trs do nacionalismo que se estende por toda parte.
A nacionalizao do Estado poderia sem dvida oferecer alguma utilidade. Mas a delimitao
das indstrias interessadas parece muito complicada. Incluiro a indstria aeronutica? e em que
propores nelas entraro a indstria metalrgica, a indstria qumica?

Quanto  indstria das munies e o comrcio do material de guerra, a Sociedade das Naes,
j h anos, se esfora por exercer um controle sobre este trfico abominvel. Mas, quem ignora o
malogro desta poltica? No ano passado, perguntei a um diplomata americano de renome por que,
mediante um boicote comercial, no se impedia o Japo de perseverar em sua poltica de ataques?
Resposta: nossos interesses econmicos esto por demais implicados. Como ajudar a indivduos
de tal forma cegos por tais respostas? E o senhor cr que uma palavra minha seria suficiente para
obter um resultado neste campo! Que engano! Enquanto no os atrapalho, os homens me elogiam.
Mas se tento defender uma poltica desagradvel a seus olhos, insultam-me e caluniam-me a fim de
protegerem seus interesses. Quanto aos indiferentes, eles se refugiam na maior parte do tempo numa
atitude de covardia. Ponha  prova a coragem cvica de seus concidados! A divisa tacitamente
aceita se revela: assunto tabu... nem um pio! Pode estar certo, empregarei todas as foras para
executar o que puder, no sentido que o senhor me indica. Mas pela via direta, como me sugere, no
h nada a tentar.

PACIFISMO ATIVO

Considero-me muito feliz por assistir a esta grande manifestao pacifista, organizada pelo
povo flamengo. Pessoalmente sinto necessidade de falar diante de todos os que aqui participam, em
nome daqueles que pensam como os senhores e tm as mesmas angstias diante do futuro: Ns
nos sentimos profundamente unidos aos senhores nestes momentos de recolhimento e de tomada de
conscincia.

No temos o direito de mentir a ns mesmos. A melhoria das condies humanas atuais,
constrangedoras e desesperadoras, no pode ser imaginada como possvel sem terrveis conflitos.
Porque o pequeno nmero de pessoas decididas aos meios radicais pesa pouco diante da massa dos
hesitantes e dos recuperados.* E o poder das pessoas diretamente interessadas na manuteno da
mquina da guerra continua considervel. No recuaro diante de nenhum processo para obrigar a
opinio pblica a se dobrar diante de suas exigncias criminosas.

Segundo todas as aparncias, os estadistas atualmente no poder tm por objetivo estabelecer
de modo duradouro uma paz slida. Mas o incessante aumento das armas prova claramente que
estes estadistas no tm peso diante das potncias criminosas que s querem preparar a guerra.
Continuo inabalvel neste ponto: a soluo est no povo, somente no povo. Se os povos quiserem
escapar da escravido abjeta do servio militar, tm de se pronunciar categoricamente pelo
desarmamento geral. Enquanto existirem exrcitos, cada conflito delicado se arrisca a levar 
guerra.

Um pacifismo que s ataque as polticas de armas dos Estados  impotente e permanece
impotente.

Que os povos compreendam! Que se manifeste sua conscincia! Assim galgaramos nova

* Recuperado. Do francs recupere, soldado reformado que  recrutado para a guerra. (N. do E.).
#
etapa no progresso dos povos entre si e nos recordaramos do quanto a guerra foi a incompreensvel
loucura de nossos antepassados!

UMA DEMISSO

Ao secretrio alemo da Sociedade das Naes

Prezado Senhor Dufour-Feronce,

No quero deixar sua amvel carta sem resposta porque o senhor poderia se enganar ao
considerar meu ponto de vista. Minha deciso de no mais comparecer a Genebra baseia-se na
evidncia adquirida por dolorosa experincia: a comisso em geral no manifesta em suas sesses a
firme vontade de realizar os progressos indispensveis para as relaes internacionais. Muito ao
contrrio, assemelha-se a uma pardia do adgio ut aliquid fieri videatur.* Vista deste modo, a
comisso me parece at mesmo pior do que a Sociedade das Naes em conjunto.

Por ter querido me bater com todas as foras pela criao de uma Corte Internacional de
Arbitragem e de regulamentao colocada acima dos Estados, e porque este ideal representa
muitssimo para mim, creio dever deixar esta Comisso.

A Comisso aprovou a represso das minorias culturais nos vrios pases porque, nestes
mesmos pases, ela constituiu uma Comisso Nacional, nico lao terico entre os intelectuais do
Estado e a Comisso. Esta poltica deliberada afasta-a de sua funo prpria: ser um apoio moral
para as minorias nacionais contra toda opresso cultural.

Alm disso, a Comisso manifestou uma atitude de tal forma hipcrita em face do problema
da luta contra as tendncias chauvinistas e militaristas do ensino nos diversos pases, que no se
pode esperar tenha uma atitude decisiva nesse domnio essencial, fundamental.

A Comisso constantemente se dispensou de ser o apoio de personalidades ou de organizaes
que, de modo irrecusvel, se empenharam por uma ordem jurdica internacional e contra o sistema
militar.

A Comisso jamais tentou impedir a integrao de membros que bem sabia serem
representantes de correntes de idias fundamentalmente diversas daqueles que tinha a obrigao de
representar.

No quero mais enumerar outras acusaes, pois estas poucas objees do suficiente motivo
para se compreender minha deciso. No quero no entanto me arvorar em acusador. Mas devia
explicaes sobre minha atitude. Se eu tivesse uma esperana, ainda que fosse mnima, teria agido
de modo diferente, pode crer.

SOBRE A QUESTO DO DESARMAMENTO

A realizao de um plano de desarmamento era ainda mais complicada porque, em geral, no
se encarava claramente a enorme complexidade do problema. De ordinrio a maioria dos objetivos
se obtm por escales sucessivos. Lembremo-nos por exemplo da transformao da monarquia
absoluta em democracia! Mas aqui o objetivo no suporta nenhum escalo.

Com efeito, enquanto a possibilidade da guerra no for radicalmente supressa, as naes no
consentiro em se despojar do direito de se equipar militarmente do melhor modo possvel para
esmagar o inimigo de uma futura guerra. No se poder evitar que a juventude seja educada com as
tradies guerreiras, nem que o ridculo orgulho nacional seja exaltado paralelamente com a
mitologia herica do guerreiro, enquanto for necessrio fazer vibrar nos cidados esta ideologia
para a resoluo armada dos conflitos. Armar-se significa exatamente isto: no aprovar e nem
organizar a paz, mas dizer sim  guerra e prepar-la. Sendo assim, no se pode desarmar por etapas,
mas de uma vez por todas ou nunca.

* Para dar a impresso de que se faz algo. (N. do E.).
#
Na vida das naes, uma realizao de estrutura to profundamente diferente implica uma
fora moral nova e uma recusa consciente de tradies fundamente arraigadas. Aquele que no est
pronto a entregar, em caso de conflito e sem condies, o destino de seu pas s decises de uma
Corte internacional de arbitragem e que no est pronto a se comprometer solenemente e sem
reservas a isto por um tratado, no est realmente decidido a eliminar as guerras. A soluo  clara:
tudo ou nada.

At este momento, os esforos empregados para conseguir a paz fracassaram, porque
ambicionavam somente resultados parciais insuficientes.

Desarmamento e segurana s se conquistam juntos, A segurana no ser real a no ser que
todas as naes tomem o compromisso de executar por completo as decises internacionais.

Estamos portanto na encruzilhada dos caminhos. Ou tomaremos a estrada da paz ou a estrada
j freqentada da fora cega, indigna de nossa civilizao.  esta nossa escolha e por ela seremos
responsveis! De um lado, liberdade dos indivduos e segurana das comunidades nos esperam. Do
outro, servido dos indivduos e aniquilamento das civilizaes nos ameaam. Nosso destino ser
aquele que escolhermos.

A RESPEITO DA CONFERNCIA DO DESARMAMENTO EM 1932

1. Consentem que comece por uma profisso de f poltica? Ei-la. O Estado foi criado para os
homens, e no o inverso. Pode-se apresentar o mesmo arrazoado tanto para a Cincia quanto para o
Estado. Velhas mximas buriladas por seres que situavam a pessoa humana no cume da hierarquia
dos valores! Eu teria vergonha de repeti-las, se no estivessem sempre ameaadas de mergulhar no
esquecimento, sobretudo em nossa poca de organizao e de rotina. Ora, a tarefa principal do
Estado consiste nisto: proteger o indivduo, oferecer-lhe a possibilidade de se realizar como pessoa
humana criativa.
O Estado deve ser nosso servidor e no temos obrigao de ser seus escravos. Esta lei
fundamental  vilipendiada pelo Estado, quando nos constrange  fora ao servio militar e 
guerra. Nossa funo de escravos se exerce ento para aniquilar os homens de outros pases ou para
prejudicar a liberdade de seu progresso. Consentir em certos sacrifcios ao Estado s  um dever
quando contribuem para o progresso humano dos indivduos. Estas proposies talvez paream
evidentes para um americano, mas de modo algum para um europeu. Por este motivo, esperamos
que a luta contra a guerra desperte poderoso eco entre os americanos.

Falemos agora desta conferncia do desarmamento. Refletindo sobre ele, devemos sorrir,
chorar ou esperar? Imaginem uma cidade habitada por cidados irascveis, desonestos e rixentos.
Seria permanente o risco de morrer e permanente, portanto, a terrvel angstia, neutralizando
qualquer evoluo normal. A autoridade da cidade quer ento suprimir estas condies pavorosas...
mas cada magistrado e concidado no aceita, sob nenhuma condio, que lhe probam trazer um
punhal no cinto! Depois de longos anos de preparao, a autoridade decide debater em pblico o
problema e prope este tema de discusso: comprimento e corte do punhal individual autorizado a
ser trazido no cinto durante os passeios?

Enquanto os cidados conscientes no tomarem a dianteira graas  lei,  justia e  polcia
para impedir as punhaladas, a situao ficar a mesma. A determinao do comprimento e do corte
dos punhais autorizados s favorecer os violentos e belicosos e lhes submeter os mais fracos. Os
senhores compreendem todo o sentido desta comparao. Temos com efeito uma Sociedade das
Naes e uma Corte de Arbitragem. Mas a Sociedade das Naes mais se parece a uma sala de
reunio do que a uma assemblia e a Corte no tem meios de fazer respeitar seus
veredictos. Em caso
de agresso, nenhum Estado encontrar segurana junto da Sociedade das Naes. No se
esqueam, pois, desta evidncia quando avaliarem a posio da Frana e sua recusa de se desarmar,
sem segurana. Os senhores julgaro ento com menor severidade do que se costuma fazer.

Cada povo deve compreender e querer as limitaes necessrias a seu direito de soberania,
cada povo deve intervir e associar-se aos outros povos contra qualquer transgressor das decises da
Corte, oficialmente ou secretamente. Seno, manteremos o clima geral de anarquia, de ameaa. A

#
soberania ilimitada dos diversos Estados e a segurana em caso de agresso so proposies
inconciliveis, apesar de todos os sofismas. Haver ainda necessidade de novas catstrofes para
incitar os Estados a se empenharem em executar todas as decises da Corte Internacional de
Justia? Nas bases de sua recente evoluo, nossa esperana para o prximo futuro  bem reduzida.
Cada amigo da civilizao e da Justia, porm, tem de se bater para convencer seus semelhantes da
inevitvel necessidade desta obrigao internacional entre os Estados.

Objetar-se- com razo que esta idia valoriza demais o sistema jurdico, mas negligencia as
psicologias nacionais e os valores morais. Fazem ver que o desarmamento moral deveria preceder o
desarmamento material. Afirma-se tambm, com verdade, que o maior obstculo para a ordem
internacional consiste no nacionalismo exacerbado, denominado ilusria e simpaticamente de
patriotismo. Com efeito, nos ltimos cento e cinqenta anos, esta divindade adquiriu um poder
criminoso angustiante e extraordinrio.

Para vencer esta objeo,  preciso entender que os fatores racionais e humanos se
condicionam reciprocamente e convencer-se disto. Os sistemas dependem estreitamente de
concepes tradicionais sentimentais, e delas extraem as razes de existir e de se proteger. Mas os
sistemas elaborados, por sua vez, influenciam poderosamente as concepes tradicionais
sentimentais.

O nacionalismo, hoje espalhado por toda parte de maneira to perigosa, se desenvolve
perfeitamente a partir da criao do servio militar obrigatrio, ou, belo eufemismo, do exrcito
nacional. Exigindo dos cidados o servio militar, o Estado se v obrigado a neles exaltar o
sentimento nacionalista, base psicolgica dos condicionamentos militares. Ao lado da religio, o
Estado deve glorificar em suas escolas, aos olhos da juventude, seu instrumento de fora brutal.

A introduo do servio militar obrigatrio, eis a principal causa, a meu ver, da decadncia
moral da raa branca. Assim se coloca a questo da sobrevivncia de nossa civilizao e at mesmo
de nossa vida! Por isto o poderoso influxo da revoluo francesa traz inmeras vantagens sociais,
mas tambm a maldio que, em to pouco tempo, caiu sobre todos os outros povos.

Quem quer desenvolver o sentimento internacional e combater o chauvinismo nacional, tem
de combater o servio militar obrigatrio. As violentas perseguies que se abatem sobre aqueles
que, por motivos morais, recusam cumprir o servio militar, sero menos ignominiosas para a
humanidade do que as perseguies a que se expunham nos tempos passados os mrtires da
religio? Ousar-se- hipocritamente proclamar a guerra fora da lei, como o faz o pacto Kellog,
enquanto se entregam indivduos sem defesa  mquina assassina da guerra em qualquer pas?

Se, no esprito da conferncia do desarmamento no quisermos nos limitar ao aspecto do
sistema jurdico, mas desejarmos tambm incluir, de modo prtico e leal, o aspecto psicolgico, ser
preciso tentar oferecer, a cada indivduo, por via internacional a possibilidade legal de dizer no ao
servio militar. Esta iniciativa jurdica suscitaria sem dvida alguma poderoso movimento moral.
Numa palavra. Simples convenes sobre a reduo dos armamentos no do absolutamente
segurana. A Corte de Arbitragem obrigatria deve dispor de um executivo garantido por todos os
Estados participantes. Este interviria por sanes econmicas e militares contra o Estado violador
da paz. O servio militar obrigatrio tem de ser combatido porque constitui o principal foco de um
nacionalismo mrbido. Aqueles que fazem objeo de conscincia devem portanto ser de modo
particular protegidos internacionalmente.

2. O engenho dos homens nos ofereceu, nos ltimos cem anos, tanta coisa que teria podido
facilitar uma vida livre e feliz, se o progresso entre os homens se efetuasse ao mesmo tempo que os
progressos sobre as coisas. Ora, o laborioso resultado se assemelha, para nossa gerao, ao que seria
uma navalha para uma criana de trs anos. A conquista de fabulosos meios de produo no trouxe
a liberdade, mas as angstias e a fome.
Pior ainda, os progressos tcnicos fornecem os meios de aniquilar a vida humana e tudo o que
foi duramente criado pelo homem. Ns, os velhos, vivemos esta abominao durante a guerra
mundial. Porm, mais ignbil do que este aniquilamento, vivemos a escravido vergonhosa a que o
homem se v arrastado pela guerra! No  pavoroso ser constrangido pela comunidade a realizar
atos que cada um, diante de sua conscincia, considera criminosos? Ora, poucos foram aqueles que

#
revelaram tanta grandeza de alma que se recusaram a comet-los. No entanto, a meus olhos, so os
verdadeiros heris da guerra mundial.

H uma luzinha de esperana. Tenho a impresso hoje de que os chefes responsveis dos
povos tm sincera inteno e vontade de abolir a guerra. A resistncia a este progresso
absolutamente necessrio apia-se nas tradies malss dos povos: transmitem-se de gerao em
gerao, atravs do sistema de educao, como um cancro hereditrio. A principal defensora de tais
tradies  a instruo militar e sua glorificao, bem como aquela frao da imprensa ligada s
indstrias pesadas ou de armamento. Sem desarmamento, nada de paz duradoura. Inversamente, os
armamentos militares ininterruptos, nas atuais normas, conduzem inevitavelmente a novas
catstrofes.

Por isso a conferncia sobre o desarmamento de 1932 ser decisiva para esta gerao e a
seguinte. As conferncias precedentes terminaram por resultados, confessemos, desastrosos. Por
conseguinte, impe-se a todos os homens perspicazes e responsveis que conjuguem todas as
energias para cristalizar cada vez mais na opinio pblica o papel essencial da conferncia de 1932.
Se, em seus pases, os chefes de Estado encarnarem a vontade pacfica de uma maioria resoluta,
ento e s assim podero realizar este ideal. Cada um, por suas aes e palavras, pode ajudar na
formao desta opinio pblica.

O malogro da conferncia ser certo se os delegados ali se apresentarem com instrues
definitivas, cuja aceitao se transformaria em questo de prestgio. Esta poltica parece ter sido
descartada. Porque as reunies de diplomatas, delegao por delegao, reunies
freqentes nos
ltimos tempos, foram consagradas a preparar solidamente a conferncia por discusses sobre o
desarmamento. Este processo me parece muito feliz. Com efeito, dois homens ou dois grupos
podem trabalhar com um esprito judicioso, sincero e sem paixo, se no intervier um terceiro grupo
que  preciso levar em conta no debate. E se a conferncia for preparada seguindo este processo, se
os gestos teatrais forem excludos e se uma verdadeira boa vontade criar um clima de confiana,
somente ento poderemos esperar uma sada favorvel.

Neste gnero de conferncias, o sucesso no depende da inteligncia ou da percia, mas da
honestidade e da confiana. O valor moral no pode ser substitudo pelo valor inteligncia e eu
acrescentaria: Graas a Deus!

O ser humano no pode se contentar com esperar e criticar. Deve lutar por esta causa, tanto
quanto puder. O destino da humanidade ser o que prepararmos.

A AMRICA E A CONFERNCIA DO DESARMAMENTO EM 1932

Os americanos esto hoje inquietos com a situao econmica de seu pas e suas
conseqncias. Os dirigentes, cnscios de suas responsabilidades, esforam-se principalmente por
resolver a terrvel crise de desemprego em seu prprio pas. A idia de estarem ligados ao destino do
resto do mundo, particularmente ao da Europa, me ptria, se encontra menos viva do que em
tempo normal.

Mas a economia liberal no ir resolver automaticamente as prprias crises. Ser preciso um
conjunto de medidas harmoniosas vindas da comunidade, para realizar entre os homens uma justa
repartio do trabalho e dos produtos de consumo. Sem isso, a populao do pas mais rico se
asfixia. Como o trabalho necessrio para as necessidades de todos diminuiu pelo aperfeioamento
da tecnologia, o livre jogo das foras econmicas no consegue sozinho manter o equilbrio que
permita o emprego de todas as foras de trabalho. Uma regulamentao planificada e realista se
impe a fim de se utilizarem os progressos da tecnologia no interesse comum.

Se daqui em diante a economia no pode mais subsistir sem rigorosa planificao, esta  ainda
mais exigida pelos problemas econmicos internacionais. Hoje, poucos indivduos pensam
realmente que as tcnicas de guerra representam um sistema vantajoso, aplicvel  humanidade para
resolver os conflitos humanos. Mas os outros homens no tm lgica nem coragem para denunciar

o sistema e impor medidas que tornem impossvel a guerra, este vestgio selvagem e intolervel dos
tempos antigos. Ser preciso ainda uma reflexo profunda para detectar o sistema e depois uma
#
coragem a toda prova, para quebrar as cadeias desta escravido, o que exige uma deciso
irrevogvel e uma inteligncia muito lcida.

Aquele que deseja abolir de fato a guerra tem de intervir com energia para que o Estado do
qual  cidado renuncie a uma parte de sua soberania em proveito das instncias internacionais.
Deve preparar-se, no caso de algum conflito de seu pas, para submet-lo  arbitragem da Corte
internacional de justia. Exige-se dele que lute com todas as foras pelo desarmamento geral dos
Estados, previsto at mesmo pelo lamentvel tratado de Versalhes. Se no se suprime a educao do
povo pelos militares e pelos patriotas belicosos, a humanidade no poder progredir.

Nenhum acontecimento dos ltimos anos foi to humilhante para os Estados civilizados
quanto esta sucesso de malogros de todas as conferncias anteriores sobre o desarmamento. Os
politiqueiros ambiciosos e sem escrpulos, por suas intrigas, so os responsveis por esse fracasso,
mas tambm, por toda parte, em todos os pases, a indiferena e a covardia. Se no mudarmos,
pesar sobre ns a responsabilidade do aniquilamento da soberba herana de nossos antepassados.

Receio muito que o povo americano no assuma sua responsabilidade nesta crise. Porque
assim se pensa nos Estados Unidos: A Europa vai perder-se se se deixa levar pelos sentimentos de
dio e de vingana dos seus habitantes. O Presidente Wilson havia semeado o bom gro. Mas
aquele solo europeu estril fez nascer o joio. Quanto a ns, somos os mais fortes, os menos
vulnerveis, e to cedo no recomearemos a nos intrometer nas questes dos outros.

Quem pensa assim  um medocre que no enxerga nada alm da ponta do nariz. A Amrica
no pode lavar as mos diante da misria europia. Pela exigncia brutal do pagamento de suas
dvidas, a Amrica acelera a queda econmica da Europa e com isto tambm sua decadncia moral.
Ela  responsvel pela balcanizao europia e participa tambm da responsabilidade por esta crise
moral na poltica, incitando assim o esprito de desforra j alimentado pelo desespero. A nova
mentalidade no encontrar um dique nas fronteiras americanas. Seria meu dever adverti-los: suas
fronteiras j foram transpostas. Olhem ao redor de vocs, tomem cuidado!

Basta de tanto palavreado! A conferncia do desarmamento significa para ns, e para os
senhores, a ltima oportunidade de salvar a herana do passado. Os senhores so os mais poderosos,
os menos atingidos pela crise,  portanto para os senhores que o mundo olha, e confia esperanoso.

A CORTE DE ARBITRAGEM

Um desarmamento planificado e rpido no ser possvel a no ser que esteja ligado 
garantia de segurana de todas as naes que o assinaram, cada uma em separado, sob a
dependncia de uma Corte de Arbitragem permanente, rigorosamente independente dos governos.

Incondicional compromisso dos Estados-membros: aceitar os veredictos da Corte e p-los em
execuo.

Trs cortes separadas: Europa-frica, Amrica e sia. A Austrlia unida a alguma das trs.
Uma Corte de Arbitragem idntica para os conflitos no resolvidos nas trs.

A INTERNACIONAL DA CINCIA

Durante a guerra, quando a loucura nacional e poltica atingia o auge, Emile Fisher, numa
sesso da Academia, exclamou com vivacidade: Os Senhores no podem nada, mas a Cincia  e
ser internacional. Os melhores sbios sempre souberam disto e viveram com paixo, mesmo que
em pocas de crise poltica tenham ficado submersos no meio de seus confrades de menor
envergadura. Quanto  multido de indivduos, apesar de seu direito de voto, durante a ltima
guerra e nos dois campos, ela traiu o depsito sagrado que lhe fora confiado! A Associao
internacional das Academias foi dissolvida. Congressos se realizaram e ainda se realizam com a
excluso dos colegas dos pases antes inimigos. Graves razes polticas, apresentadas com um
cerimonial hipcrita, impedem que o ponto de vista objetivo, necessrio para o xito deste nobre
ideal, possa predominar.

#
Que podem fazer as pessoas honestas, no abaladas pelas agitaes apaixonadas do imediato,
a fim de recuperar aquilo que j se perdeu? E at mesmo no momento presente, no se podem mais
organizar congressos internacionais de grande envergadura por causa da extrema agitao da
maioria dos intelectuais. E os bloqueios psicolgicos contra o restabelecimento das associaes
cientficas internacionais se fazem sentir duramente, a ponto de uma minoria, cheia de idias e
sentimentos mais elevados, no conseguir super-los. No entanto esta minoria coopera na meta
suprema de restabelecer as instncias internacionais no sentido de manter estreitas relaes com os
sbios de mesma generosidade moral, e intervindo constantemente na prpria esfera de ao para
preconizar medidas internacionais. Mas o sucesso, o sucesso definitivo pode demorar. 
absolutamente necessrio. Aproveito-me da ocasio para felicitar grande nmero de meus colegas
ingleses. Porque, durante todos estes longos anos de fracassos, conservaram bem viva a vontade de
salvaguardar a comunidade intelectual.

Em toda parte, as declaraes oficiais so mais sinistras do que os pensamentos dos
indivduos. As pessoas honestas tm de abrir os olhos, no se deixarem manipular, enganar:
senatores bani viri, senatus autem bestia.*

Sou fundamentalmente otimista quanto aos progressos da organizao internacional geral, no
por me basear na inteligncia ou na nobreza dos sentimentos, porm avalio a opresso impiedosa do
progresso econmico. Ora, ele depende, em grau muito elevado, da capacidade de trabalho dos
sbios, at dos sbios retrgrados! Por isso, mesmo estes ltimos ajudaro, sem o saber, a criar a
organizao internacional.

A RESPEITO DAS MINORIAS

Infelizmente vai se tornando um lugar-comum: as minorias, particularmente as de traos
fsicos evidentes. so consideradas pelas maiorias no meio das quais vivem absolutamente como
classes inferiores da humanidade. Este destino trgico se percebe no drama que vivem
naturalmente, tanto no plano econmico quanto no social, e sobretudo no fato seguinte: as vtimas
de semelhante horror se impregnam por sua vez, por causa da perversa influncia da maioria, do
mesmo preconceito de raa e comeam a ver seus semelhantes como inferiores. Este segundo
aspecto, mais terrvel e mais mrbido, deve ser suprimido por uma coeso maior e uma educao
mais inteligente da minoria.

A energia consciente dos negros americanos, tendendo a este fim, saibamos compreend-la,
pratic-la.

ALEMANHA E FRANA

Uma colaborao confiante entre a Alemanha e a Frana no poder existir se a reivindicao
francesa de uma garantia segura em caso de agresso militar no for satisfeita. Mas, se a Frana
fizer estas exigncias, esta posio ser inevitavelmente mal recebida na Alemanha.

Julgo ser preciso agir de outro modo, creio mesmo que  possvel. O governo alemo prope
espontaneamente ao governo francs submeter de comum acordo  Sociedade das Naes uma
moo recomendando a todos os Estados participantes que se comprometam acerca dos dois
seguintes pontos:

1) Cada pas se submete a toda deciso da Corte Internacional de Arbitragem.

2) Cada pas, de acordo com todos os outros Estados membros da Sociedade das Naes, e 
custa de todos os seus recursos econmicos e militares, intervir contra qualquer Estado que violar
a paz ou que rejeitar uma deciso internacional ditada pelo interesse da paz mundial.

* Os Senadores so boas pessoas, mas o Senado  um animal feroz, provrbio latino. (N. do E.).
#
O INSTITUTO DE COOPERAO INTELECTUAL

Neste ano, pela primeira vez, os polticos europeus competentes tiraram as
conseqncias de
sua experincia. Compreendem enfim que nosso continente no pode superar seus problemas a no
ser que supere os tradicionais Conflitos de sistemas polticos. A organizao poltica europia se
fortaleceria e a supresso das barreiras alfandegrias que dificultam se intensificaria. Objetivo
superior que no depende de simples convenes do Estado.  preciso, em primeiro lugar e antes de
tudo, uma propedutica dos espritos.  necessrio, pois, que despertemos nos homens um
sentimento de solidariedade que no se detm nas fronteiras, como se faz at agora. Inspirando-se
neste ideal, a Sociedade das Naes criou a Comisso de cooperao intelectual. Esta comisso
deve ser um organismo absolutamente internacional, afastado de toda poltica, preocupado
exclusivamente com todos os campos da vida intelectual para pr em comunicao os centros
culturais nacionais, isolados desde a guerra. Tarefa pesada! Porque, tenhamos a coragem de
confess-lo  pelo menos nos pases que conheo melhor , os sbios e os artistas se deixam
levar pelas tendncias nacionalistas agradveis com maior facilidade do que os homens dotados
para ideais mais generosos.

At o momento esta comisso se reunia duas vezes por ano. Para obter resultados mais
satisfatrios, o governo francs decidiu criar e manter permanente um instituto de cooperao
intelectual. Acaba de ser inaugurado nestes dias. Este ato generoso do governo francs merece o
reconhecimento de todos.

Tarefa simples e magicamente eficaz, exaltar-se para conceder louvores ou sugerir um grande
silncio sobre aquilo que  de se lamentar ou criticar! Mas o progresso de nossos trabalhos s se faz
pela retido. Por isso no receio exprimir minha apreenso juntamente com minha alegria por esta
criao.

Cada dia me conveno mais que o pior inimigo de nossa comisso est na ausncia de
convico em seu objetivo poltico. Dever-se-ia fazer tudo para fortalecer esta confiana e no
aceitar nada que pudesse atingi-la.

J que o governo francs instala e sustenta em Paris, graas s finanas pblicas, um instituto
permanente da Comisso, tendo por diretor um cidado francs, aqueles que esto mais distanciados
tm a impresso de que a influncia francesa nesta Comisso  preponderante. Impresso que
aumenta por si mesma, porque at agora o seu Presidente era um francs. Mesmo que os homens
em questo sejam estimados por todos e em todo lugar, mesmo que se beneficiem da maior
simpatia, a impresso se mantm. Dixi et salvavi animam meam*. Espero de corao que o novo
instituto conseguir, em perfeita e constante harmonia com a Comisso, aproximar-se melhor das
metas comuns e ganhar a confiana e o reconhecimento dos trabalhadores intelectuais de todos os
pases.

CIVILIZAO E BEM-ESTAR

Se se quiser avaliar o desastre que a grande catstrofe poltica provocou na evoluo da
civilizao,  preciso lembrar-se de que uma cultura mais requintada se assemelha a uma planta
frgil, dependente de elementos complexos e que s se desenvolve em alguns poucos lugares. Seu
crescimento exige um condicionamento delicado. Porque uma parte da populao de um pas
trabalha em questes no diretamente indispensveis  conservao da vida. Isto supe uma viva
tradio moral a valorizar os bens e os produtos da civilizao. A possibilidade de viver  dada aos
que se empregam nesses trabalhos por aqueles que s se entregam aos trabalhos relacionados com
as necessidades imediatas da vida.

Nos ltimos cem anos, a Alemanha pertencia s culturas que se beneficiam destas duas
condies. O nvel de vida era sem dvida limitado, mas suficiente; porm quanto  tradio dos

* Tenho dito e salvo a minha alma; isto : no tenho culpa se minhas palavras no so levadas em considerao.
(N. do E.).
#
valores, esta se revelava preponderante e sobre esta estrutura o povo inventava riquezas culturais
indispensveis ao desenvolvimento moderno. Hoje a tradio, em seu conjunto, ainda se mantm,
mas a qualidade de vida se modificou. Retiraram-se, em grande parte da indstria do pas, as fontes
de matria-prima de que vivia a parte industriosa da populao. O suprfluo necessrio aos
operrios criadores de valores intelectuais comeou a faltar de repente. Assim, esse modo de vida
acarreta a baixa dos valores da tradio e uma das mais ricas plantaes da civilizao se transforma
em deserto.

J que d tanto valor aos dons intelectuais, a humanidade tem a obrigao de se preservar
contra o cncer nesse domnio. Ir dar remdio ento, com todas as suas foras,  crise momentnea
e despertar uma ideologia comum superior, relegada ao ltimo plano pelo egosmo nacional: o
preo dos valores humanos situa-se para alm de qualquer poltica e de todas as barreiras
fronteirias. A humanidade dar a cada povo condies de trabalho que permitam, de fato, viver e,
por conseguinte, criar esses valores de civilizao.

SINTOMAS DE UMA DOENA DA VIDA CULTURAL

O intercmbio incondicional das idias e das descobertas impe-se para um progresso
harmonioso da cincia e da vida cultural. Em meu entender, a interveno dos poderes polticos
deste pas provocou, sem dvida alguma, um desastre j visvel nesta comunicao livre dos
conhecimentos entre indivduos. Manifesta-se primeiro no trabalho cientfico propriamente dito.
Depois, em um segundo tempo, manifesta-se em todas as disciplinas da produo. Os controles das
instncias polticas sobre a vida cientfica da nao se repercutem muito profundamente pela recusa
aos sbios de viajarem para o estrangeiro, imposta aqui, e pela recusa em acolher sbios
estrangeiros aqui nos Estados Unidos. Uma atitude to estranha num pas to poderoso constitui o
sintoma aparente de uma doena muito escondida.

E ainda as intervenes na liberdade de comunicar os resultados cientficos oralmente ou por
escrito, e tambm o comportamento suspeitoso da comunidade, ladeada por uma organizao
policial gigantesca, que suspeita da opinio poltica de cada um, e ainda a angstia de cada
indivduo que quer evitar aquilo que provavelmente o tornaria suspeito e comprometeria ento sua
existncia econmica, tudo isto no passa, no momento, de sintomas. Mas que revelam
caractersticas inquietadoras, os sintomas do mal.

O mal verdadeiro se elabora na psicose gerada pela guerra, que depois proliferou por toda
parte: em tempo de paz, temos de organizar nosso inteiro condicionamento de vida, em particular o
trabalho, para estarmos certos da vitria, em caso de guerra.

Esta proposio provoca uma outra: nossa liberdade e nossa existncia esto ameaadas por
poderosos inimigos.

A psicose explica as abominaes descritas como sintomas. Ela deve  salvo se houver cura

 acarretar inevitavelmente a guerra e portanto o aniquilamento geral. Est perfeitamente expressa
no oramento dos Estados Unidos.
Quando tivermos triunfado desta obsesso, poderemos abordar de modo inteligente o
verdadeiro problema poltico: como assegurar numa terra, agora pequena demais, a existncia e as
relaes humanas? Por que tudo isto? Porque no poderemos nos libertar dos sintomas conhecidos e
de outros, se no atacarmos a molstia pela raiz.

REFLEXES SOBRE A CRISE ECONMICA MUNDIAL

Se h alguma razo para impelir um leigo em questes econmicas a dar corajosamente sua
opinio sobre o carter das dificuldades econmicas angustiantes de nossa poca,  certamente a
confuso desesperadora dos diagnsticos estabelecidos pelos especialistas. Minha reflexo no 
original e apenas representa a convico de um homem independente e honesto  sem preconceitos
nacionalistas e sem reflexos de classe  que deseja ardente e exclusivamente o bem da

#
humanidade, numa organizao mais harmoniosa da existncia humana. Escrevo como se estivesse
seguro da verdade de minhas afirmaes, mas o escrevo simplesmente como a forma mais cmoda
da expresso e no como testemunho de excessiva confiana em mim mesmo; ou como convico
da infalibilidade de minhas simples concepes sobre problemas de fato terrivelmente complexos.

Creio que esta crise  singularmente diferente das crises precedentes porque depende de
circunstncias radicalmente novas, condicionadas pelo fulgurante progresso dos mtodos de
produo. Para a produo da totalidade dos bens de consumo necessrios  vida, apenas uma
frao da mo-de-obra disponvel se torna indispensvel. Ora, neste tipo de economia liberal, esta
evidncia determina forosamente um desemprego.

Por motivos que no analiso aqui, a maioria dos homens se v, neste tipo de economia liberal,
obrigada a trabalhar para um salrio dirio que garanta sua necessidade vital. Suponhamos dois
fabricantes da mesma categoria de mercadorias, em iguais condies; um produz mais barato se
emprega menos operrios, se exige que trabalhem por mais tempo e com o rendimento mais
prximo das possibilidades fsicas do homem. Da resulta necessariamente que, nas atuais
condies dos mtodos de trabalho, s uma parte da fora de trabalho pode ser utilizada. E enquanto
esta frao  empregada de modo insensato, o resto se v inevitavelmente excludo do ciclo de
produo. Por conseguinte a colocao das mercadorias e a rentabilidade dos produtos diminui. As
empresas entram em falncia financeira. O desemprego aumenta e a confiana nas empresas
diminui, bem como a participao do pblico diante dos bancos. Os bancos ento vo ser obrigados
a cessar seus pagamentos, porque o pblico retira os depsitos e a economia toda inteira fica
bloqueada.

Pode-se tentar explicar a crise por outras razes. Vou analis-las:

Superproduo: distinguimos duas coisas, a superproduo real e a aparente. Por
superproduo real, quero indicar o excesso em relao s necessidades: mesmo que haja dvidas, 
provavelmente o caso hoje da produo de veculos automveis e de trigo nos Estados Unidos. Com
freqncia, entende-se por superproduo a situao na qual a produo de cada categoria de
mercadorias se mostra superior quilo que pode ser vendido nas atuais condies do mercado, ao
passo que os produtos faltam para os consumidores. Isto  a superproduo aparente. Neste caso,
no  a necessidade que falta, mas a capacidade de compra dos consumidores. A superproduo
aparente no passa de outro aspecto da crise e portanto no pode servir como explicao geral.
Raciocina-se portanto de forma especiosa, quando se torna a superproduo responsvel pela crise
atual.

Reparaes: a obrigao de entregar os pagamentos das diversas reparaes pesa sobre os
pases devedores e sobre sua economia. Obriga-se estes pases a praticarem uma poltica de
dumping e por conseguinte a prejudicarem os pases credores. Esta lei  incontestvel. Mas o
aparecimento da crise nos Estados Unidos, pas protegido por uma barreira alfandegria, prova que
a principal causa da crise mundial no est a. Por causa do pagamento das reparaes, a rarefao
do ouro nos pases devedores pode, quando muito, servir de argumento para invocar um motivo
para a supresso destes pagamentos, mas nunca para explicar a crise mundial.

A INTRODUO DE NUMEROSAS NOVAS BARREIRAS ALFANDEGARIAS, O
AUMENTO DAS CARGAS IMPRODUTIVAS DEVIDAS AOS ARMAMENTOS, A
INSEGURANA POLTICA PORQUE O PERIGO DA GUERRA  CONSTANTE: todas estas
razes explicam a degradao considervel da situao da Europa, sem atingir profunda e
verdadeiramente a Amrica. O aparecimento da crise na Amrica permite ver que as causas
invocadas no so as causas fundamentais da crise.

AUSNCIA DAS GRANDES POTNCIAS CHINA E RSSIA: esta degradao da
economia mundial no pode se fazer sentir muito na Amrica, portanto no deve ser a causa
principal da crise.

PROGRESSO ECONMICA DAS CLASSES INFERIORES DESDE A GUERRA: se
fosse verdade, produziria a carestia das mercadorias e no o excesso da oferta.

No quero exasperar o leitor pela enumerao de outros argumentos que, a meu ver, no
atingem o cerne do problema. Um ponto  claro. O mesmo progresso tcnico, que poderia liberar os

#
homens de grande parte do trabalho necessrio  vida,  o responsvel pela atual catstrofe. Da
alguns analistas quererem, com a maior seriedade do mundo, impedir a introduo das tcnicas
modernas!  o cmulo da insensatez! Mas como, de modo mais inteligente, sair deste beco sem
sada?

Se por qualquer meio se conseguisse obter que a capacidade de compra das massas se
estabelecesse abaixo do nvel julgado mnimo (avaliado pelo custo das mercadorias), as desordens
dos circuitos econmicos, aqueles em que vivemos atualmente, seriam impossveis.

Pela lgica, o mtodo mais simples, mas tambm o mais audacioso para impedir uma crise, 
a planificao econmica da produo e da distribuio dos bens de consumo atravs de toda a
comunidade. No fundo  a experincia hoje tentada na Rssia. Muitas coisas dependero dos
resultados dessa violenta experincia. Mas querer profetizar agora seria temerrio. Ser que, num
sistema desse tipo, se obtm a mesma produo econmica de um sistema que d ao indivduo
maior independncia? Pode ele manter-se sem o terror exercido at hoje, terror a que nenhum de
ns, marcados pelos valores ocidentais, aceitaria submeter-se? Ser que um sistema assim rgido
e centralizado no se arrisca a impedir qualquer inovao vantajosa e a se tornar uma economia
protegida?  preciso absolutamente evitar que nossos pensamentos se mudem em preconceitos,
formando um obstculo  emisso de um juzo objetivo.

Pessoalmente, sou de opinio que, em geral,  bom privilegiar os mtodos que se integram nas
tradies e nos costumes, quando concordam com a finalidade desejada. Julgo tambm que a
mudana brutal na direo da produo em proveito da comunidade no traz vantagens. A iniciativa
privada deve guardar seu terreno de ao se no foi, em forma de cartel, supressa pelo prprio
sistema.

De qualquer modo, a economia livre tem de reconhecer limites em dois pontos. O trabalho
semanal nas unidades de produo ser reduzido pelas disposies legais, a fim de extirpar
sistematicamente o desemprego. A fixao dos salrios mnimos ser estabelecida de modo a fazer
corresponder o poder de compra do assalariado com a produo.

Alm disto, nas produes que, pela organizao dos produtores, gozem da vantagem do
monoplio, o Estado fixar e controlar os preos, a fim de conter a expanso do capitalismo nos
limites razoveis e de impedir a asfixia provocada seja pela produo seja pelo consumo.

Seria assim talvez possvel reequilibrar a produo e o consumo sem limitar pesadamente a
iniciativa privada e, ao mesmo tempo, suprimir talvez, no sentido mais estrito da palavra, o
intolervel poder do capitalista, com seus meios de produo (terrenos, mquinas), sobre os
assalariados.

A PRODUO E O PODER DE COMPRA

No penso que o conhecimento das possibilidades de produo e de consumo seja a panacia
para resolver a crise atual, porque, em geral, este conhecimento s se elabora mais tarde. Na
Alemanha, o mal no consiste na hipertrofia dos meios de produo, mas no diminuto poder de
compra da grande maioria da populao, posta fora do circuito da produo pela racionalizao.

O padro-ouro tem o grande defeito: a penria da reserva-ouro acarreta automaticamente
penria no volume de crdito e dos meios de pagamento em circulao. Os preos e os salrios no
podem adaptar-se com suficiente rapidez a esta penria.

Para suprimir os inconvenientes ser preciso, a meu ver:

1. Diminuio legal, gradual, conforme s profisses, do tempo de trabalho para suprimir o
desemprego; paralelamente, a fixao de um salrio mnimo, para garantir o poder de compra das
massas em funo das mercadorias produzidas.
2. Regulao dos estoques de dinheiro em circulao e do volume dos crditos, mantendo
constante o preo mdio das mercadorias e suprimindo qualquer garantia particular.
3. Limitao legal do preo das mercadorias que, por causa dos monoplios ou dos cartis
institudos, se furtam de fato s leis da livre concorrncia.
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PRODUO E TRABALHO

Caro Senhor Cederstroem,

Vejo um vcio capital na liberdade quase ilimitada do mercado de trabalho paralelamente aos
progressos fantsticos dos mtodos de produo. Para corresponder de modo efetivo s
necessidades de hoje, toda a mo-de-obra disponvel  amplamente intil. Da o desemprego, a
concorrncia mals entre os assalariados e, junto com estas duas causas, a diminuio do poder de
compra e a intolervel asfixia de todo o circuito vital da economia.

Sei que os economistas liberais afirmam que o acrscimo das necessidades compensa a
diminuio da mo-de-obra. Sinceramente, no o creio. E mesmo que fosse verdade, esses fatores
resultaro em que grande parte da humanidade ver diminuir de modo anormal seu padro de vida.

Como o senhor, tambm eu julgo ser absolutamente preciso velar no sentido de que os jovens
possam tomar parte no processo da produo.  preciso. Os velhos tm de ser excludos de alguns
trabalhos  a isto dou o nome de trabalho sem qualificao  e receber em compensao uma
certa renda, pois anteriormente exerceram por bastante tempo um trabalho produtivo, reconhecido
pela sociedade.

Tambm estou de acordo com a supresso das grandes cidades. Mas recuso-me a aceitar o
estabelecimento de uma categoria particular de pessoas, por exemplo os velhos, em cidades
particulares. Isto , para mim, uma idia abominvel.

 necessrio impedir as flutuaes do valor do dinheiro e, para isto, substituir o padro-ouro
por uma equivalncia com base em quantidades determinadas de mercadorias, calcadas sobre as
necessidades vitais, como, se no me engano, Keynes j props h muito tempo. Pelo emprego
deste sistema, poder-se-ia conceder uma certa taxa de inflao ao valor do dinheiro, contanto que se
considere o Estado capaz de dar um emprego inteligente quilo que para ele representa um
verdadeiro presente.

As fraquezas de seu projeto se manifestam, em meu entender, na falta de importncia
concedida aos motivos psicolgicos. O capitalismo suscitou os progressos da produo, mas
tambm os do conhecimento, e no por acaso. O egosmo e a concorrncia continuam infelizmente
mais poderosos do que o interesse de todos ou que o senso do dever. Na Rssia no se pode nem
mesmo obter um bom pedao de po. Sem dvida, sou pessimista demais a respeito das empresas
do Estado ou comunidades semelhantes, mas de modo algum creio nelas. A burocracia leva a morte
a qualquer ao. Eu vi e vivi demais coisas desanimadoras, mesmo na Sua, que , no entanto,
relativamente, um bom exemplo.

Inclino-me a pensar que o Estado pode ser realmente eficaz se marcar os limites e harmonizar
os movimentos do mundo do trabalho. Deve velar para reduzir a concorrncia das foras de trabalho
a limites humanos, garantir a todas as crianas uma educao slida, garantir um salrio
suficientemente elevado de forma que os bens produzidos sejam comprados. Por seu estatuto de
controle e de regulamentao, o Estado pode realmente intervir, se suas decises forem preparadas
por homens competentes e independentes, com toda a objetividade.

OBSERVAES SOBRE A SITUAO ATUAL DA EUROPA

A situao poltica atual do mundo e particularmente da Europa parece-me caracterizada por
uma discrepncia brutal: a evoluo poltica, nos fatos e nas idias, ficou em enorme atraso em
relao ao mundo econmico, radicalmente modificado em tempo extremamente curto. Os
interesses dos estados individuais devem subordinar-se aos interesses de uma comunidade
singularmente ampliada. A luta pela nova concepo do pensamento e do senso poltico choca-se
com as tradies seculares. Mas  sua benfica vitria est ligada a possibilidade da Europa de
continuar a existir. Minha convico  que a soluo do problema real no demorar muito tempo,
assim que os problemas psicolgicos forem superados. Para criar uma atmosfera propcia, faz-se
mister, antes de mais nada, unificar os esforos pessoais daqueles que perseguem o mesmo ideal.

#
Possam esses esforos combinados chegar a criar uma ponte de confiana recproca entre os povos!

A RESPEITO DA COABITAO PACFICA DAS NAES

Contribuio ao programa de televiso da Senhora Roosevelt

Estou-lhe infinitamente grato, Senhora Roosevelt, por oferecer-me a ocasio de manifestar
minha convico sobre esta questo poltica capital.

A certeza de alcanar a segurana por meio do armamento nacional no passa de sinistra
iluso, quando se reflete no estado atual da tcnica militar. Nos Estados Unidos esta iluso se
fortaleceu de modo particular por outra iluso, a de ter sido o primeiro pas capaz de fabricar uma
bomba atmica. Gostariam de se persuadir de que os meios de atingir  superioridade militar
definitiva haviam sido encontrados. Porque pensavam que, por tais vias, seria possvel dissuadir
qualquer adversrio potencial, e assim salvarem-se a si mesmos e, ao mesmo tempo, a toda a
humanidade; o que correspondia ao desejo de segurana exigido por todos. A mxima, a absoluta
convico dos ltimos cinco anos, assim se resumia: a segurana em primeiro lugar, seja qual for a
dureza da opresso, qualquer que seja o preo.

Eis a conseqncia inevitvel desta atitude mecnica, tcnico-militar e psicolgica. Todas as
questes de poltica exterior so agora encaradas por um s ngulo. Como agir em caso de guerra
para que possamos levar a melhor contra nosso adversrio? Estabelecimento de bases militares em
todos os pontos do globo que sejam vulnerveis e de importncia estratgica; armamento e reforo
do poder econmico de aliados potenciais. Dentro dos Estados Unidos, concentrao de um poder
financeiro fabuloso nas mos dos militares, militarizao da juventude, vigilncia sobre o esprito
cvico leal do cidado e especialmente dos funcionrios, por uma polcia cada dia mais poderosa,
intimidao de pessoas que pensam de modo diferente em poltica, influncia sobre a mentalidade
das populaes atravs do rdio, da imprensa, da escola; censura a cada vez maior nmero de
setores da comunicao, sob pretexto de segredo militar.

Outras conseqncias: a corrida armamentista entre Estados Unidos e Rssia, a princpio
considerada necessria como preventiva, toma agora um aspecto histrico. Nos dois campos, a
fabricao de armas de destruio continua com uma pressa febril e no maior mistrio.

A bomba H aparece no horizonte como um objetivo plausivelmente possvel. Sua fabricao
acelerada  solenemente anunciada pelo Presidente. Se for construda esta bomba, acarretar a
contaminao radioativa da atmosfera e com isto o aniquilamento de toda a vida na terra em toda a
extenso que a tcnica tornar possvel. O horror nesta escalada consiste em sua aparente
inevitabilidade. Cada progresso parece a conseqncia inevitvel do progresso precedente. Sempre
mais, o aniquilamento geral se apresenta como a conseqncia fatal.

Nas atuais circunstncias, poder-se- pensar em meios de se salvar, quando ns prprios
criamos as condies de nossa morte? Todos, e em particular os responsveis pela poltica dos
Estados Unidos e da URSS, devem chegar a compreender que, de fato, venceram um inimigo
exterior, mas no so capazes de se livrar da psicose gerada pela guerra. No se pode chegar a uma
paz verdadeira se se determina sua poltica exclusivamente pela eventualidade de um futuro
conflito, sobretudo quando se tornou evidente que semelhante conflito significaria a completa runa.
A linha diretriz de toda a poltica deveria ser: Que podemos ns fazer para incitar as naes a
viverem em comum pacificamente e to bem quanto for possvel? A eliminao do medo e da
defesa recproca, eis o primeiro problema. A solene recusa de empregar a fora, uns contra os outros
(e no somente a renncia  utilizao dos meios de destruio macia), impe-se absolutamente.
Tal recusa somente ser eficaz se se referir  criao de uma autoridade internacional judiciria e
executiva,  qual se delegaria a resoluo de qualquer problema concernente diretamente 
segurana das naes. A declarao por parte das naes de participar lealmente da instalao de um
governo mundial restrito j diminuiria singularmente o risco da guerra.

A coexistncia pacfica dos homens baseia-se em primeiro lugar na confiana mtua, e s
depois sobre instituies como a justia ou a polcia. Esta regra aplica-se tanto s naes como aos

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indivduos. A confiana implica a sincera relao do give and take, quer dizer, do dar e do tomar.

Que pensar do controle internacional? Poder prestar servio acessrio em sua funo
policial. Mas sobretudo no demos excessivo valor a sua eficcia. Uma comparao com o tempo
da proibio nos deixa pensativos!

PARA A PROTEO DO GNERO HUMANO

A descoberta das reaes atmicas em cadeia no constitui para a humanidade perigo maior
do que a inveno dos fsforos. Mas temos de empregar tudo para suprimir o seu mau uso. No
estado atual da tecnologia, uma organizao supranacional s poder proteger-nos se dispuser de
poder executivo suficiente. Quando tivermos reconhecido esta evidncia, encontraremos ento a
fora de realizar os sacrifcios necessrios para a salvaguarda do gnero humano. Cada um de ns
seria culpado se o objetivo no fosse atingido a tempo. O perigo est em que cada um, sem fazer
nada, espera que ajam em seu favor. Todo indivduo, com conhecimentos limitados ou at
conhecimentos superficiais baseados na vulgarizao tcnica, tem o dever de sentir respeito pelos
progressos cientficos realizados em nosso sculo. No  arriscado exaltar demais as realizaes
cientficas contemporneas, se os problemas fundamentais da cincia esto presentes ao esprito. O
mesmo ocorre numa viagem de trem! Observe-se a paisagem prxima, o trem parece voar. Mas se
olhamos os espaos longnquos e os altos cumes, a paisagem s lentamente se modifica. O mesmo
acontece quando refletimos nos grandes problemas da cincia.

Pouco importa, a meu ver, discutir sobre our way of life ou o dos russos. Nos dois casos, um
conjunto de tradies e de costumes no forma um todo muito bem estruturado.  muito mais
inteligente procurar conhecer as instituies e as tradies teis ou prejudiciais aos homens,
benficas ou malficas para seu destino. Ento ser preciso utilizar deste modo o melhor, como tal
reconhecido de hoje em diante, sem se preocupar com saber se est sendo realizado agora entre ns
ou em outra parte.

NS, OS HERDEIROS

As geraes anteriores talvez tenham julgado que os progressos intelectuais e sociais apenas
representavam os frutos do trabalho de seus antepassados, que conseguiram uma vida mais fcil,
mais bela. As cruis provaes de nosso tempo mostram que h a uma iluso cheia de
conseqncias.

Compreendemos melhor agora que os esforos mais considerveis devem ser empregados no
sentido de que a herana se torne, para a humanidade, no uma catstrofe, mas uma oportunidade.
Se outrora um homem encarnava um valor aos olhos da sociedade quando ultrapassava uma certa
medida de seu egosmo pessoal, deve-se exigir dele hoje que ultrapasse o egosmo de seu pas e de
sua classe. S ento, tendo chegado a esse autodomnio, poder ele melhorar o destino da
comunidade humana.

Em face dessa temvel exigncia de nossa poca, os habitantes de pequenos Estados ocupam
uma posio relativamente mais favorvel do que os cidados de grandes Estados, expostos s
demonstraes da brutal fora poltica e econmica. A conveno entre a Holanda e a Blgica que,
nestes ltimos tempos,  a nica a iluminar com uma chama tnue os progressos da Europa, do o
direito de esperar que as pequenas naes tenham um papel essencial: seu modo de lutar e a recusa
de uma autodeterminao ilimitada em um pequeno Estado isolado chegaro  liberao da
escravido degradante do militarismo.

#
CAPTULO III

Luta contra o Nacional-Socialismo Profisso de f

Maro 1933

Recuso-me a permanecer em um pas onde a liberdade poltica, a tolerncia e a igualdade no
so garantidas pela lei. Por liberdade poltica entendo a liberdade de expressar publicamente ou por
escrito minha opinio poltica; e por tolerncia, o respeito a toda convico individual.

Ora, a Alemanha de hoje no corresponde a estas condies. Os homens mais devotados 
causa internacional e alguns grandes artistas so ali perseguidos.

Como um indivduo, um organismo social pode cair psicologicamente doente, sobretudo em
pocas de crise. Em geral, as naes tomam a peito vencer tais doenas. Espero portanto que sadias
relaes se restabeleam na Alemanha e que, no futuro, gnios como Kant e Goethe no sejam
motivo de rito de um festival de cultura, mas que os princpios essenciais de suas obras se
imponham concretamente na vida pblica e na conscincia de todos.

CORRESPONDNCIA COM A ACADEMIA DAS CINCIAS DA PRSSIA

Declarao da Academia a 1 de abril de 1933

Com indignao, a Academia das Cincias da Prssia tomou conhecimento, mediante artigos
dos jornais, da participao de Albert Einstein na abominvel campanha de imprensa levada a efeito
na Frana e na Amrica. Por conseguinte exigiu imediatamente suas explicaes. Nesse nterim,
Einstein pediu demisso da Academia, apresentando como pretexto no mais poder se considerar
cidado prussiano sob um tal regime. E j que foi cidado suo, parece assim ter o propsito de
renunciar  nacionalidade prussiana recebida em 1913, quando foi admitido na Academia como
membro ordinrio.

Diante deste comportamento contestatrio de A. Einstein no estrangeiro, a Academia de
Cincias da Prssia sente grande tristeza, quanto mais que ela e seus membros, j h longos anos, se
sentem afeioados ao Estado da Prssia e que, apesar das reservas que se impem estritamente no
domnio poltico, sempre defenderam e exaltaram a idia da Nao. Por este motivo, a Academia
no v nenhum motivo para lastimar a partida de Einstein. Pela Academia de Cincias da Prssia,

Prof. Doutor Ernst Heymann,
Secretrio perptuo

RESPOSTA DE A. EINSTEIN  ACADEMIA DE CINCIAS DA PRSSIA

Le Coq, perto de Ostende, 5 de abril de 1933

Soube por fonte absolutamente segura que a Academia das Cincias falou, em uma declarao
oficial, sobre a participao de Albert Einstein na abominvel campanha de imprensa levada a
efeito na Frana e na Amrica.

Declaro que jamais participei de uma campanha e devo acrescentar que nunca assisti a
qualquer coisa deste gnero. Em realidade, no mximo em algumas reunies contentaram-se com
lembrar e comentar as ordens e manifestaes oficiais de personalidades responsveis do governo
alemo, bem como o programa relativo ao aniquilamento dos judeus alemes no domnio
econmico.

As declaraes que entreguei  imprensa referem-se  minha demisso da Academia e 
minha renncia  cidadania prussiana. Baseei minha deciso neste argumento: jamais viverei num

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lugar onde os cidados suportam a desigualdade de direitos perante a lei e onde as idias e o ensino
dependem de controle do Estado.

J expliquei com clareza meu ponto de vista sobre a Alemanha atual, com as massas enfermas
psiquicamente, e tambm expliquei minha opinio sobre as causas dessa molstia.

Em escrito entregue, para fins de difuso,  Liga Internacional para a Luta contra o Antisemitismo  texto no diretamente destinado  imprensa  eu pedia a todos
os homens sensatos e
ainda fiis aos ideais de uma civilizao ameaada, que unissem todos os esforos para que esta
psicose das massas que se manifesta na Alemanha de maneira to horrvel no venha a se alastrar
mais ainda.

Teria sido fcil para a Academia conseguir o texto exato de minhas declaraes antes de se
pronunciar a meu respeito da maneira como o fez. A imprensa alem reproduziu minhas declaraes
de modo tendencioso, como se poderia esperar de uma imprensa amordaada como a de hoje.
Declaro-me responsvel por cada palavra publicada por mim. E espero, j que ela se associou a esta
difamao, que leve tambm esta declarao ao conhecimento de seus membros, bem como do
pblico alemo, diante do qual fui caluniado.

DUAS CARTAS DA ACADEMIA DA PRSSIA

I

Berlim, 7 de abril de 1933

Dignssimo Sr. Professor,

Como secretrio atualmente em exerccio da Academia da Prssia, acuso o recebimento de
sua comunicao, datada de 28 de maro, pela qual pede demisso desta Academia. Na sesso
plenria de 30 de maro, a Academia tomou conhecimento de sua sada.

Se a Academia lamenta profundamente esta sada, o pesar se baseia principalmente no fato de
que um homem do mais alto valor cientfico, cuja atividade exercida durante longos anos entre os
alemes e o fato de pertencer  nossa Academia deveriam ter integrado na maneira de ser e de
pensar alem, tenha se adaptado, atualmente e no estrangeiro, a um meio-ambiente que 
certamente e em parte pelo desconhecimento das circunstncias e dos reais acontecimentos  se
empenha em difundir juzos errneos e suspeitas injustificadas para prejudicar o povo alemo. De
um homem que por tanto tempo pertenceu a nossa Academia, teramos o direito de esperar sem
dvida que, sem consideraes sobre sua posio poltica pessoal, se poria ao lado daqueles que em
nossa poca defendem nosso povo contra uma campanha de calnias. Nestes dias de suspeitas em
parte escandalosas, em parte ridculas, como teria sido poderoso no estrangeiro seu testemunho em
favor do povo alemo. Que, ao contrrio, seu testemunho tenha sido aproveitado por aqueles que,
superando a fase de desaprovao do atual governo, se consideram no direito de rejeitar e combater

o povo alemo, isto nos causou grande e amarga desiluso, que nos teria constrangido a um
rompimento, mesmo que sua carta de demisso no nos houvesse chegado s mos.
Com nossos profundos respeitos,
Von Ficker.

II

11 de abril de 1933

A Academia das Cincias comunica, a respeito, que sua declarao do dia 1 de abril de 1933
no se baseia exclusivamente nas informaes da imprensa alem, mas sobretudo nos jornais
estrangeiros, particularmente belgas e franceses, que o Sr. Einstein no rejeitou. Alm do mais, a

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Academia veio a conhecer, entre outras coisas, sua declarao  Liga contra o Anti-semitismo,
declarao largamente difundida sob sua forma literal, em que dirige ataques contra a volta alem 
barbrie de tempos de h muito esquecidos. Alis, a Academia verifica que o
Sr., Einstein, que,
segundo a prpria declarao, no participou de nenhuma campanha, nada absolutamente fez para
contestar as calnias e as difamaes; no entanto, julgava que um de seus membros mais antigos
tinha o dever de combat-las. Muito ao contrrio, o Sr. Einstein fez declaraes no estrangeiro que,
como testemunho de um homem de reputao internacional, foram aproveitadas e deformadas
naqueles meios que desaprovam o atual governo alemo e contestam e condenam a totalidade do
povo alemo.

Pela Academia das Cincias da Prssia,

H. Von Ficker, E. Heymann,
secretrios perptuos.
RESPOSTA DE ALBERT EINSTEIN

Le Coq/Mer, Blgica,
12 de abril de 1933

Acabo de receber sua carta de 7 de abril e deploro imensamente o estado de esprito que
revela.

Quanto aos fatos, eis minha resposta.

A afirmao sobre minha atitude retoma sob outra forma sua declarao anterior: os senhores
me acusam de ter participado de uma campanha contra o povo alemo. Repito minha carta
precedente: sua afirmao  uma calnia.

Os senhores tambm observam que um testemunho de minha parte em favor do povo
alemo teria tido imensa repercusso no estrangeiro. A isto respondo. Semelhante testemunho,
como os senhores o imaginam, significaria para mim a negao de todas as concepes de justia e
de liberdade, pelas quais me bati durante a vida inteira. Tal testemunho, como dizem, no teria
servido  honra do povo alemo, degradado e aviltado. No teria o lugar de honra que o povo
alemo conquistou na civilizao mundial. Por um testemunho assim, nas atuais circunstncias e
mesmo de modo indireto, eu teria permitido o terrorismo dos costumes e a aniquilao de todos os
valores.

Justamente por estas razes eu me senti moralmente obrigado a deixar a Academia. Sua carta
me confirma quanta razo tenho eu em faz-lo.

CARTA DA ACADEMIA DAS CINCIAS DA BAVIERA

Munique, 8 de abril

Senhor,

Em sua carta  Academia das Cincias da Prssia, o senhor fundou sua demisso no estado de
fato reinante na Alemanha. A Academia das Cincias da Baviera, que o elegeu h alguns anos como
membro correspondente,  igualmente uma Academia alem, em total solidariedade com a
Academia da Prssia e as outras. Por conseguinte, sua ruptura com a Academia das Cincias da
Prssia no pode ficar sem influncia sobre suas relaes com nossa Academia.

Depois do que se passou entre o senhor e a Academia da Prssia, queremos portanto
perguntar-lhe como encara suas relaes conosco?

A Presidncia da Academia das
Cincias da Baviera

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RESPOSTA DE ALBERT EINSTEIN

Le Coq/Mer, 21 de abril de 1933

Baseei minha demisso da Academia das Cincias da Prssia nesta evidncia: na situao
atual, no posso ser cidado alemo nem me encontrar, seja de que modo for, sob a tutela do
Ministrio da Instruo Pblica da Prssia. Esta razo por si s no me obrigaria a uma ruptura com
a Academia da Baviera. No entanto, se desejo que meu nome seja riscado da lista dos membros
correspondentes, tenho uma outra razo. As Academias reconhecem como principal
responsabilidade sua a promoo e a salvaguarda da vida cientfica de um pas. Ora, as
comunidades culturais alemes, na medida em que posso sab-lo, aceitaram sem protestos que uma
parte no pequena de sbios e de estudantes alemes, bem como de trabalhadores dependentes da
instruo acadmica, tivesse sido privada da possibilidade de trabalho e at mesmo de viver na
Alemanha! Com uma Academia que tolera semelhante segregao, mesmo por constrangimento
exterior, eu jamais poderei colaborar!

RESPOSTA AO CONVITE PARA PARTICIPAR DE UMA MANIFESTAO

Estas linhas so a resposta ao convite dirigido a Einstein para participar de uma manifestao
francesa contra o anti-semitismo alemo.

Analisei cuidadosamente, sob todos os pontos de vista, seu pedido to importante. Porque ele
me diz respeito de modo muito ntimo. Recuso-me a participar de sua manifestao, malgrado sua
extrema importncia, por duas razes:

Em primeiro lugar, sou ainda cidado alemo, e em segundo, sou judeu. No me esqueo de
que trabalhei em instituies alems e fui considerado na Alemanha uma pessoa de confiana.
Mesmo sofrendo e deplorando que fatos to inquietadores se estejam produzindo em meu pas,
mesmo devendo condenar as terrveis aberraes que se realizam com a cumplicidade do governo,
no posso colaborar pessoalmente com uma organizao provinda de personalidades oficiais de um
governo estrangeiro. Para avaliar corretamente este ponto de vista, peo-lhe imaginar um cidado
francs, colocado em idntica situao, quer dizer, organizando com eminentes polticos alemes
uma manifestao contra as decises do governo francs. Mesmo que julgasse perfeitamente
fundada esta atitude, o senhor com toda a probabilidade consideraria a participao de seu
concidado um ato de traio! Se Zola, por ocasio da questo Dreyfus, tivesse sido obrigado a
deixar a Frana, certamente no teria participado de uma manifestao de personalidades alems,
ainda que, de fato, a aprovasse totalmente. Ele se isolaria, rubro de vergonha por seus compatriotas.

Eu sou judeu. Um protesto contra as injustias e os atos de violncia adquire incomparvel
valor significativo quando provm de pessoas que participam exclusivamente por sentimentos de
humanidade e de amor da justia. Mas eu, por ser judeu, considero os outros judeus meus irmos e
sinto a injustia feita a um judeu como uma injustia pessoal. Penso que no posso tomar partido.
Mas espero que pessoas no diretamente envolvidas definam sua posio.

So estas as minhas razes. No me esqueo de que sempre admirei e respeitei o elevado
desenvolvimento do sentimento da justia. Constitui um dos aspectos mais nobres da tradio do
povo francs.

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CAPTULO IV

Problemas judaicos

OS IDEAIS JUDAICOS

A paixo pelo conhecimento em si mesmo, a paixo da justia at o fanatismo e a paixo da
independncia pessoal exprimem as tradies do povo judeu e considero minha pertena a esta
comunidade como um dom do destino.

Aqueles que hoje se desencadeiam contra os ideais de razo e de liberdade individual e que,
com os meios do terror, querem reduzir os homens a escravos imbecis do Estado, nos consideram
com justia como seus irreconciliveis adversrios. A Histria j nos imps um terrvel combate.
Mas, por longa que seja nossa defesa do ideal de verdade, de justia e de liberdade, continuamos a
existir como um dos mais antigos povos civilizados, e sobretudo realizamos no esprito da tradio
um trabalho criador para a melhoria da humanidade.

H UMA CONCEPO JUDAICA DO MUNDO?

No penso que exista semelhante concepo do mundo, no sentido filosfico do termo. O
judasmo, quase exclusivamente, trata da moral, quer dizer, analisa uma atitude na e para a vida. O
judasmo encarna antes as concepes vivas da vida no povo judeu do que o resumo das leis
contidas na Tor e interpretadas no Talmude. A Tor e o Talmude representam para mim o
testemunho mais importante da ideologia judaica nos tempos de sua histria antiga.

A natureza da concepo judaica da vida se traduz assim: direito  vida para todas as criaturas.
A significao da vida do indivduo consiste em tornar a existncia de todos mais bela e mais digna.
A vida  sagrada, representa o supremo valor a que se ligam todos os outros valores. A sacralizao
da vida supra-individual incita a respeitar tudo quanto  espiritual  aspecto particularmente
significativo da tradio judaica.

O judasmo no  uma f. O Deus judeu significa a recusa da superstio e a substituio
imaginria para este desaparecimento. Mas  igualmente a tentao de fundar a lei moral sobre o
temor, atitude deplorvel e ilusria. Creio no entanto que a possante tradio moral do povo judeu
j se libertou amplamente deste temor. Compreende-se claramente que servir a Deus equivale a
servir  vida. Com esta finalidade, as melhores testemunhas do povo judeu, em particular os
profetas e Jesus, se bateram incansavelmente.

O judasmo no  uma religio transcendente. Ocupa-se unicamente da vida que se leva,
carnal por assim dizer, e de nada mais. Julgo problemtico que possa ser considerado como religio
no sentido habitual do termo, tanto mais que no se exige do judeu nenhuma crena, mas antes o
respeito pela vida no sentido suprapessoal.

Existe enfim outro valor na tradio judaica, que se revela de modo magnfico em numerosos
salmos. Uma espcie de alegria embriagadora, um maravilhar-se diante da beleza e da majestade do
mundo exalta o indivduo, mesmo que o esprito no consiga conceber sua evidncia. Este
sentimento, onde a verdadeira pesquisa vem haurir sua energia espiritual, lembra o jbilo expresso
pelo canto dos pssaros diante do espetculo da natureza. Aqui se manifesta uma espcie de
semelhana com a idia de Deus, um balbuciar de criana diante da vida.

Tudo isto caracteriza o judasmo e no se encontra em outra parte sob outros nomes. Com
efeito, Deus no existe para o judasmo, onde o respeito excessivo pela letra esconde a doutrina
pura. Contudo considero o judasmo como um dos simbolismos mais puros e mais vivos da idia de
Deus, sobretudo porque recomenda o princpio do respeito  vida.

 revelador que, nos mandamentos relativos  santificao do Sabat, os animais sejam
expressamente includos, de tal forma a comunidade dos vivos  percebida como um ideal. Mais

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nitidamente ainda se expressa a solidariedade entre os humanos, e no  por acaso que as
reivindicaes socialistas emanem sobretudo dos judeus.

Como  viva no povo judeu a conscincia da sacralizao da vida!  muito bem ilustrada at
na historiazinha que Walter Rathenau me contou um dia: Quando um judeu diz que caa por seu
prazer, ele mente. A vida  sagrada. A tradio judaica manifesta esta evidncia.

CRISTIANISMO E JUDASMO

Se se separa o judasmo dos profetas, e o cristianismo tal como foi ensinado por Jesus Cristo
de todos os acrscimos posteriores, em particular aqueles dos padres, subsiste uma doutrina capaz
de curar a humanidade de todas as molstias sociais.

O homem de boa vontade deve tentar corajosamente em seu meio, e na medida do possvel,
tornar viva esta doutrina de uma humanidade perfeita. Se realizar lealmente esta experincia, sem se
deixar eliminar ou silenciar pelos contemporneos, ter o direito de se julgar feliz, ele e sua
comunidade.

COMUNIDADE JUDAICA

Discurso pronunciado em Londres

Tenho dificuldade em vencer minha atrao por uma vida de retiro tranqilo. Todavia no
posso me furtar ao apelo das sociedades O.R.T. e O.Z.E.*. Ele evoca o apelo de nosso povo judeu
to duramente perseguido. E eu lhe respondo.

A situao de nossa comunidade judaica dispersa pela terra indica igualmente a temperatura
do nvel moral no mundo poltico. Que poderia haver de mais revelador para avaliar a qualidade da
moral poltica e do sentimento de justia que a atitude das naes diante de uma minoria indefesa,
cuja nica singularidade consiste em querer manter uma tradio cultural?

Ora, esta qualidade est desaparecendo em nossa poca. Nosso destino prova-o tragicamente.
Porque a atitude dos homens para conosco fornece a prova:  preciso portanto consolidar e manter
esta comunidade. A tradio do povo judeu comporta uma vontade de justia e de razo, proveitosa
para o conjunto dos povos de ontem e de amanh. Spinoza e Karl Marx estavam impregnados desta
tradio.

Quem quer manter o esprito deve se preocupar tambm com o corpo, que  seu invlucro. A
sociedade O.Z.E. presta servios ao corpo de nosso povo, no sentido literal da palavra. Na Europa
Oriental, ela trabalha sem descanso para manter o bom estado fsico de nosso povo, l onde j 
severamente oprimido na sobrevivncia econmica, ao passo que a sociedade O.R.T. est a postos
para conjurar uma terrvel injustia social e econmica a que o povo judeu est submetido desde a
Idade Mdia. Com efeito, desde a Idade Mdia, as profisses diretamente produtivas nos foram
proibidas, fomos ento obrigados a nos entregar a profisses mercantis. Nos pases orientais, ajudar
realmente o povo judeu equivale a dar-lhe livre acesso a novos setores profissionais e por essa causa

o povo judeu se bate no mundo inteiro. A sociedade O.R.T. trabalha com eficcia para resolver este
problema delicado.
Os senhores, compatriotas ingleses, esto convidados para esta obra de grande envergadura,
dela participando e continuando o trabalho criado por homens superiores. Nestes ltimos anos, e
mesmo nestes ltimos dias, causaram-nos uma decepo que deve ser de grande interesse para
todos os senhores. No lamentemos nossa sorte! Mas procuremos encontrar no fato um motivo
suplementar de viver e de manter nossa fidelidade  causa da comunidade judaica. Creio muito
sinceramente que, de modo indireto, ns preservamos os objetivos comuns da humanidade. Ora,
estes devem continuar a ser para ns os mais elevados.

* Sociedade de estmulo ao trabalho artesanal e agrcola.  Sociedade para a proteo da sade dos judeus.
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Reflitamos tambm que dificuldades e obstculos impelem  luta e a provocam, dando sade
e vida a toda a comunidade. A nossa no teria sobrevivido, se apenas tivssemos vivido nos
prazeres. Disto estou intimamente persuadido.

Um consolo ainda mais belo nos espera. Nossos amigos no so uma multido, mas entre eles
h homens de inteligncia e senso moral elevadssimos. Consideram um ideal de vida aperfeioar a
comunidade humana e libertar os indivduos de qualquer opresso aviltante.

Estamos contentes e felizes por contar entre ns hoje homens deste calibre. No pertencem ao
mundo judeu, mas conferem a esta importante sesso uma solenidade particular. Alegro-me por ver
diante de mim Bernard Shaw e H. G. Wells. Suas concepes da vida me seduzem.

O senhor, Sr. Shaw, foi bastante feliz em ganhar a afeio e a estima alegre dos homens num
terreno em que outros ganharam o martrio. No apenas o senhor pregou a moral aos homens, mas
soube zombar daquilo que para todos parecia um tabu inviolvel. O que fez, somente um artista era
capaz. O senhor fez surgir de sua caixinha mgica inmeras figurinhas que se parecem com os
homens, e criou-as, no de carne e osso, mas de esprito, de fineza e de graa. Elas chegam a se
assemelhar aos homens mais do que ns prprios, tanto que esquecemos de que no se trata de
criaes da natureza, mas obra sua. O senhor movimenta estas figurinhas em um pequeno universo,
onde as graas esto vigilantes e impedem todo o ressentimento. Quem quer que tenha observado
este microscpico universo ter descoberto nosso universo real visto sob nova luz. V as figurinhas
se introduzirem to habilmente nos homens reais que estes de repente adquirem nova imagem, bem
diferente da anterior. E por colocar nas mos de todos ns o espelho, o senhor nos ensina a libertar-
nos, como quase nenhum de nossos contemporneos o soube fazer. Com isto o senhor retirou da
existncia algo de seu peso terrestre. Ns lhe estamos agradecidos do fundo do corao e
aplaudimos o acaso que nos gratificou, atravs de penosos sofrimentos, com um mdico da alma,
com um libertador. Pessoalmente eu lhe agradeo pelas inesquecveis palavras dirigidas a meu
irmo mtico, que complica muito minha vida, embora em sua grandeza rija, honorfica, no fundo
no passe de um camarada inofensivo.

Aos senhores, meus irmos judeus, repito que a existncia e o destino de nosso povo
dependem menos de fatores exteriores que de nossa fidelidade s tradies morais que nos
sustentaram durante sculos na vida, apesar das terrveis tempestades desencadeadas sobre ns.
Sacrificar-se a servio da vida equivale a uma graa.

ANTI-SEMITISMO E JUVENTUDE ACADMICA

Enquanto vivamos num gueto, o fato de pertencermos ao povo judeu acarretava dificuldades
materiais, s vezes at perigos fsicos; em compensao jamais problemas sociais e psquicos. Com
a emancipao, a situao de fato se modificou radicalmente, em particular para os judeus que se
encaminharam s profisses liberais.

O jovem judeu na escola e na universidade est sob a influncia de uma sociedade estruturada
de maneira nacional. Ele a respeita, admira-a, recebe sua bagagem intelectual; sente que lhe
pertence, mas ao mesmo tempo percebe ser tratado por ela como estrangeiro, com um certo desdm
e at alguma averso. Mas arrastado pela sugestiva influncia desta fora psquica superior mais do
que por consideraes utilitrias, ele se esquece de seu povo e de suas tradies e se considera
definitivamente integrado aos outros, enquanto procura se disfarar, a si e aos outros, mas sem
resultado porque esta converso  sempre unilateral. Assim se reconstitui a histria do funcionrio
judeu convertido, ontem como hoje digna de lstima! As causas so, no a falta de carter ou a
ambio desmedida, mas antes, como j fiz notar, a fora de persuaso de um ambiente mais
pondervel em nmero e em influncia. Evidentemente bom nmero de filhos muito dotados do
povo judeu contribuiu largamente para os progressos da civilizao europia, mas, com algumas
excees, seu comportamento no foi sempre desta natureza?

Como para todas as doenas psquicas, a cura exige uma clara explicao da natureza e das
causas do mal. Temos de elucidar perfeitamente nossa condio de estrangeiro e da deduzir as
conseqncias.  estpido querer convencer outrem, mediante todo tipo de raciocnio, de nossa

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identidade intelectual e espiritual com ele. Porque a prpria base de seu comportamento no 
obtida pela mesma camada cerebral. Temos de emancipar-nos socialmente, encontrar por ns
mesmos a soluo para nossas necessidades sociais. Temos de formar nossas sociedades de
estudantes, comportar-nos frente a no-judeus com toda a cortesia, mas com lgica. Queremos
tambm viver a nosso modo, no imitar os costumes dos espadachins e dos beberres. Nada disto
nos diz respeito. Pode-se conhecer a cultura da Europa e viver como bom cidado de um Estado,
sem deixar de ser ao mesmo tempo um judeu fiel. No nos esqueamos disto e faamos assim! O
problema do anti-semitismo, em sua manifestao social, ser resolvido ento.

DISCURSO SOBRE A OBRA DE CONSTRUO NA PALESTINA

1. H dez anos, tive a alegria de encontr-los pela primeira vez. Tratava-se de incrementar a
idia sionista e tudo ainda estava no futuro. Hoje, podemos encarar estes dez anos passados com
alguma alegria. Porque neles, as foras conjuntas do povo judaico realizaram na Palestina uma obra
magnfica de construo, perfeitamente eficaz e bem superior a nossas mais loucas esperanas.
Assim superamos a dura provao que os acontecimentos dos ltimos anos nos infligiram.
Um trabalho incessante, sustentado por uma ideologia elevada, conduz lenta mas seguramente ao
xito. As ltimas declaraes do governo ingls marcam uma volta a uma avaliao mais correta de
nossa situao. Ns o reconhecemos com gratido.

Todavia no nos esqueamos nunca da lio desta crise. O estabelecimento de uma
satisfatria cooperao entre judeus e rabes no  problema da Inglaterra, mas nosso. Ns, judeus e
rabes, temos de nos pr de acordo entre ns acerca das linhas diretrizes de uma poltica de
comunidade eficaz e adaptada s necessidades dos dois povos. Uma soluo honrosa, digna de
nossas duas comunidades, exige de ns a seguinte convico: o objetivo, capital e magnfico, conta
tanto quanto a prpria realizao do trabalho. Reflitamos neste exemplo: a Sua representa uma
evoluo estatal mais progressista do que qualquer outro Estado, justamente por causa da
complexidade dos problemas polticos. Mas sua soluo exige, por hiptese, uma constituio
estvel, j que se refere a uma comunidade formada de vrios agrupamentos nacionais.

Muito ainda h por fazer. Mas um dos pontos mais ardentemente desejados por Herlz j foi
alcanado. O trabalho pela Palestina ajudou o povo judeu a descobrir em si a solidariedade e a forjar
para si uma disposio de nimo. Porque todo organismo tem preciso dela para se desenvolver
normalmente. Aquele que deseja compreend-lo realmente pode ver hoje esta evidncia.

Aquilo que realizamos para a obra comum, no a realizamos somente por nossos irmos, na
Palestina, mas para a moral e a dignidade de todo o povo judeu.

2. Estamos hoje reunidos para comemorar uma comunidade milenar, seu destino e seus
problemas.  uma comunidade de tradio moral, que nos momentos de provao sempre revelou
sua fora e amor pela vida. Em todas as pocas, suscitou homens que encarnaram a conscincia do
mundo ocidental, e que defenderam a dignidade da pessoa humana e da justia.
Enquanto esta comunidade for cara a nosso corao, ela se perpetuar para a salvao da
humanidade, embora continue informal sua organizao. H algumas dcadas, homens inteligentes,
entre eles o inesquecvel Herlz, pensaram que tnhamos necessidade de um centro espiritual para
manter o sentimento de solidariedade no momento da provao. Assim se desenvolveu a idia
sionista e a colonizao na Palestina. Pudemos ver os sucessos dessas realizaes, sobretudo nos
incios cheios de promessas.

Com satisfao, foi-me dado verificar que esta obra tinha grande impacto no moral do povo
judeu. Minoria dentro das naes, o judeu conhece problemas de coexistncia, mas sobretudo tem
de se haver com outros perigos, mais ntimos, inerentes  sua psicologia.

Nestes ltimos anos, a obra de construo sofreu uma crise que pesou enormemente sobre ns
e ainda no est totalmente superada. Contudo as ltimas notcias provam que o mundo e em
particular o governo ingls esto dispostos a reconhecer os elevados valores morais, revelados em
nosso ardor pela realizao sionista. Neste exato momento, tenhamos um pensamento reconhecido
para com nosso chefe Weizmann que assegurou o xito da boa causa com um devotamento e uma

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prudncia sem igual.

As dificuldades encontradas provocaram felizes conseqncias. De novo mostraram o poder
dos laos entre os judeus de todos os pases, principalmente acerca de seu destino. Mas
esclareceram nossa maneira de ver o problema palestino, libertando-a das impurezas de uma
ideologia nacionalista. Proclamou-se abertamente que nossa meta no  a criao de uma
comunidade poltica, mas que nosso ideal, fundado na antiga tradio do judasmo, se prope a
criao de uma comunidade cultural, no sentido mais amplo do termo. Para consegui-lo, temos de
resolver, nobremente, publicamente, dignamente, o problema da coabitao com o povo irmo dos
rabes. Temos a oportunidade de provar aquilo que aprendemos durante os sculos de um passado
vivido duramente. Se descobrirmos o caminho exato, ganharemos e serviremos de exemplo para
outros povos.

Aquilo que empreendemos para a Palestina, ns o realizamos pela dignidade e a moral de
todo o povo judeu.

3. Alegro-me com a ocasio que me  oferecida de dizer algumas palavras  juventude deste
pas, fiel aos objetivos gerais do judasmo. No desanimem pelas dificuldades que temos de
enfrentar na Palestina. Situaes deste tipo constituem experincias indispensveis para o
dinamismo de nossa comunidade.
Com razo criticamos as medidas e as manifestaes do governo ingls. No devemos
contentar-nos com isto, mas procurar tambm tirar suas conseqncias.

Devemos manter em nossas relaes com o povo rabe a mais extrema vigilncia. Graas a
esta atitude, poderemos evitar que no futuro tenses muito perigosas venham a se manifestar e
poderiam ser aproveitadas como uma provocao a atos belicosos. Com facilidade poderemos
atingir nosso objetivo, porque nossa realizao foi e  concebida de maneira a servir tambm aos
interesses concretos da populao rabe.

Conseguiremos ento impedir a situao catastrfica tanto para os judeus quanto para os
rabes de apelar para a potncia mandatria como rbitro. Neste esprito, seguiremos a via da
sabedoria, mas tambm das tradies que do  comunidade judaica seu sentido e sua fora. Porque
esta comunidade no  poltica e no deve vir a s-lo. Exclusivamente moral, assim ela existe.
Unicamente nesta tradio poder encontrar novas energias, e unicamente nesta tradio reconhece
sua razo de ser.

4. H dois milnios, o valor comum a todos os judeus est encarnado em seu passado. Para
este povo disperso pelo mundo somente existia um nico lugar, ciosamente mantido, o da tradio.
Evidentemente judeus, enquanto indivduos, criaram grandes valores de civilizao. Mas o povo
judeu, como tal, no parecia ter a fora das grandes realizaes coletivas.
Tudo se transformou agora. A Histria confiou-nos nobre e importante misso sob a forma de
uma colaborao ativa para construir a Palestina. Irmos notveis j trabalham com todas as foras
para a realizao deste objetivo. Temos a possibilidade de instalar focos de civilizao nos quais
todo o povo judeu pode reconhecer sua obra. Esperamos profundamente estabelecer na Palestina um
lugar para as famlias e para uma civilizao nacional prpria, que permita despertar o Oriente
Mdio para uma vida econmica e intelectual.

A meta preconizada pelos chefes sionistas no quer ser poltica, mas antes social e cultural. A
comunidade na Palestina deve aproximar-se do ideal social de nossos antepassados, tal como est
escrito na Bblia; deve ao mesmo tempo tornar-se um lugar para os encontros intelectuais
modernos, um centro intelectual para os judeus do mundo inteiro. A fundao de uma Universidade
judia em Jerusalm representa, nesta ordem de idias, uma das metas principais da organizao
sionista.

Fui nestes ltimos meses  Amrica para auxiliar a constituir a vida material desta
Universidade. O sucesso dessa campanha imps-se por si mesmo.

Graas  incansvel atividade,  generosidade ilimitada dos mdicos judeus, recolhemos
bastantes meios para iniciar a fundao de uma faculdade de medicina e imediatamente comeamos
seus trabalhos preparatrios. De acordo com os atuais resultados, sem dvida alguma obteremos as
estruturas materiais indispensveis para as outras faculdades, e sem delongas. A faculdade de

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medicina deve ser concebida principalmente como um instituto de pesquisa. Agir diretamente para

o saneamento do pas, funo indispensvel em nossa empresa.
O ensino em um nvel mais alto s se desenvolver mais tarde. Como j se encontrou
suficiente nmero de sbios capazes e responsveis para uma ctedra na Universidade, a fundao
da faculdade de medicina, ao que parece, no coloca mais problemas. Noto no entanto que um
fundo particular foi previsto para a Universidade, fundo absolutamente separado dos capitais
necessrios  construo do pas. Para estes fundos particulares, nos ltimos meses, graas ao
incansvel esforo do professor Weizmann e de outros chefes sionistas na Amrica, reuniram-se
somas muito importantes, graas sobretudo s elevadas doaes da classe mdia. Termino por um
vibrante apelo aos judeus alemes. Que contribuam, apesar da terrvel situao econmica atual,
para possibilitar com todas as suas foras a criao de um lar judeu na Palestina. No, no se trata
de um ato de caridade, mas de uma obra que diz respeito a todos os judeus. Seu xito ser para
todos a ocasio da mais perfeita satisfao.

5. Para ns, judeus, a Palestina no se apresenta sob o aspecto de uma obra de caridade ou de
uma implantao colonial. Trata-se de um problema de fundo, essencial para o povo judeu. E em
primeiro lugar, a Palestina no  um refgio para os judeus orientais, mas antes a encarnao
renascente do sentimento da comunidade nacional de todos os judeus. Ser necessrio, ser
oportuno despertar e reforar este sentimento? A esta pergunta no respondo levado por um
sentimento reflexo, mas por slidas razes.
Digo sim sem reserva alguma. Analisemos rapidamente o desenvolvimento dos judeus
alemes nestes ltimos cem anos! H um sculo, nossos antepassados viviam, com raras excees,
no gueto. Eram pobres, sem direitos polticos, separados dos no-judeus por um muro de tradies
religiosas, de conformismo na vida e de jurisdies limitativas. Estavam mesmo fechados, em sua
vida intelectual, dentro da prpria literatura. Eram pouco e superficialmente marcados pelo possante
despertar que havia sacudido a vida intelectual da Europa desde a Renascena. Mas estes homens,
de pouca importncia e sem grande influncia, guardavam uma fora superior  nossa. Cada um
deles pertencia por todas as fibras de seu ser a uma comunidade da qual se sentia membro integral.
Exprimia-se e vivia em uma comunidade que nada exigia dele que fosse de encontro com seu modo
de pensar natural. Nossos antepassados de ento eram certamente miserveis fsica e
intelectualmente, mas socialmente se revelavam de espantoso equilbrio moral.

Depois houve a emancipao, que, de repente, ofereceu ao indivduo possibilidades de
progresso insuspeitadas. Os indivduos, cada qual por seu lado, adquiriam rapidamente situaes
nas camadas sociais e econmicas mais elevadas da sociedade. Com paixo haviam assimilado as
conquistas principais que a arte e a cincia ocidental criaram. Participavam com intenso fervor deste
movimento, e eles prprios criavam obras duradouras. Devido a esta atitude, adotaram as formas
exteriores do mundo no-judeu e aos poucos foram se afastando de suas tradies religiosas e
sociais, aceitando costumes, padres de vida, modos de pensar estranhos ao mundo judeu.
Poder-se-ia pensar que iriam assemelhar-se completamente aos povos entre os
quais viviam, povos
quantitativamente mais numerosos e poltica e culturalmente mais bem coordenados, ao ponto de,
em algumas geraes, nada mais subsistir de visvel do mundo judeu. Completo desaparecimento da
comunidade judaica parecia inevitvel na Europa Central e Ocidental.

Ora, nada disto aconteceu. Os instintos das nacionalidades diferentes, ao que parece,
impediram uma fuso completa; a adaptao dos judeus aos povos europeus entre os quais viviam,
a suas lnguas, a seus costumes e at parcialmente a suas formas religiosas, no pde destruir o
sentimento de ser um estrangeiro, que se mantm entre o judeu e as comunidades europias que o
acolhem. Em ltima anlise, este sentimento de estranheza constitui a base do anti-semitismo. Este
no ser extirpado do mundo por escritos, por bem intencionados que sejam. Porque as
nacionalidades no querem se misturar, mas seguir o prprio destino. Uma situao pacfica s se
instaurar na compreenso e na indulgncia recprocas.

Por esta razo,  importante que ns, judeus, retomemos conscincia de nossa existncia
como nacionalidade e que recuperemos de novo o amor-prprio indispensvel a uma vida realizada.
Temos de reaprender de novo a interessar-nos lealmente por nossos antepassados e por nossa

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histria, e devemos, como povo. assumir misses suscetveis de reforar nosso sentimento de
comunidade. No basta que participemos como indivduos do progresso cultural da humanidade, 
preciso tambm que enfrentemos o gnero de problemas que competem s comunidades nacionais.
Eis a soluo para um judasmo novamente social.

Peo-lhes que considerem o movimento sionista nesta perspectiva. A histria, hoje, nos
confiou uma misso, a de participar eficazmente na reconstruo econmica e cultural de nossa
ptria. Pessoas entusiastas e notavelmente dotadas analisaram a situao e muitos de nossos
melhores concidados esto prontos para se consagrarem de corpo e alma a esta tarefa. Que cada
um dos senhores considere realmente suas capacidades em relao  obra e contribua com todas as
foras!

A PALESTINA NO TRABALHO

Entre as organizaes sionistas, a Palestina no trabalho representa a que mais bem
corresponde pela atividade, de modo mais preciso,  categoria mais digna de estima das pessoas de
l, trabalhadores manuais, transformando o deserto em colnias florescentes. Estes trabalhadores
so uma seleo de voluntrios vindos de todo o povo judeu, uma elite de homens corajosos,
conscientes e desinteressados. No se trata de operrios sem categoria, que vendem sua fora a
quem mais paga, mas homens instrudos, de esprito vivo e livres, cuja luta pacfica com um solo
abandonado redunda em proveito de povo inteiro, mais ou menos diretamente. Diminuir, se
possvel, a rudeza de seu destino significa salvar vidas humanas singularmente preciosas. Porque o
combate dos primeiros colonos contra um solo ainda no saneado se traduz por esforos duros e
perigosos e uma abnegao pessoal rigorosa. Somente uma testemunha ocular pode compreender
como  justa esta idia. Por isso, aquele que ajuda estes homens, possibilitando a melhoria dos
utenslios, ajuda a obra de modo benfico.

E esta classe de trabalhadores  a nica a tornar possveis sadias relaes com o povo rabe: e
 este o objetivo poltico mais importante para o sionismo. Com efeito, as administraes aparecem
e desaparecem. Em compensao as relaes humanas constituem na vida dos povos a etapa
decisiva. Assim sendo, um auxlio  Palestina no trabalho significa tambm a realizao de uma
poltica humana e respeitvel na Palestina, e ainda um combate til contra os vagalhes
nacionalistas retrgrados. Porque o mundo poltico em geral e, em menor escala, o pequeno
universo da obra palestina, ainda sofrem suas conseqncias.

RENASCIMENTO JUDAICO

Um apelo em prol de Keren Hajessod

Os maiores inimigos da conscincia e da dignidade judaica se chamam decadncia dos
estmagos cheios, se chamam frouxido provocada pela riqueza e vida fcil, se chamam forma de
submisso interior ao mundo no-judeu, j que a comunidade judaica se relaxou. O que h de
melhor no homem somente desabrocha quando se desenvolve em uma comunidade. Terrvel
portanto se mostra  perigo moral para o judeu que perde contacto com a prpria comunidade e se
descobre estrangeiro at mesmo para aqueles que o acolhem. O balano de uma situao destas
quase sempre resulta em egosmo desprezvel e sombrio.

Ora, atualmente se revela particularmente importante a presso contra o povo judeu. E este
gnero de misria nos cura. Porque suscita uma renovao da vida comunitria judaica tal que at a
penltima gerao no poderia imaginar. Sob a influncia do sentimento de solidariedade, to novo,
a colonizao da Palestina, iniciada por chefes devotados e prudentes atravs de dificuldades
aparentemente insuperveis, comeou a dar frutos to belos que no posso mais pr em dvida o
sucesso final. Para os judeus do mundo inteiro, a importncia da obra se revela de primeira ordem.
A Palestina ser para todos os judeus um lugar de cultura, para os perseguidos um lugar de refgio,

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para os melhores de ns um campo de ao.

Para os judeus do mundo inteiro, ela encarnar o ideal de unidade e um meio de renascimento
interior.

CARTA A UM RABE

15 de maro de 1930

Sua carta muito me alegrou. Prova-me, com efeito, que de seu lado h a clarividncia
necessria para uma soluo razovel: nossos dois povos podem resolver as dificuldades pendentes.
Os obstculos me parecem de natureza mais psicolgica do que objetiva, e podero ser vencidos se,
de parte a parte, se agir com a vontade de eliminar os problemas!

Nossa situao atual apresenta-se desfavorvel porque judeus e rabes so postos face a face
como dois adversrios pela potncia mandatria. Esta situao  indigna dos dois povos e somente
ser modificada se descobrirmos entre ns um terreno onde os dois campos possam dialogar e se
unir.

Explicarei aqui como encaro a realizao de uma mudana nas atuais condies deplorveis.
Apresso-me a dizer que esta opinio  exclusivamente minha, j que no a comuniquei a ningum.

Constitui-se um conselho privado para o qual judeus e rabes delegam respectivamente e
em separado quatro representantes, absolutamente independentes de qualquer organismo poltico.

Assim, de parte a parte se reuniriam: um mdico, eleito pelo conselho da ordem; um jurista,
eleito pelas instncias jurdicas; um representante operrio, eleito pelos sindicatos; um chefe
religioso, eleito por seus semelhantes. Estas oito pessoas se renem uma vez por semana.
Comprometem-se sob juramento a no servir os interesses de sua profisso nem de sua nao, mas
exclusivamente a procurar com toda a conscincia a felicidade da populao inteira. As discusses
so secretas e nada deve ser divulgado; nem mesmo na vida particular.

Se se tomar uma deciso sobre um problema qualquer com o assentimento de pelo menos trs
de cada lado, esta deciso poder ser publicada, mas sob a responsabilidade do conselho inteiro. Se
um dos membros no aceitar uma deciso, poder abandonar o conselho, mas sem nunca se ver
livre da obrigao do segredo. Se um dos grupos citados responsveis pelas eleies no se
considerar satisfeito com uma resoluo do conselho, poder substituir seu representante por um
outro.

Embora o conselho secreto no tenha competncia alguma bem delimitada, pode no entanto
permitir que sejam progressivamente aplainados os desacordos e apresentar, diante da potncia
mandatria, uma representao comum dos interesses do pas realmente oposta a uma poltica a
curto prazo.

A NECESSIDADE DO SIONISMO  CARTA AO PROFESSOR DR. HELLPACH, MINISTRO
DE ESTADO

Li seu artigo sobre o sionismo e o congresso de Zurique.  preciso que eu lhe responda, ainda
que brevemente, como o faria algum que estivesse inteiramente convencido desta idia.

Os judeus formam uma comunidade de sangue e de tradio, sendo que a tradio religiosa
no representa o nico ponto comum. Revela-se antes pelo comportamento dos outros homens
diante dos judeus.

Quando cheguei  Alemanha, h quinze anos, descobri pela primeira vez que era judeu e esta
descoberta me foi revelada mais pelos no-judeus do que pelos judeus.

A tragdia da condio judia consiste nisto: os judeus representam indivduos que chegaram a
um estgio evidente de evoluo, mas no tm o sustentculo de uma comunidade para uni-los. A
insegurana dos indivduos, que pode provocar grandssima fragilidade moral, vem como
conseqncia. Aprendi por experincia que a sade moral deste povo no seria possvel, a no ser

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que todos os judeus do mundo se reunissem numa comunidade viva,  qual cada um de plena
vontade se associaria e que lhe permitiria suportar dio e humilhao que encontra em todas as
partes.

Vi o execrvel mimetismo em judeus de grande valor e este espetculo me fez chorar lgrimas
de sangue. Vi como a escola, os panfletos e as inmeras potncias culturais da maioria no-judia
haviam minado o sentimento de dignidade, mesmo nos melhores de nossos irmos de raa, e senti
que isto no poderia mais continuar.

Aprendi por experincia que somente uma criao comum, que os judeus do mundo inteiro
levassem a peito, poderia curar este povo doente. Esta foi a obra admirvel de Th.
Herlz:
compreend-lo e bater-se com toda a energia para a realizao de um centro ou  para falar mais
claramente ainda  de um lugar central na Palestina. Essa obra exigia todas as energias. Contudo
inspirava-se na tradio do povo judeu.

O senhor d a isto o nome de nacionalismo, no sem se enganar. Mas o esforo para criar uma
comunidade, sem a qual no podemos viver nem morrer neste mundo hostil, sempre poder ser
designado por este termo odioso. De qualquer modo, ser um nacionalismo, mas sem vontade de
poder, preocupado pela dignidade e sade morais. Se no fssemos constrangidos a viver no meio
de homens intolerantes, mesquinhos e violentos, eu seria o primeiro a rejeitar todo o nacionalismo
em troca de uma comunidade humana universal!

A objeo  se queremos, ns judeus, ser uma nao, no poderemos mais ser cidados
integrais, por exemplo, do Estado alemo  revela um desconhecimento da natureza do Estado, a
fundar sua existncia partindo da intolerncia da maioria nacional. Contra esta intolerncia jamais
estaremos protegidos, tenhamos ou no o nome de povo, nao, etc.

Disse tudo o que penso, resumidamente, sem floreios e sem concesses. Mas, a julgar por
seus escritos, sei que o senhor aprecia mais o sentido do que a forma.

AFORISMOS PARA LEO BAECK

 Feliz quem atravessa a vida prestativo, sem medo, estranho  agressividade e ao
ressentimento! Numa natureza assim, revelam-se as testemunhas magnficas que trazem um
reconforto para a humanidade nas situaes desastrosas que cria para si mesma.
 O esforo para unir sabedoria e poder raramente d certo e somente por tempo muito
curto.
 O homem habitualmente evita reconhecer inteligncia em outro, a no ser quando, por
acaso, se trata de um inimigo.
 Poucos seres so capazes de dar bem claramente uma opinio diferente dos preconceitos
de seu meio.
A maioria  mesmo incapaz de chegar a formular tais opinies.

 A maioria dos imbecis permanece invencvel e satisfeita em qualquer circunstncia. O
terror provocado por sua tirania se dissipa simplesmente por sua distrao e por sua
inconseqncia.
 Para ser um membro irrepreensvel de uma comunidade de carneiros,  preciso, antes de
tudo, ser tambm carneiro.
 Os contrastes e as contradies podem coexistir de modo permanente numa cabea, sem
provocar nenhum conflito. Esta evidncia atrapalha e destri qualquer sistema poltico pessimista
ou otimista.
 Quem banca o original neste mundo da verdade e do conhecimento, quem imagina ser um
orculo, fracassa lamentavelmente diante da gargalhada dos Deuses.
 A alegria de contemplar e de compreender, eis a linguagem a que a natureza me incita.
#
CAPTULO V

Estudos cientficos

PRINCPIOS DA PESQUISA

Discurso pronunciado por ocasio do sexagsimo aniversrio de Max Planck

O Templo da Cincia apresenta-se como um edifcio de mil formas. Os homens que o
freqentam, bem como as motivaes morais que para ali os levam, revelam-se bem diferentes. Um
se entrega  Cincia com o sentimento de felicidade que a potncia intelectual superior lhe causa.
Para ele, a Cincia  o esporte adequado, a vida transbordante de energia, a realizao de todas as
ambies. Assim deve ela se manifestar! Muitos outros, porm, esto igualmente neste Templo
exclusivamente por uma razo utilitria e no oferecem em troca a no ser sua substncia cerebral!
Se um anjo de Deus aparecesse e expulsasse do Templo todos os homens das duas categorias, o
Templo ficaria bem vazio, mas, mesmo assim, ainda se encontrariam homens do passado e do
presente. Entre estes encontraramos nosso Planck.  por isso que o estimamos.

Bem sei que, com nosso aparecimento, expulsamos, despreocupados, muitos homens de valor
que edificaram o Templo da Cincia em grande, talvez em sua maior parte. Para nosso anjo, a
deciso a tomar seria em vrios casos bem difcil. Mas uma certeza se me impe. No houvesse
indivduos como os excludos, o Templo no teria sido edificado, da mesma forma que uma floresta
no pode expandir-se se apenas contiver plantas trepadeiras! Na realidade, tais indivduos se
contentam com qualquer teatro para sua atividade. As circunstncias exteriores  que decidiro
sobre a carreira de engenheiro, de oficial, de comerciante ou de cientista. Todavia, olhemos de novo
para aqueles que encontraram favor aos olhos do anjo. Mostram-se singulares, pouco
comunicativos, solitrios e, apesar desses pontos comuns, so menos parecidos entre si do que
aqueles que foram expulsos. Que  que os conduziu ao Templo? A resposta no  fcil e certamente
no pode aplicar-se a todos uniformemente. Contudo, em primeiro lugar, com Schopenhauer,
imagino que uma das mais fortes motivaes para uma obra artstica ou cientfica consiste na
vontade de evaso do cotidiano com seu cruel rigor e monotonia desesperadora, na necessidade de
escapar das cadeias dos desejos pessoais eternamente instveis. Causas que impelem os seres
sensveis a se libertarem da existncia pessoal, para procurar o universo da contemplao e da
compreenso objetivas. Esta motivao assemelha-se  nostalgia que atrai o morador das cidades
para longe de seu ambiente ruidoso e complicado, para as pacficas paisagens das altas montanhas,
onde o olhar vagueia por uma atmosfera calma e pura e se perde em perspectivas repousantes, que
parecem ter sido criadas para a eternidade.

A este motivo de ordem negativa, ajunta-se outro mais positivo. O homem procura formar, de
qualquer maneira, mas segundo a prpria lgica, uma imagem simples e clara do mundo. Para isso,
ultrapassa o universo de sua vivncia, porque se esfora em certa medida por substitu-lo por essa
imagem. A seu modo  esse o procedimento de cada um, quer se trate de um pintor, de um poeta, de
um filsofo especulativo ou de um fsico. A essa imagem e  sua realizao consagra o mximo de
sua vida afetiva para assim alcanar a paz e a fora que no pode obter nos excessivos limites da
experincia agitada e subjetiva.

Entre todas as imagens possveis do mundo, que lugar conceder  do fsico terico? Ela
encerra as maiores exigncias, pelo rigor e exatido da representao das relaes, nica a ser
autorizada pelo uso da linguagem matemtica. Mas em compensao, no plano concreto, o fsico
deve se restringir, tanto mais quanto se contentar em representar os fenmenos mais evidentes
acessveis a nossa experincia, porque todos os fenmenos mais complexos no podem ser
reconstitudos pelo esprito humano com a preciso sutil e esprito de constncia exigidos pelo
fsico terico. A extrema nitidez, a clareza e a certeza s se adquirem  custa de imenso sacrifcio: a

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perda da viso de conjunto. Mas ento, qual pode ser a seduo de compreender precisamente uma
parcela to exgua do universo e de abandonar tudo o que  mais sutil e mais complexo por timidez
ou falta de coragem? O resultado de uma prtica to resignada ousaria ostentar o audacioso nome de
Imagem do mundo?

Penso ser muito bem merecido este nome. Porque as leis gerais, bases da arquitetura
intelectual da fsica terica, ambicionam ser vlidas para todos os fatos da natureza. E graas a estas
leis, por utilizar o itinerrio da pura deduo lgica, poder-se-ia encontrar a imagem, quer dizer, a
teoria de todos os fenmenos da natureza, inclusive os da vida, se este processo de deduo no
superasse, e de muito, a capacidade do pensamento humano. A renncia a uma imagem fsica do
mundo em sua totalidade no  uma renncia de princpio.  uma escolha, um mtodo.

A suprema tarefa do fsico consiste, ento, em procurar as leis elementares mais gerais, a
partir das quais, por pura deduo, se adquire a imagem do mundo. Nenhum caminho lgico leva a
tais leis elementares. Seria antes exclusivamente uma intuio a se desenvolver paralelamente a
experincia. Na incerteza do mtodo a seguir, seria possvel crer que qualquer nmero de sistemas
de fsica terica de valor equivalente bastaria. Em princpio, esta opinio  sem dvida correta. Mas
a evoluo mostrou que, de todas as construes concebveis, uma e somente uma, em um dado
momento, se revelou absolutamente superior a todas as outras. Nenhum daqueles que realmente
aprofundaram o assunto negar que o mundo das percepes determina de fato rigorosamente o
sistema terico, embora nenhum caminho lgico conduza das percepes aos princpios da teoria. A
isto Leibnitz denominava e significava pela expresso de harmonia preestabelecida. Com
violncia, os fsicos censuraram a no poucos tericos do conhecimento o no levarem bem em
conta esta situao. Aqui tambm, a meu ver, se encontram as razes da polmica que, h alguns
anos, ops Mach a Planck.

A nostalgia da viso desta harmonia preestabelecida persiste em nosso esprito. Contudo
Planck se apaixona pelos problemas mais gerais de nossa Cincia sem se deixar atrair por objetivos
mais lucrativos e mais fceis de serem atingidos. Por vrias vezes ouvi dizer que confrades
tentavam explicar seu comportamento por uma fora de vontade e uma disciplina excepcionais.
Enganam-se, ao que me parece. O estado afetivo que condiciona semelhantes proezas mais se
assemelha ao estado de alma dos religiosos ou dos amantes. A perseverana diria no se constri
sobre uma inteno ou um programa, mas se baseia numa necessidade imediata.

Ele est a, nosso querido Planck, sentado e divertindo-se interiormente com minhas
manipulaes infantis da lanterna de Digenes. Nossa simpatia por ele no precisa de pretextos.
Possa o amor pela Cincia embelezar sua vida tambm no futuro e lev-lo  resoluo do problema
fsico mais importante de nossa poca, problema que ele mesmo colocou e faz progredir
consideravelmente! Que consiga unificar em. um nico sistema lgico a teoria dos quanta, a
eletrodinmica e a mecnica!

PRINCPIOS DA FSICA TERICA

Discurso de recepo na Academia das Cincias da Prssia

Caros colegas! Queiram aceitar meus mais profundos agradecimentos por me terem
concedido o maior benefcio que se possa outorgar a algum como eu. Chamando-me para sua
Academia, os senhores me permitiram livrar-me das agitaes e da labuta de uma profisso prtica,
permitiram que me consagrasse exclusivamente aos estudos cientficos. Rogo-lhes que acreditem
em meus sentimentos de gratido e na assiduidade de meus esforos, ainda que os resultados de
minhas pesquisas lhes paream medocres.

Peo licena para fazer a respeito algumas reflexes gerais sobre a posio que meu setor de
trabalho, a fsica terica, ocupa em relao  cincia experimental. Um amigo matemtico dizia-me
recentemente, em parte por brincadeira: O matemtico sabe alguma coisa, mas no  exatamente
aquilo que lhe perguntam em dado momento. Com freqncia o terico da fsica se encontra nesta
situao, ao ser consultado por um fsico experimental. Qual a origem desta falta de adaptao

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caracterstica?

O mtodo do terico implica que, como base em todas as hipteses, ele utilize aquilo que se
chamam princpios, a partir dos quais pode deduzir conseqncias. Sua atividade portanto se divide
principalmente em duas partes. Em primeiro lugar, tem de procurar estes princpios e em seguida
desenvolver as conseqncias inerentes a eles. Para a execuo do segundo trabalho recebe na
escola excelentes instrumentos. Se ento a primeira de suas tarefas j estiver realizada em dado
setor ou por um conjunto de relaes, no h dvida de que ter xito por um trabalho e reflexo
perseverantes. Mas a primeira chave destas tarefas, quer dizer, a de estabelecer os princpios que
serviro de base para sua deduo, se apresenta de maneira totalmente diferente. Porque aqui no
existe mtodo que se possa aprender ou sistematicamente aplicar para alcanar um objetivo. O
pesquisador tem antes que espiar, se assim se pode dizer, os princpios gerais na natureza, enquanto
detecta, atravs dos grandes conjuntos de fatos experimentais, os traos gerais e exatos que podero
ser explicitados nitidamente.

Quando esta formulao obtiver xito, comea ento o desenvolvimento das conseqncias,
que muitas vezes revelam relaes insuspeitadas que ultrapassam muito o campo dos fatos donde
foram tirados os princpios. Mas, enquanto os princpios bsicos para a deduo no forem
descobertos, o terico no tem absolutamente necessidade dos fatos individuais da experincia.
Nem mesmo pode empreender qualquer coisa com as leis mais gerais, descobertas empiricamente.
Deve antes confessar seu estado de impotncia diante dos resultados elementares da pesquisa
emprica at que se lhe manifestem princpios, utilizveis como base de deduo lgica.

 nesta situao que atualmente se situa a teoria relativa s leis da irradiao trmica e do
movimento molecular em baixas temperaturas. H quinze anos, ningum duvidava que, nas bases
da mecnica Galileu/Newton aplicada aos movimentos moleculares, bem como pela teoria de
Maxwell sobre o campo magntico, fosse possvel obter uma representao exata das propriedades
eltricas, ticas e trmicas dos corpos. Planck ento mostrou que, para fundar uma lei da irradiao
trmica correspondente  experincia,  preciso utilizar um mtodo de clculo cuja
incompatibilidade com os princpios da mecnica clssica se tornava cada vez mais flagrante. Por
este mtodo de clculo, Planck introduzia na fsica a clebre hiptese dos quanta que depois foi
notavelmente confirmada. Com esta hiptese dos quanta, ele subverteu a mecnica no caso em que
massas suficientemente pequenas se deslocam com velocidades suficientemente fracas e com
aceleraes suficientemente importantes, a tal ponto que no podemos mais hoje encarar as leis do
movimento estabelecidas por Galileu e Newton a no ser como situaes limites. Contudo, apesar
dos esforos mais perseverantes dos tericos, ainda no se conseguiu substituir os princpios da
mecnica por outros que correspondam  lei da irradiao trmica de Planck ou  hiptese dos
quanta. Ainda que devamos reconhecer sem sombra de dvida que temos de tornar a pr o calor no
movimento molecular, temos tambm de reconhecer que nos encontramos hoje, diante das leis
fundamentais deste movimento, na mesma situao em que estavam os astrnomos anteriores a
Newton diante dos movimentos dos planetas.

Recordo aqui um conjunto de fatos no redutveis a um estudo terico por falta de princpios
de base. Mas h ainda outro caso. Princpios lgicos e bem formulados chegam a conseqncias
total ou quase totalmente exteriores aos limites do domnio atualmente acessvel a nossa
experincia. Ento, por longos anos, se far necessrio um trabalho emprico, s apalpadelas, para
afirmar que os princpios da teoria poderiam descrever a realidade. Eis a exata situao da teoria da
relatividade.

A reflexo sobre os conceitos fundamentais de tempo e de espao provou-nos que o princpio
da constncia da velocidade da luz no vcuo, que se deduz da tica dos corpos em movimento,
absolutamente no nos obriga a aceitar a teoria de um ter imvel. E mesmo foi possvel armar uma
teoria geral que lembra o fato estranho de que, nas experincias realizadas sobre a terra, jamais
transcrevemos algo do movimento de translao da terra. Nesta circunstncia, ento, emprega-se o
enunciado do princpio de relatividade: as leis naturais no se modificam quanto  forma, quando se
abandona um sistema de coordenadas original (experimentado) por um novo sistema, que efetua um
movimento de translao uniforme em relao ao primeiro. Esta teoria recebeu notveis

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confirmaes da experincia. Torna tambm possvel uma simplificao da representao terica de
conjuntos de fatos, j ligados uns aos outros.

Mas, por outro lado, esta teoria ainda  insuficiente, porque o princpio de relatividade, tal
como acabo de formular, privilegia o movimento uniforme. Do ponto de vista fsico, sem dvida
no se pode atribuir um sentido absoluto ao movimento uniforme. Ento surge a questo: ser que
esta afirmao no deveria estender-se aos movimentos no uniformes? Ora, se se toma por base o
princpio da relatividade em sentido lato, foi demonstrado que se obtm uma extenso indefinida da
teoria da relatividade. Assim somos conduzidos a uma teoria geral da gravitao, incluindo a
dinmica. No momento, porm, no encontramos os fatos suscetveis de pr  prova a justificao
para a introduo do princpio que sirva de eixo.

J provamos que a fsica indutiva questiona a fsica dedutiva e vice-versa e que este tipo de
resposta exige de nossa parte absoluta tenso e esforo. Que possamos bem depressa chegar a
encontrar, graas aos esforos e trabalhos de todos, as provas definitivas para nossos progressos
neste sentido.

SOBRE O MTODO DA FSICA TERICA

Se o senhor quer estudar em qualquer dos fsicos tericos os mtodos que emprega, sugiro-lhe
firmar-se neste princpio bsico: no d crdito algum ao que ele diz, mas julgue aquilo que
produziu! Porque o criador tem esta caracterstica: as produes de sua imaginao se impem a
ele, to indispensveis, to naturais, que no pode consider-las como imagem do esprito, mas as
conhece como realidades evidentes.

Este prembulo parece autoriz-lo a abandonar o prprio lugar desta conferncia. Porque o
senhor poderia redargir: quem nos fala agora  justamente um fsico terico! Deveria ento
abandonar toda a reflexo sobre a estrutura da cincia terica para os tericos do conhecimento.

A semelhante objeo, respondo apresentando meu ponto de vista pessoal. Porque afirmo
falar aqui, no por vaidade, mas para satisfazer ao convite de amigos. Estou nesta ctedra porque
ela me traz a lembrana de um homem que consagrou toda a vida a pesquisar a unidade do
conhecimento. Alm disto, objetivamente, minha prtica de hoje poderia encontrar uma justificativa
neste sentido: no seria interessante conhecer aquilo que pensa sobre sua cincia um homem que,
durante a vida inteira, se esforou com toda a energia a esclarecer e a aperfeioar seus elementos
bsicos? Seu modo de apreender a evoluo antiga e contempornea poderia influenciar
terrivelmente aquilo que espera do futuro e portanto aquilo que visa como objetivo imediato. Mas 
este o destino de cada indivduo que se entrega apaixonadamente ao mundo das idias.  o mesmo
destino que espera o historiador, ao organizar os fatos histricos, mesmo de modo inconsciente, em
funo dos ideais subjetivos que a sociedade humana lhe sugere.

Hoje analisamos o desenvolvimento do pensamento terico de modo muito geral, mas ao
mesmo tempo temos presente no esprito a relao essencial que une o discurso terico ao conjunto
dos fatos experimentais. Trata-se sempre do eterno confronto entre os dois componentes de nosso
saber na fsica terica: empirismo e razo.

Admiramos a Grcia antiga porque fez nascer a cincia ocidental. L, pela primeira vez, se
inventou a obra-prima do pensamento humano, um sistema lgico, isto , tal que as proposies se
deduzem umas das outras com tal exatido que nenhuma demonstrao provoca a dvida.  o
sistema da geometria de Euclides. Esta composio admirvel da razo humana autoriza o esprito a
ter confiana em si mesmo para qualquer nova atividade. E se algum, no despertar de sua
inteligncia, no foi capaz de se entusiasmar com uma arquitetura assim, ento nunca poder
realmente se iniciar na pesquisa terica.

Mas para atingir uma cincia que descreva a realidade, ainda faltava uma segunda base
fundamental que, at Kepler e Galileu, foi ignorada por todos os filsofos. Porque o pensamento
lgico, por si mesmo, no pode oferecer nenhum conhecimento tirado do mundo da experincia.
Ora, todo o conhecimento da realidade vem da experincia e a ela se refere. Por este fato,
conhecimentos, deduzidos por via puramente lgica, seriam diante da realidade estritamente vazios.

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Desse modo Galileu, graas ao conhecimento emprico, e sobretudo por ter se batido violentamente
para imp-lo, tornou-se o pai da fsica moderna e provavelmente de todas as cincias da natureza
em geral.

Se, portanto, a experincia inaugura, descreve e prope uma sntese da realidade, que lugar se
d  razo no campo cientfico?

Um completo sistema de fsica terica comporta um conjunto de conceitos, de leis
fundamentais aplicveis a tais conceitos, e de proposies lgicas normalmente da deduzidas. As
proposies sobre as quais se exerce a deduo correspondem exatamente a nossas experincias
individuais;  esta a razo profunda por que, em um livro terico, a deduo abrange quase toda a
obra.

Paradoxalmente,  exatamente o que acontece com a geometria euclidiana. Mas os princpios
fundamentais aqui se chamam de axiomas e, por conseqncia, as proposies a serem deduzidas
no se baseiam em experincias banais. Em compensao, se se encara a geometria euclidiana como
a teoria das possibilidades da posio recproca dos corpos praticamente rgidos e, por conseguinte,
 compreendida como uma cincia fsica, sem que se suprima sua origem emprica, a semelhana
lgica entre a geometria e a fsica terica  flagrante.

Portanto, no sistema de uma fsica terica, estabelecemos um lugar para a razo e para a
experincia. A razo constitui a estrutura do sistema. Os resultados experimentais e suas
imbricaes mtuas podem ser expressos mediante as proposies dedutivas. E  na possibilidade
desta representao que se situam exclusivamente o sentido e a lgica do sistema inteiro, e mais
particularmente, dos conceitos e dos princpios que formam suas bases. Alis, estes conceitos e
princpios se revelam como invenes espontneas do esprito humano. No podem se justificar a
priori nem pela estrutura do esprito humano nem, reconheamo-lo, por uma razo qualquer. Estes
princpios fundamentais, estas leis fundamentais, quando no se pode mais reduzi-los a lgica
estrita, mostram a parte inevitvel, racionalmente incompreensvel, da teoria. Porque a finalidade
precpua de toda a teoria est em obter estes elementos fundamentais irredutveis to evidentes e to
raros quanto puderem ser, sem se olvidar da adequada representao de qualquer experincia
possvel.

Esquematizo esta tentativa de compreenso a fim de realar como de modo algum o aspecto
puramente fictcio dos fundamentos da teoria no se impunha nos sculos XVIII e XIX. Mas a
fico ganhava sempre mais, porque a separao entre os conceitos fundamentais e as leis
fundamentais de um lado, e as dedues por coordenar de acordo com nossas relaes
experimentais, de outro lado, no paravam de crescer com a cada vez maior unificao da
construo lgica. Assim, pode-se equilibrar uma completa construo terica sobre um conjunto
de elementos conceituais, logicamente independentes uns dos outros, mas em menor nmero.

Newton, o primeiro inventor de um sistema de fsica terica, imenso e dinmico, no hesita
em acreditar que conceitos fundamentais e leis fundamentais de seu sistema saram diretamente da
experincia. Creio que se deve interpretar neste sentido sua declarao de princpio hypotheses non
fingo.

Na realidade, nesta poca, as noes de espao e de tempo no pareciam apresentar nenhuma
dificuldade problemtica. Porque os conceitos de massa, inrcia e fora com suas relaes
diretamente determinadas pela lei pareciam provir em linha reta da experincia. Uma vez admitida
esta base, a expresso fora de gravitao, por exemplo, se nos apresenta como sada diretamente da
experincia e podia-se razoavelmente esperar o mesmo resultado quanto s outras foras.

Evidentemente, ns percebemos com facilidade, at mesmo pelo vocabulrio, que a noo de
espao absoluto, implicando a de inrcia absoluta, embaraa de modo particular a Newton. Porque
percebe que nenhuma experincia poder corresponder a esta ltima noo. Da mesma forma o
raciocnio sobre aes a distncia o intriga. Mas a prtica e o enorme sucesso da teoria o impedem,
a ele e aos fsicos dos sculos XVIII e XIX, de entender que o fundamento de seu sistema repousa
em base absolutamente fictcia.

Em geral, os fsicos da poca acreditavam de bom grado que os conceitos e as leis
fundamentais da fsica no constituem, no sentido lgico, criaes espontneas do esprito humano,

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mas antes que se pode deduzi-los por abstrao, portanto por um recurso da lgica. Na verdade,
somente a teoria da relatividade geral reconheceu claramente o erro dessa concepo.

Provou que era possvel, por se afastar enormemente do esquema newtoniano, explicar o
mundo experimental e os fatos de modo mais coerente e mais completo do que esse esquema
permitia. Mas deixemos de lado a questo de superioridade! O carter fictcio dos princpios torna-
se evidente pela simples razo de que se podem estabelecer dois princpios radicalmente diferentes,
que no entanto concordam em grande parte com a experincia. De qualquer modo, toda tentativa de
deduzir logicamente, a partir de experincias elementares, os conceitos e as leis fundamentais da
mecnica est votada ao malogro.

Ento, se  certo que o fundamento axiomtico da fsica terica no se deduz da experincia,
mas tem de se estabelecer espontaneamente, livremente, poderamos pensar ter descoberto a pista
certa? Coisa mais grave ainda! esta pista certa no existir apenas em nossa imaginao?
Poderemos ns julgar a experincia digna de crdito, quando algumas teorias, como a da mecnica
clssica, se apiam muito na experincia, sem argumentar sobre o fundo do problema? A esta
objeo declaro com toda a certeza que, a meu ver, a pista certa existe, e podemos descobri-la. De
acordo com a nossa pesquisa experimental at o dia de hoje, temos o direito de estar persuadidos de
que a natureza representa aquilo que podemos imaginar em matemtica como o que h de mais
simples. Estou convencido de que a construo exclusivamente matemtica nos permite encontrar
os conceitos e os princpios que os ligam entre si. Do-nos a possibilidade de compreender os
fenmenos naturais. Os conceitos matemticos utilizveis podem ser sugeridos pela experincia,
porm em caso algum deduzidos. Naturalmente a experincia se impe como nico critrio de
utilizao de uma construo matemtica para a fsica. Mas o princpio fundamentalmente criador
est na Matemtica. Por conseguinte, em certo sentido, considero verdadeiro e possvel que o
pensamento puro apreenda a realidade, como os Antigos o reconheciam com venerao.

Para justificar esta confiana, sou obrigado a empregar conceitos matemticos. O mundo
fsico se representa como um continuum de quatro dimenses. Se suponho neste mundo a mtrica
de Riemann e me pergunto quais so as leis mais simples que podem ser satisfeitas por tal sistema,
obtenho a teoria relativista da gravitao e do espao vazio. Se, neste espao, tomo um campo de
vetores ou o campo de tensores anti-simtricos que da pode derivar-se e indago quais as leis mais
simples que um tal sistema pode satisfazer, obtenho as equaes do espao vazio de Maxwell.

Neste ponto do raciocnio, ainda falta uma teoria para os conjuntos do espao onde a
densidade eltrica no desaparece. Louis De Broglie adivinhou a existncia de um campo de ondas
que podia servir para explicar certas propriedades qunticas da matria. Por fim Dirac descobre nos
spins os valores de um campo de novo gnero, cujas equaes mais simples permitem deduzir, de
modo muito importante, as propriedades dos eltrons. Ora, junto com meu colaborador, o Dr. Walter
Mayer, descobri que os spins constituem um caso especial de uma espcie de campo de novo
gnero, matematicamente ligado ao sistema de quatro dimenses, que havamos denominado de
semivetores. As equaes mais simples a que estes semivetores podem ser submetidos do uma
chave para compreender a existncia de dois tipos de partculas elementares de massas ponderveis
diferentes e com cargas iguais, mas com sinais contrrios. Estes semivetores representam, depois
dos vetores ordinrios, os elementos magnticos do campo, os mais simples que so possveis em
um continuum mtrico de quatro dimenses. Poderiam, ao que parece, descrever com facilidade as
propriedades essenciais das partculas eltricas elementares.

Para nossa pesquisa,  capital que todas estas formas e suas relaes por meio das leis sejam
obtidas atravs do princpio de pesquisa dos conceitos matemticos mais simples e de suas ligaes.
Se pudermos limitar os gneros de campo simples a existir matematicamente e as equaes simples
possveis entre eles, ento o terico tem a esperana de apreender o real em sua profundidade.

O ponto mais delicado de uma teoria dos campos deste tipo reside, atualmente, em nossa
compreenso da estrutura atmica da matria e da energia. Incontestavelmente a teoria no se
confessa atmica em seu princpio, na medida em que opera exclusivamente com funes contnuas
do espao, ao contrrio da mecnica clssica, cujo elemento de base mais importante, o ponto
material, j corresponde  estrutura atmica da matria.

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A moderna teoria dos quanta, sob sua forma determinada pelos nomes de De Broglie,
Schrdinger e Dirac, mostra uma operao com funes contnuas e supera esta dificuldade por
uma audaciosa interpretao claramente expressa pela primeira vez por Max Bom: as funes de
espao que se apresentam nas equaes no pretendem ser modelo matemtico de estruturas
atmicas. Estas funes devem unicamente determinar, pelo clculo, as probabilidades de descobrir
tais estruturas, no caso em que se medisse em dado local ou em dado estado de movimento. A
hiptese continua logicamente irrefutvel e alcana importantes resultados. Mas obriga infelizmente
a utilizar um continuum, cujo nmero de dimenses no corresponde ao do espao encarado pela
fsica atual (em nmero de quatro), pois cresce de maneira ilimitada com o nmero de molculas
que constituem o sistema considerado. Reconheo que esta interpretao me parece provisria.
Porque creio ainda na possibilidade de um modelo da realidade, quer dizer, de uma teoria que
represente as coisas mesmas, e no apenas a probabilidade de sua existncia.

De outro lado, num modelo terico temos de abandonar absolutamente a idia de poder
localizar rigorosamente as partculas. Penso que esta concluso se impe com o resultado duradouro
da relao de incerteza de Heisenberg. Mas poder-se-ia muito bem conceber uma teoria atmica no
sentido estrito (e no fundada sobre uma interpretao), sem localizao de partculas em um
modelo matemtico. Por exemplo, para compreender o carter atmico da eletricidade,  necessrio
que as equaes do campo terminem somente na seguinte proposio: uma poro de espao de trs
dimenses, em cujo limite a densidade eltrica desaparece em toda parte, retm sempre uma carga
total eltrica representada por um nmero inteiro. Numa teoria de continuum, o carter atmico de
expresses de integrais poderia ento enunciar-se de maneira satisfatria sem localizao dos
elementos constituintes da estrutura atmica.

Se uma tal representao da estrutura atmica se revelasse ser exata, eu consideraria o enigma
dos quanta completamente resolvido.

SOBRE A TEORIA DA RELATIVIDADE

Sinto uma alegria singular porque posso hoje falar na capital de um pas de onde se
transmitiram, para serem divulgadas no mundo inteiro, as idias bsicas mais essenciais da fsica
terica. Penso em primeiro lugar na teoria do movimento das massas e da gravitao, obra de
Newton; penso em seguida na noo do campo eletromagntico, graas  qual Faraday e Maxwell
repensaram as bases de uma nova fsica. Tem-se razo ao dizer que a teoria da relatividade deu uma
espcie de concluso  grandiosa arquitetura do pensamento de Maxwell e de Lorentz, pois ela se
esfora por estender a fsica do campo a todos os fenmenos, inclusive gravitao.

Ao tratar do objeto particular da teoria da relatividade, fao questo de esclarecer que esta
teoria no tem fundamento especulativo, mas que sua descoberta se baseia inteiramente na vontade
perseverante de adaptar, do melhor modo possvel, a teoria fsica aos fatos observados. No h
necessidade alguma de falar de ato ou de ao revolucionria, pois ela marca a evoluo natural de
uma linha seguida h sculos. A rejeio de certas concepes sobre o espao, o tempo e o
movimento, concepes julgadas fundamentais at esse momento, no, no foi um ato arbitrrio,
mas simplesmente um ato exigido pelos fatos observados.

A lei da constncia da velocidade da luz no espao vazio, corroborada pelo desenvolvimento
da eletrodinmica e da tica, junto com a igualdade de direito de todos os sistemas de inrcia
(princpio da relatividade restrita), indiscutivelmente revelada pela clebre experincia de
Michelson, inclina desde logo a pensar que a noo de tempo deve ser relativa, j que cada sistema
de inrcia deve ter seu tempo particular. Ora, a progresso e o desenvolvimento desta idia realam
que, antes da teoria, a relao entre as experincias pessoais imediatas, de uma parte, e as
coordenadas e o tempo, de outra parte, no fora observada com a indispensvel acuidade.

Eis sem contestao um dos aspectos fundamentais da teoria da relatividade:  sua ambio
explicitar mais nitidamente as relaes dos conceitos gerais com os fatos da experincia. Alm
disso, o princpio fundamental permanece sempre imutvel, e a justificao de um conceito fsico
repousa exclusivamente sobre sua relao clara e unvoca com os fatos acessveis  experincia. De

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acordo com a teoria da relatividade restrita, as coordenadas de espao e de tempo ainda conservam
um carter absoluto, j que so diretamente mensurveis pelos relgios e corpos rgidos. Mas
tornam-se relativos j que dependem do estado de movimento do sistema de inrcia escolhido. O
continuum de quatro dimenses realizado pela unio espao-tempo conserva, de acordo com a
teoria da relatividade restrita, o carter absoluto que possuam, conforme s teorias anteriores, o
espao e o tempo, cada um tomado  parte (Minkowski). Da interpretao das coordenadas e do
tempo como resultado das medidas, chega-se  influncia do movimento (relativo ao sistema de
coordenadas) sobre a forma dos corpos e sobre a marcha dos relgios, e  equivalncia da energia e
da massa inerte.

A teoria da relatividade geral funda-se essencialmente sobre a correspondncia numrica
verificvel e verificada da massa inerte e da massa pesada dos corpos. Ora, este fato capital, jamais
a mecnica clssica o pudera explicar. Chega-se a esta descoberta pela extenso do princpio de
relatividade aos sistemas de coordenadas, possuidoras de uma acelerao relativa de uns em relao
aos outros. Assim, a introduo de sistemas de coordenadas possuidoras de uma acelerao relativa
em relao aos sistemas de inrcia mostra e descobre campos de gravitao relativos a estes
ltimos. Da se torna evidente que a teoria da relatividade geral, baseada na igualdade da inrcia e
do peso, autoriza tambm uma teoria do campo de gravitao.

A introduo de sistemas de coordenadas aceleradas, um em relao a outro, como sistema de
coordenadas igualmente justificadas, como parece exigir a identidade entre a inrcia e o peso,
conduz, juntamente com os resultados da teoria da relatividade restrita,  conseqncia de que as
leis dos movimentos dos corpos slidos, em presena dos campos de gravitao, no correspondem
mais s regras da geometria euclidiana. Observamos o mesmo resultado na marcha dos relgios.
Ento, impunha-se, necessariamente, uma nova generalizao da teoria do espao e do tempo, j
que, doravante, se mostram absolutamente caducas as interpretaes diretas das coordenadas do
espao e do tempo pelas medidas habituais. Esta generalizao de nova maneira de medir j existia
no setor estritamente matemtico, graas aos trabalhos de. Gauss e de Riemann. E descobrimos que
se fundamenta essencialmente sobre o fato de que a nova maneira de medir empregada para a teoria
da relatividade restrita, limitada a territrios extremamente pequenos, pode se aplicar, com todo o
rigor, ao caso geral.

Tal evoluo cientfica, narrada como foi vivida, tira das coordenadas espao-tempo toda a
realidade independente. O real, em sua nova medida, agora s se apresenta pela ligao de suas
coordenadas com as grandezas matemticas que reconhecem o campo de gravitao.

A concepo da teoria da relatividade geral aplica-se a partir de uma outra raiz. Ernst Mach
realara de modo singular o fato de que na teoria newtoniana havia um ponto verdadeiramente
pouco explicado. Com efeito, considera-se o movimento sem referncia a suas causas, mas
simplesmente enquanto movimento descrito. Por conseguinte, no vejo outro movimento a no ser

o movimento relativo das coisas umas em relao s outras. Mas a acelerao que descobrimos nas
equaes do movimento de Newton continua inconcebvel desde que se raciocine a partir da
idia
do movimento relativo. Ento Newton viu-se obrigado a imaginar um espao fsico com relao ao
qual deveria existir uma acelerao. Este conceito de um espao absoluto introduzido ad hoc
mostra-se,  certo, logicamente correto, mas no satisfaz o sbio. Por este motivo E. Mach procurou
modificar as equaes da mecnica de modo que a inrcia dos corpos fosse explicada por um
movimento relativo, no por referncia ao espao absoluto, mas por referncia  totalidade dos
outros corpos ponderveis. Em vista dos conhecimentos cientficos do tempo, a combinao devia
fracassar.
Mas esta questo atormenta sempre nossa razo. A induo do pensamento impe-se com uma
fora ainda muito maior quando se pensa em funo da teoria da relatividade geral, pois, segundo
ela, sabe-se que as propriedades fsicas do espao so influenciadas pela matria pondervel. Minha
profunda convico reconhece que a teoria da relatividade geral no pode superar estas dificuldades
de maneira verdadeiramente satisfatria a no ser que se pense o universo como um espao fechado.
Os resultados matemticos da teoria nos impem esta concepo, se se admitir que a densidade
mdia da matria pondervel no universo possui um valor finito, por menor que seja.

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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A ORIGEM DA TEORIA DA RELATIVIDADE GERAL

De muito boa vontade respondo ao convite para explicar a formao histrica de meu prprio
trabalho cientfico. Tranqilizem-se, no dou injustamente maior valor  qualidade de minha
pesquisa, mas analisar a histria e a gnese do trabalho dos outros implica absorver-se nas suas
prprias descobertas. E aqui, pessoas especializadas neste tipo de pesquisas histricas faro melhor
trabalho do que ns. Em compensao, tentar esclarecer seu prprio pensamento anterior se revela
to mais fcil! Encontro-me aqui em situao infinitamente superior a todos os outros e no posso
deixar de aproveitar-me desta ocasio, mesmo sendo censurado por orgulho!

Em 1905 a teoria da relatividade restrita descobre a equivalncia de todos os sistemas ditos
sistemas de inrcia para formular as leis. Coloca-se portanto imediatamente a questo: no haveria
uma equivalncia mais extensa dos sistemas de coordenadas? Com outras palavras, se somente se
pode atribuir ao conceito de velocidade um sentido relativo, ser preciso mesmo assim considerar a
acelerao como um conceito absoluto?

Do ponto de vista puramente cinemtico, no se pode duvidar da relatividade de uns
quaisquer movimentos, mas fisicamente, parecia dever-se atribuir uma significao privilegiada ao
sistema de inrcia. E com isso, esta significao excepcional sublinhava como artificial o emprego
dos sistemas de coordenadas que se moviam de outro modo.

Evidentemente, eu conhecia a concepo de Mach, que considerava possvel que a resistncia
da inrcia no se opusesse a uma acelerao em si, mas a uma acelerao em relao  massa dos
outros corpos existentes no universo. Esta idia exercia sobre mim verdadeira fascinao, sem que
pudesse nela encontrar uma base possvel para uma nova teoria.

Pela primeira vez fiz um progresso decisivo para a soluo do problema, ao me arriscar a
tratar a lei da gravitao no contexto terico da relatividade restrita. Agi como a maioria dos sbios
daquele tempo. Quis estabelecer uma lei do campo para a gravitao, j que evidentemente a
introduo de uma ao imediata a distncia no era mais possvel. Com efeito, ou suprimia o
conceito de simultaneidade absoluta ou no podia encar-lo de um modo natural, fosse como fosse.

Naturalmente a simplicidade me aconselhava a manter o potencial escalar de gravitao de
Laplace e a completar a equao de Poisson, por um processo de fcil compreenso, por um termo
bem especfico e bem situado em relao ao tempo e, assim, a teoria da relatividade restrita
suportava a dificuldade. Alm disso, era preciso adaptar a esta teoria a lei do movimento do ponto
material no campo de gravitao. Para esta pesquisa, o mtodo aparecia menos claramente, porque a
massa inerte de um corpo pode depender do potencial de gravitao. Era previsvel em funo do
teorema da inrcia da energia.

Tais pesquisas, porm, conduziram-me a um resultado que me deixou altamente cptico.
Segundo a mecnica clssica, a acelerao vertical de um corpo no campo de gravidade vertical
continua independente da componente horizontal da velocidade. Por isso, a acelerao vertical de
um sistema mecnico, ou de seu centro de gravidade, em tal campo gravitacional, se exerce
independentemente de sua energia cintica interna. Mas, no esboo de minha teoria, esta
independncia da acelerao da queda em relao  velocidade horizontal ou  energia interna de
um sistema no existia.

Esta evidncia no coincidia com a velha experincia que me afirmava que, em um campo
gravitacional, todos os corpos sofrem a mesma acelerao. Este princpio, cuja formulao se traduz
pela igualdade das massas inertes e das massas pesadas, se me mostrou ento em sua significao
essencial. No sentido mais forte da palavra, eu o descobri e sua existncia me levou a adivinhar que
provavelmente ele encerrava a chave para uma compreenso melhor e mais profunda da inrcia e da
gravitao. Eu me baseei de modo absoluto sobre sua validez rigorosa, mas ignorava ainda os
resultados das experincias de Etvs, que s bem mais tarde vim a conhecer, se minha lembrana
no me trai.

Decidi rejeitar como ilusria esta tentativa que acabei de expor: no mais tratarei do problema
da gravitao no quadro da teoria da relatividade restrita. Porque este quadro de modo algum
corresponde  propriedade fundamental da gravitao. Doravante o princpio de igualdade da massa

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inerte e da massa pesada pode se explicitar de maneira perfeita: num campo de gravitao
homognea, todos os movimentos se executam como na ausncia de um campo gravitacional, em
relao a um sistema de coordenadas uniformemente acelerado. Se este princpio puder aplicar-se a
um qualquer acontecimento (cf. princpio de equivalncia) terei uma prova de que o princpio de
relatividade poderia ser aplicado a sistemas de coordenadas que executassem um movimento no
uniforme de uns em relao aos outros. Tudo isto supunha que eu quisesse chegar a uma teoria
natural do campo gravitacional. Reflexes deste tipo ocuparam-me de 1908 a 1911 e esforcei-me
por conseguir resultados particulares de que no falarei aqui; quanto a mim, havia adquirido uma
base slida: havia descoberto que no alcanaria uma teoria racional da gravitao a no ser pela
extenso do princpio de relatividade.

Por conseguinte, devia fundar uma teoria, cujas equaes guardassem sua forma no caso de
transformaes no lineares de coordenadas. No sabia, neste momento de minha busca, se ela se
aplicaria a transformaes de coordenadas inteiramente ordinrias (contnuas) ou somente a
algumas.

Depressa notei que, com a introduo, exigida pelo princpio de equivalncia, das
transformaes no lineares, a explicao simplesmente fsica das coordenadas devia desaparecer;
quer dizer, que no podia mais esperar que as diferenas de coordenadas exprimissem os resultados
imediatos das medidas realizadas com regras e relgios ideais. Esta evidncia me embaraava
terrivelmente, porque durante muito tempo no consegui situar o lugar real e necessrio das
coordenadas em fsica. S resolvi verdadeiramente este dilema por volta de 1912 e de acordo com o
seguinte raciocnio.

Eu preciso encontrar nova expresso da lei da inrcia. Porque, se por acaso um real campo
de gravitao no emprego de um sistema de inrcia viesse a faltar, ela serviria de sistema de
coordenadas na expresso de Galileu do princpio de inrcia. Galileu diz: um ponto material, sobre

o qual no se exerce nenhuma fora,  representado no espao de quatro dimenses por uma linha
reta, quer dizer, pela linha mais curta, ou mais precisamente, a linha extrema. Este conceito supe
estabelecido o de comprimento de um elemento de linha, portanto de uma mtrica. Ora, na teoria
da relatividade restrita, esta medida  de acordo com as demonstraes de Minkowski 
assemelhava-se a uma medida quase euclidiana: quer dizer, o quadrado do comprimento ds do
elemento de linha  uma funo quadrtica determinada das diferenciais das coordenadas.
Se introduzo aqui outras coordenadas, por uma transformao no linear, ds 2 continua uma
funo homognea das diferenciais de coordenadas, mas os coeficientes desta funo (g.) no so
mais constantes, mas somente algumas funes das coordenadas. Em linguagem matemtica,
traduzo que o espao fsico de quatro dimenses possui uma mtrica riemaniana. As linhas extremas
desta mtrica do a lei do movimento de um ponto material sobre o qual, fora das foras de
gravitao, no age nenhuma fora. Os coeficientes (g.) desta mtrica descrevem ao mesmo
tempo, em relao ao sistema de coordenadas escolhido, o campo de gravitao. Graas a este meio,
descobri uma formulao natural do princpio de equivalncia, cuja extenso a quaisquer campos de
gravitao apresentava uma hiptese inteiramente verossmil.

Eu lhes expus a evoluo, encontrando ento a soluo seguinte do dilema: a significao
fsica no est ligada s diferenciais das coordenadas, mas exclusivamente  mtrica riemaniana que
lhes est associada. Por a, se descobriu uma base para a teoria da relatividade geral, que se impe.
Mas ainda restam dois problemas a resolver:

1. Quando uma lei do campo se exprime em linguagem da teoria da relatividade restrita, como
se poder transferi-la para uma mtrica de Riemann?
Quais so as leis diferenciais que determinam a prpria mtrica (quer dizer, os g.) de
Riemann?
Trabalhei sobre estas questes de 1912 a 1914 com meu amigo e colaborador Marcel
Grossmann. Descobrimos que os mtodos matemticos para resolver o problema 1 j estavam todos
no clculo diferencial infinitesimal de Ricci e de Levi Civita.

2. Quanto ao problema 2, havia absoluta necessidade, para resolv-lo, das formas diferenciais
invariantes da segunda ordem dos g.. Descobrimos logo que estas j haviam sido analisadas por
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Riemann (tensor de curva). Dois anos antes da publicao da teoria da relatividade geral, j
havamos realado a importncia das equaes corretas do campo gravitacional, sem chegar a
perceber sua utilidade real em Fsica. Julgava saber, ao contrrio, que no podem corresponder 
experincia. Alm disso eu me persuadia e pensava poder mostr-lo, baseando-me numa
considerao geral, a de que uma lei de gravitao invariante relativa a transformaes de quaisquer
coordenadas no  compatvel com o princpio de causalidade. Estes erros de julgamento duraram
por dois anos de trabalho singularmente rduo. Por fim, reconheci no fim de 1915 que me havia
enganado; descobri que devia ligar o conjunto aos fatos da experincia astronmica, depois de ter
retomado o espao curvo de Riemann.

 luz do conhecimento j adquirido, o resultado obtido parece quase normal e qualquer
estudante inteligente o adivinha com facilidade. Assim a pesquisa procede por momentos distintos e
prolongados, intuio, cegueira, exaltao e febre. Vem dar, um dia, nesta alegria e conhece tal
alegria aquele que viveu estes momentos incomuns.

O PROBLEMA DO ESPAO, DO TER E DO CAMPO FSICO

O pensamento cientfico aperfeioa o pensamento pr-cientfico. T que neste ltimo o
conceito de espao tem uma funo fundamental, estabeleamos e estudemos este conceito. H duas
maneiras de apreender os conceitos e ambas so essenciais para perceber seu mecanismo. O
primeiro mtodo  o analtico lgico. Quer resolver o problema: como  que os conceitos e os juzos
dependem uns dos outros? Nossa resposta pe-nos logo em um terreno relativamente seguro!
Encontramos e respeitamos esta segurana na matemtica. Mas ela se obtm  custa de um
continente sem contedo. Porque os conceitos no correspondem a um contedo a no ser que
estejam unidos, mesmo de modo muito indireto, s experincias sensveis. Contudo, nenhuma
pesquisa lgica pode afirmar esta unio. Ela s pode ser vivida. E  justamente esta unio que
determina o valor epistemolgico dos sistemas de conceitos.

Exemplo: um arquelogo de uma futura civilizao descobre um tratado de geometria de
Euclides, mas sem figuras. Pela leitura dos teoremas, ele reconstituir bem o emprego das palavras
ponto, reta, plano. Reconstruir tambm a cadeia dos teoremas e at, de acordo com as regras
conhecidas, poder inventar novos. Mas esta elaborao de teoremas ser sempre para ele um
verdadeiro jogo com palavras, enquanto ele no puder imaginar alguma coisa com os termos
ponto, reta, plano, etc. Mas se consegue, e unicamente se conseguir fazer isto, a geometria ter para
ele um contedo real. O mesmo raciocnio aplica-se  mecnica analtica e em geral a todas as
cincias lgico-dedutivas.

Que  que quero dizer com poder imaginar alguma coisa com os termos ponto, reta, plano,
etc.? Em primeiro lugar, esclareo que  preciso expressar a matria das experincias sensveis a
que se referem estas palavras. Este problema extralgico ser sempre o problema-chave que o
arquelogo s poder resolver por intuio, buscando em suas experincias encontrar algo de
anlogo a estas expresses primitivas da teoria e, destes axiomas, as prprias bases das regras do
jogo.  assim, de modo absoluto, que se deve colocar a questo da existncia de uma coisa
representada abstratamente.

Porque com os conceitos arcaicos de nosso pensamento, ns nos achamos em face da
realidade da mesma maneira que nosso arquelogo diante de Euclides. No sabemos praticamente
quais imagens do mundo da experincia nos determinaram  formao de nossos conceitos e
sofremos terrivelmente ao tentar representar o mundo da experincia, para alm das vantagens da
figurao abstrata, com a qual somos forados a nos habituar. Enfim, nossa linguagem emprega,
deve empregar palavras inextrincavelmente ligadas aos conceitos primitivos e com isso aumenta a
dificuldade para separ-los. Eis portanto os obstculos que barram nosso caminho, quando
procuramos compreender a natureza do conceito de espao pr-cientfico.

Antes de tratar do problema do espao, gostaria de fazer uma observao sobre os conceitos
em geral: eles dizem respeito a experincias dos sentidos, mas jamais podem ser deduzidos
logicamente deles. Por causa desta evidncia, nunca pude aceitar a posio kantiana do a priori.

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Porque, nas questes de realidade, jamais se pode tratar a no ser de uma nica coisa, a saber:
procurar os caracteres dos conjuntos concernentes s experincias sensveis e detectar os conceitos
que a elas se referem.

No que se refere ao conceito de espao,  preciso faz-lo preceder do conceito de objeto
corporal. Muitas vezes se explicou a natureza dos complexos e das impresses dos sentidos que
constituem a origem deste conceito. A correspondncia de certas sensaes do tacto e da vista, a
possibilidade de encadeamento indefinido no tempo e de renovao das sensaes (tacto, viso) em
qualquer momento constituem alguns destes caracteres. Uma vez que o conceito de objeto corporal
ficou esclarecido, graas s experincias indicadas  digamos bem claramente que esse conceito de
modo algum tem necessidade do conceito de espao ou de relao espacial  a vontade de
compreender pelo pensamento as relaes recprocas entre tais objetos corporais tem
necessariamente de levar a conceitos que correspondam a suas relaes espaciais. Dois corpos
slidos podem se tocar ou estar separados. No segundo caso, pode-se, sem modific-los em nada,
colocar entre eles um terceiro corpo, mas no no primeiro caso. Estas relaes espaciais so
manifestamente reais, exatamente da mesma maneira que os prprios corpos. Se dois corpos so
equivalentes para encher um intervalo deste gnero, eles igualmente se revelam equivalentes para
preencher outros intervalos. Portanto o intervalo continua independente da escolha especial do
corpo destinado a ocup-lo. Esta observao se aplica de modo inteiramente geral s relaes
espaciais.  evidente que esta independncia, por representar uma condio prvia principal para a
utilidade da formao de conceitos puramente geomtricos, no se reconhece necessria a priori.
Creio que o conceito de intervalo, isolado da escolha especial do corpo destinado a preench-lo
coloca geralmente em questo o ponto de partida para chegar ao conceito de espao.

Visto pelo ngulo da experincia sensvel, o desenvolvimento deste conceito parece, de
acordo com estas breves anotaes, poder ser representado pelo seguinte esquema: objeto corporal

 relaes de posies de objetos corporais  intervalo  espao. Conforme esta maneira de
proceder, o espao se impe como algo real, exatamente como os objetos corporais.
Evidentemente, no mundo dos conceitos extracientficos, o conceito de espao foi pensado
como o conceito de uma coisa real. Mas a matemtica euclidiana no o definia como tal, preferia
utilizar exclusivamente os conceitos de objeto e as relaes de posio entre os objetos. O ponto, o
plano, a reta, a distncia representam objetos corporais idealizados. Todas as relaes de posio
so expressas por relaes de contacto (intersees de retas, de planos, posies de pontos sobre as
retas, etc.). Neste sistema de conceitos, o espao enquanto continuum jamais foi considerado.
Descartes foi o primeiro a introduzir este conceito ao descrever o ponto no espao por meio de suas
coordenadas. Somente aqui vemos o nascimento das formas geomtricas c de certo modo podemos
pens-las como partes do espao infinito, concebido como um continuum de trs dimenses.

A grande fora da concepo cartesiana do espao no repousa exclusivamente no fato de
colocar a anlise a servio da geometria. O ponto essencial  este: a geometria dos gregos privilegia
as formas particulares (reta, plano) na descrio geomtrica. E com isto outras formas (a elipse, por
exemplo) somente lhe so realmente inteligveis porque ela as constri ou define com o auxlio de
formas como o ponto, a reta e o plano. No sistema cartesiano, ao invs, todas as superfcies, por
exemplo, so dadas como equivalentes em princpio, sem se conceder uma preferncia arbitrria
pelas formas lineares na construo da geometria.

Na medida em que a geometria  inteligvel como doutrina das leis da proposio recproca de
corpos praticamente rgidos, ela deve ser considerada a mais antiga parte da fsica. Pde aparecer,
como j se notou, sem o conceito de espao enquanto tal, pois podia utilizar bem as formas ideais
corporais, tais como o ponto, a reta, o plano e a distncia. Em compensao, a fsica de Newton
exige a totalidade do espao, no sentido de Descartes. Evidentemente os conceitos de ponto material
e de distncia entre os pontos materiais (varivel com o tempo) no bastam para a dinmica. Nas
equaes do movimento de Newton, a noo de acelerao tem papel fundamental, que no define
s pelas distncias entre os pontos, variveis com o tempo. A acelerao de Newton somente 
pensvel e inteligvel como acelerao em relao  totalidade do espao. A esta realidade
geomtrica do conceito de espao associa-se portanto uma nova funo do espao, que determina a

#
inrcia. Quando Newton declarou que o espao  absoluto, teve certamente presente no esprito a
significao real do espao e deve, por conseqncia e necessariamente, ter atribudo a seu espao
um estado de movimento bem definido que, confessemo-lo, no est completamente determinado
pelos fenmenos da mecnica. Este espao foi ainda inventado como absoluto, de outro ponto de
vista. Sua eficcia para determinar a inrcia continua independente, portanto no provocada por
circunstncias fsicas de qualquer espcie. Ele age sobre as massas, nada age sobre ele.

E no entanto, na conscincia e na imaginao dos fsicos, o espao conservou at os ltimos
tempos o aspecto de um territrio passivo para todos os acontecimentos, estranho ele mesmo aos
fenmenos fsicos. A formao dos conceitos comea a tomar outra feio somente com a teoria
ondulatria da luz e a teoria do campo eletromagntico de Maxwell e Faraday. Parece, ento,
evidente que existem no espao vazio objetos dos estados que se propagam por ondulao, bem
como campos localizados que podem exercer aes dinmicas sobre massas eltricas ou plos
magnticos que se lhe opem. Mas os fsicos do sculo XIX consideram totalmente absurdo atribuir
ao prprio espao funes ou estados fsicos. Obrigam-se ento a construir para si um fluido que
penetraria em todo o espao, o ter, tendo por modelo a matria pondervel. E o ter se tornaria o
suporte dos fenmenos eletromagnticos e, por conseguinte, tambm dos fenmenos luminosos.
Comea-se representando os estados deste fluido, que deviam ser os campos eletromagnticos,
como mecnicos, exatamente  maneira das deformaes elsticas dos corpos slidos. Mas no foi
possvel completar esta teoria mecnica do ter, de sorte que se foi lentamente habituando a
renunciar a interpretar de maneira mais rigorosa a natureza dos campos do ter. Assim, o ter se
transformou em uma matria, com a nica funo de servir de suporte para campos eltricos que
no se sabia analisar de modo mais profundo. Redundou na seguinte imagem: o ter enche o
espao; no ter nadam os corpsculos materiais ou os tomos da matria pondervel. Assim a
estrutura atmica da matria se torna, na passagem do sculo, um slido resultado adquirido pela
pesquisa.

A ao recproca dos corpos se efetuar pelos campos; portanto, tambm no ter haver um
campo de gravitao; mas, naquela poca, a lei deste campo no tem forma alguma nitidamente
delimitada. Imagina-se o ter como a sede de todas as aes dinmicas que se experimentam no
espao. Desde o momento em que se reconhece que as massas eltricas em movimento produzem
um campo magntico, cuja energia fornece um modelo para a inrcia, esta se mostra imediatamente
como um efeito do campo localizado no ter. As propriedades do ter so a princpio bem confusas.
Mas H.A. Lorentz faz uma descoberta fantstica. Todos os fenmenos de eletromagnetismo at
ento conhecidos podiam se explicar por duas hipteses. O ter permanece solidamente preso no
espao, donde no pode absolutamente se mover. Ou ento, a eletricidade permanece solidamente
ligada s partculas elementares mveis. Hoje  possvel indicar o ponto exato da descoberta de

H.A. Lorentz: o espao fsico e o ter no so mais do que duas expresses diferentes de uma s e
nica coisa. Os campos so estados fsicos do espao. Se no se concede ao ter nenhum estado de
movimento particular, no h nenhuma razo para faz-lo figurar ao lado do espao como uma
realidade de um gnero particular. No entanto, tal modo de pensar ainda escapava ao esprito dos
fsicos. Porque, para eles, tanto depois como antes, o espao conserva algo de rgido e de
homogneo, portanto no suscetvel de nenhum movimento nem de estado. S o gnio de Ri mann,
isolado, mal reconhecido no ambiente do sculo passado, limpa o caminho para chegar  concepo
de uma nova noo de espao. Nega sua rigidez. O espao pode participar dos acontecimentos
fsicos. Ele reconhece ser isso possvel! Esta faanha do pensamento riemaniano suscita a
admirao e precede a teoria do campo eltrico de Faraday e Maxwell. E  a vez da teoria da
relatividade restrita. Ela reconhece a equivalncia fsica de todos os sistemas de inrcia e sua
ligao com a eletrodinmica ou com a lei da propagao da luz torna lgica a inseparabilidade do
espao e do tempo. Antes, reconhecia-se tacitamente que o continuum de quatro dimenses no
mundo dos fenmenos podia ser separado para a anlise de maneira objetiva em tempo e em
espao. Assim, a palavra agora adquire, no mundo dos fenmenos, um sentido absoluto. Desse
modo, a relatividade da simultaneidade  reconhecida e, ao mesmo tempo, o espao e o tempo so
vistos como unidos em um nico continuum, exatamente como anteriormente haviam sido reunidas
#
em um continuum nico as trs dimenses do espao. O espao fsico est agora completo. 
espao de quatro dimenses, por integrar a dimenso tempo. O espao de quatro dimenses da
teoria da relatividade restrita aparece to estruturado, to absoluto quanto o espao de Newton.

A teoria da relatividade apresenta excelente exemplo do carter fundamental do
desenvolvimento moderno da teoria. As hipteses de antes tornam-se cada vez mais abstratas, cada
vez mais afastadas da experincia. Mas, em compensao, vo se aproximando muito do ideal
cientfico por excelncia: reunir, por deduo lgica, graas a um mnimo de hipteses ou de
axiomas, um mximo de experincias. Assim, a epistemologia, indo dos axiomas para as
experincias ou para as conseqncias verificveis, se revela cada vez mais rdua e delicada, cada
vez mais o terico se v obrigado, na busca das teorias, a deixar-se dominar por pontos de vista
formais rigorosamente matemticos, porque a experincia do experimentador em fsica no pode
mais conduzir s regies de altssima abstrao. Os mtodos indutivos, empregados na cincia,
correspondendo na realidade  juventude da Cincia, so eliminados por um mtodo dedutivo muito
cauteloso. Uma combinao terica desse gnero tem de apresentar um alto grau de perfeio para
desembocar em conseqncias que, em ltima anlise, sero confrontadas com a experincia. Ainda
aqui, o supremo juiz, reconheamo-lo, continua a ser o fato experimental; mas o reconhecimento
pelo fato experimental tambm avalia o trabalho terrivelmente longo e complexo e reala as pontes
armadas entre as imensas conseqncias verificveis e os axiomas que as permitiram. O terico tem
de executar este trabalho de tit com a certeza ntida de no ter outra ambio a no ser a de
preparar talvez o assassnio de sua prpria teoria. Jamais se deveria criticar o terico quando se
entrega a semelhante trabalho ou tach-lo de fantasioso.  preciso dar valor a esta fantasia. Porque
para ele representa o nico itinerrio que leva  meta. Certamente no se trata de brincadeira, mas
de paciente procura em vista das possibilidades logicamente mais simples, e de suas conseqncias.
Impe-se esta captatio benevolentiae*. Predispe necessariamente melhor o ouvinte ou o leitor a
seguir com paixo o desenrolar das idias que vou apresentar. Porque foi assim que passei da teoria
da relatividade restrita para a teoria da relatividade geral e de l, em seu ltimo prolongamento, para
a teoria do campo unitrio. Para expor esta caminhada no posso evitar completamente o emprego
dos smbolos matemticos.

Comecemos pela teoria da relatividade restrita. Esta se funda diretamente sobre uma lei
emprica, a da constncia da velocidade da luz. Seja P um ponto no vcuo P' um ponto infinitamente
prximo, cuja distncia de P  d. Suponhamos uma emisso luminosa vinda de P no momento t,
atingindo P' no momento t + d. Obtm-se ento:

22
do =c dt2
 .


Se dx1, dx2, dx3 so as projees ortogonais de do e se se introduz a coordenada de tempo
imaginrio ctvl=x4 a lei acima da constncia da propagao da luz ento se escrever:

22 222
ds =dx 1 + dx 2 + dx 3 + dx 4 = 0

J que esta frmula expressa um estado real, pode-se atribuir  grandeza ds uma significao
real, mesmo no caso em que os pontos vizinhos do continuum de quatro dimenses tenham sido
escolhidos de tal maneira que o ds correspondente no desaparea. O que d pouco mais ou menos
no seguinte: o espao de quatro dimenses (com a coordenada imaginria de tempo) da teoria da
relatividade restrita possui uma mtrica euclidiana.

A razo de tal escolha consiste no seguinte: admitir tal mtrica em um continuum de trs
dimenses obriga necessariamente a admitir os axiomas da geometria euclidiana. A equao de
definio da mtrica representa neste caso exatamente aquilo que o teorema de Pitgoras representa

* Captao de simpatia. Em latim no original. (N. do E.)
#
aplicado s diferenciais das coordenadas.
Na teoria da relatividade restrita, tais mudanas de coordenadas (por uma transformao) so


2
possveis, pois nas novas coordenadas igualmente a grandeza ds (invariante fundamental) se
expressa nas novas diferenciais de coordenadas pela soma dos quadrados. As transformaes desta
natureza chamam-se transformaes de Lorentz.
O mtodo heurstico da teoria da relatividade restrita assim se define pela seguinte
caracterstica: para exprimir as leis naturais, no se deve admitir seno equaes cuja forma no
muda, mesmo quando se modificam as coordenadas por meio de uma transformao de Lorentz
(covarincia das equaes em relao s transformaes de Lorentz).
Por este mtodo, reconheo a ligao necessria do impulso e da energia, da intensidade do
campo magntico e do campo eltrico, das foras eletrostticas e eletrodinmicas, da massa inerte e
da energia e, automaticamente, o nmero das noes independentes e das equaes fundamentais da
fsica vai se tornando cada vez mais restrito.
Este mtodo ultrapassa os prprios limites. Ser exato que as equaes que exprimem as leis
naturais no sejam covariantes a no ser em relao s transformaes de Lorentz e no em relao
a outras transformaes? A dizer verdade, a questo assim colocada no tem honestamente sentido
algum, pois todo sistema de equaes pode se exprimir com coordenadas gerais. Perguntemos
antes: as leis naturais sero feitas de tal modo que a escolha das coordenadas particulares, quaisquer
que sejam, lhes faa sofrer uma modificao essencial?
Reconheo, de passagem, que nosso princpio, baseado na experincia da igualdade da massa
inerte e da massa pesada, nos obriga a responder afirmativamente. Se elevo  categoria de princpio
a equivalncia de todos os sistemas de coordenadas para formular as leis da natureza, chego  teoria
da relatividade geral. Mas tenho de manter a lei da constncia da velocidade da luz ou ento a
hiptese da significao objetiva da mtrica euclidiana, pelo menos para as partes infinitamente
pequenas do espao de quatro dimenses.
Por conseguinte, para os domnios finitos do espao eu suponho a existncia (fisicamente
significativa) de uma mtrica geral segundo Riemann, como a seguinte frmula:

2 .
ds = Sg.dx dx

Em que a soma deve se estender a todas as combinaes de ndices de 1,1 a 4,4.

A estrutura de um espao assim apresenta um nico ponto diferente, absolutamente essencial,
do espao euclidiano. Os coeficientes g.
so provisoriamente quaisquer funes das coordenadas
x, a x, e a estrutura do espao somente se reconhece verdadeiramente determinada quando estas
funes g.
so realmente conhecidas. Pode-se igualmente afirmar que a estrutura de tal espao se
apresenta em si realmente indeterminada. Ela s ser determinada de modo mais rigoroso, quando
se afirmarem as leis a que se prende o campo mensurvel de g.. Por motivos de ordem fsica
persistia a convico: o campo da medida  ao mesmo tempo o campo de gravitao.

Sendo o campo de gravitao determinado pela configurao das massas, e variando com ela,
a estrutura geomtrica deste espao tambm depende de fatores fsicos. De acordo com esta teoria,

o espao no  mais absoluto (exatamente o pressentimento de Riemann!), mas sua estrutura
depende de influncias fsicas. A geometria (fsica) no se afirma agora como uma cincia isolada,
fechada sobre si mesma, como a geometria de Euclides.
O problema da gravitao volta, assim,  sua dimenso de problema matemtico.  preciso
procurar as equaes condicionais mais simples, covariantes em face de quaisquer transformaes
de coordenadas. Este problema, bem delimitado pelo menos, eu posso resolv-lo.

No se trata de discutir aqui a questo de verificar a teoria pela experincia, mas de esclarecer
imediatamente porque a teoria no pode se satisfazer com este resultado. A gravitao foi
reintroduzida na estrutura do espao.  um primeiro ponto, mas fora deste campo gravitacional
existe o campo eletromagntico. Ser necessrio primeiro considerar teoricamente este ltimo

#
campo como uma realidade independente da gravitao. Na equao condicional para o campo, fui
constrangido a introduzir termos suplementares para explicar a existncia deste campo
eletromagntico. Mas meu esprito de terico no pode absolutamente suportar a hiptese de duas
estruturas do espao, independentes uma da outra, uma em gravitao mtrica, a outra em
eletromagntica. Minha convico se impe: as duas espcies de campo tm na realidade de
corresponder a uma estrutura unitria do espao.

JOHANNES KEPLER

Em nosso tempo, justamente nos momentos de grandes preocupaes e de grandes tumultos,
os homens e suas polticas no nos fazem muito felizes. Por isso estamos particularmente
comovidos e confortados ao refletirmos sobre um homem to notvel e to impvido quanto Kepler.
No seu tempo, a existncia de leis gerais para os fenmenos da natureza no gozava de nenhuma
certeza. Por conseguinte, ele devia ter uma singular convico sobre estas leis para lhes consagrar,
dezenas de anos a fio, todas as suas foras, num trabalho obstinado e imensamente complicado.
Com efeito, procura compreender empiricamente o movimento dos planetas e as leis matemticas
que o expressam. Est sozinho. Ningum o apia nem o compreende. A fim de honrar sua memria,
gostaria de analisar o mais rigorosamente possvel seu problema e as etapas de sua descoberta.

Coprnico inicia os melhores pesquisadores, fazendo notar que o melhor meio de
compreender e de explicitar os movimentos aparentes dos planetas consiste em considerar estes
movimentos como revolues ao redor de um suposto ponto fixo, o Sol. Portanto, se o movimento
de um planeta ao redor do Sol como centro fosse uniforme e circular, seria singularmente fcil
descobrir, a partir da Terra, o aspecto destes movimentos. Mas, na realidade, os fenmenos so mais
complexos e o trabalho do observador muito mais delicado. Ser preciso primeiro determinar tais
movimentos empiricamente, utilizando as tabelas de observao de Tycho Brahe. Somente depois
desse enfadonho trabalho, torna-se possvel encarar, ou sonhar com as leis gerais a que se
moldariam estes movimentos.

Mas o trabalho de observao dos movimentos reais de revoluo se revela muito rduo e,
para tomar conscincia deles,  preciso meditar na evidncia: Jamais se observa em momento
determinado o lugar real de um planeta. Sabe-se somente em que direo ele  observado da Terra
que, por seu lado, perfaz ao redor do Sol um movimento cujas leis ainda no so conhecidas. As
dificuldades parecem praticamente insuperveis.

Kepler v-se forado a encontrar o meio para organizar o caos. A princpio ele descobre que 
preciso tentar determinar o movimento da prpria Terra. Ora. este problema  muito simplesmente
insolvel, se s existissem o Sol, a Terra, as estrelas fixas, com a excluso dos outros planetas.
Porque se poderia, empiricamente, determinar a variao anual da direo da linha reta Sol-Terra
(movimento aparente do Sol em relao s estrelas fixas). Mas seria s isto. Poder-se-ia tambm
descobrir que todas estas direes se situariam num plano fixo em relao s estrelas fixas, na
medida em que a preciso das observaes recolhidas na poca permitira formul-lo. Porque ainda
no existe o telescpio! Ora,  preciso determinar como a linha Sol-Terra evolui ao redor do Sol.
Notou-se ento que, cada ano, regularmente, a velocidade angular deste movimento se modificava.
Mas esta verificao no ajudou muito, porque no se conhecia ainda a razo por que a distncia da
Terra ao Sol variava. Se apenas se conhecessem as modificaes anuais desta distncia, ter-se-ia
podido determinar a verdadeira forma da rbita da Terra e da maneira como se realiza.

Kepler encontra um processo admirvel para resolver o dilema. Em primeiro lugar, de acordo
com os resultados das observaes solares, ele v que a velocidade do percurso aparente do Sol
contra o ltimo horizonte das estrelas fixas  diferente nas diversas pocas do ano. Mas v tambm
que a velocidade angular deste movimento permanece sempre a mesma na mesma poca do ano
astronmico. Portanto a velocidade de rotao da linha Terra-Sol  sempre a mesma, se est dirigida
para a mesma regio das estrelas fixas. Portanto pode-se supor que a rbita da Terra se fecha sobre
si mesma e que a Terra a realiza todos os anos da mesma maneira. Ora, isto no  evidente a priori.
Para os adeptos do sistema de Coprnico, esta explicao deveria, praticamente de modo

#
inexorvel, aplicar-se tambm s rbitas dos outros planetas.

Esta descoberta j significa um progresso. Mas, como determinar a verdadeira forma da rbita
da Terra? Imaginemos uma lanterna M, colocada em algum lugar no plano da rbita, e que lana
viva luz e conserva uma posio fixa, conforme j o verificamos. Ela constituir ento, para a
determinao da rbita terrestre, uma espcie de ponto fixo de triangulao ao qual os habitantes da
Terra poderiam se referir em qualquer poca do ano. Precisemos ainda que esta lanterna estaria mais
afastada do Sol do que da Terra. Graas a ela, pode-se avaliar a rbita terrestre.

Ora, cada ano, existe um momento em que a Terra T se situa exatamente sobre a linha que liga

o Sol S  lanterna M. Se, neste momento, se observar da Terra T a lanterna M, esta direo ser
tambm a direo SM (Sol-lanterna). Imaginemos esta ltima direo traada no cu. Imaginemos
agora uma outra posio da Terra, em outro momento. J que, da Terra, se pode ver to bem o Sol S
quanto a lanterna M, o ngulo em T do tringulo STM se torna conhecido. Mas conhece-se tambm
pela observao direta do Sol a direo ST em relao s estrelas fixas, ao passo que anteriormente
a direo da linha SM em relao s estrelas fixas fora determinada de uma vez por todas. Conhece-
se igualmente no tringulo STM o ngulo em S. Portanto, escolhendo-se  vontade uma base SM,
pode-se traar no papel, graas ao conhecimento dos dois ngulos em T e em S, o tringulo STM.
Ser ento possvel operar assim vrias vezes durante o ano e, de cada vez, se desenha no papel uma
localizao para a Terra T, com a data correspondente e sua posio em relao  base SM, fixa de
uma vez por todas. Kepler determina assim, empiricamente, a rbita terrestre. Simplesmente ignora
sua dimenso absoluta, mas  tudo!
Porm, objetaro, onde  que Kepler encontrou a lanterna M? Seu gnio, sustentado pela
inesgotvel e benfica natureza, o ajudou a encontrar. Podia, por exemplo, utilizar o planeta Marte.
Sua revoluo anual, quer dizer, o tempo que Marte leva para realizar uma volta ao redor do Sol, era
conhecida. Pode acontecer o caso em que Sol, Terra, Marte se encontrem exatamente na mesma
linha. Ora, esta posio de Marte se repete cada vez depois de um, dois, etc... anos marcianos,
porque Marte realiza uma trajetria fechada. Nestes momentos conhecidos, SM apresenta sempre a
mesma base, ao passo que a Terra se situa sempre em um ponto diferente de sua rbita. Portanto,
nestes momentos, as observaes sobre o Sol e Marte oferecem um meio para se conhecer a
verdadeira rbita da Terra, pois o planeta Marte reproduz nesta situao a funo da lanterna
imaginada e descrita acima.

Kepler assim descobre a forma justa da rbita terrestre, bem como a maneira pela qual a Terra
a realiza. Quanto a ns, ditos hoje europeus, alemes, at mesmo sbios, temos de admirar e
glorificar Kepler por sua intuio e sua fecundidade.

A rbita terrestre est ento empiricamente determinada; conhece-se a qualquer momento a
linha SA em sua posio e sua grandeza verdadeiras. Portanto, em princpio, no deve ser muito
mais difcil para Kepler calcular, pelo mesmo processo e por observaes, as rbitas e os
movimentos dos outros planetas. Mas na realidade isto apresenta enorme dificuldade porque as
matemticas de seu tempo ainda so primrias.

Contudo Kepler ocupa sua vida com uma segunda questo, igualmente complexa. As rbitas,
ele as conhece empiricamente, mas suas leis, ser preciso deduzi-las destes resultados empricos.
Resolve estabelecer uma suposio sobre a natureza matemtica da curva da rbita. Vai verific-la
depois por meio de enormes clculos numricos. E se os resultados no coincidem com a suposio,
ele imaginar outra hiptese e verificar de novo. Executar prodigiosas pesquisas. E Kepler obtm
um resultado conforme  hiptese ao imaginar o seguinte: a rbita  uma elipse da qual o Sol ocupa
um dos focos. Encontra ento a lei pela qual a velocidade varia durante uma revoluo, no ponto em
que a linha Sol-planeta realiza, em tempos idnticos, superfcies idnticas. Enfim Kepler descobre
que os quadrados de duraes de revoluo so proporcionais s terceiras potncias dos grandes
eixos de elipses.

Ns admiramos este homem maravilhoso. Mas, para alm deste sentimento de admirao e de
venerao, temos a impresso de nos comunicar no mais com um ser humano, mas com a natureza,
e o mistrio de que estamos cercados desde nosso nascimento.

J na antiguidade, homens imaginaram curvas para forjarem as leis mais evidentes possveis.

#
Entre elas, conceberam a linha reta, o crculo, a elipse e a hiprbole. Ora, observamos que estas
ltimas formas se realizam, e mesmo com grande aproximao, nas trajetrias dos corpos celestes.

A razo humana, eu o creio muito profundamente, parece obrigada a elaborar antes e
espontaneamente formas cuja existncia na natureza se aplicar a demonstrar em seguida. A obra
genial de Kepler prova esta intuio de maneira particularmente convincente. Kepler d testemunho
de que o conhecimento no se inspira unicamente na simples experincia, mas fundamentalmente
na analogia entre a concepo do homem e a observao que faz.

A MECNICA DE NEWTON E SUA INFLUNCIA SOBRE A FORMAO DA FSICA
TERICA

Festejamos nestes dias o bicentenrio da morte de Newton. Desejaria evocar a inteligncia
deste esprito perspicaz. Porque ningum antes dele e mesmo depois abriu verdadeiramente
caminhos novos para o pensamento, para a pesquisa, para a formao prtica dos homens do
Ocidente. Evidentemente nossa lembrana o considera como o genial inventor dos mtodos
diretores particulares. Mas tambm ele domina, ele e s ele, todo o conhecimento emprico de seu
tempo. E revela-se prodigiosamente engenhoso para qualquer demonstrao matemtica e fsica,
mesmo ao nvel dos pormenores. Todas estas razes provocam nossa admirao. Contudo Newton
supera a imagem de um mestre que se tem dele. Porque ele se situa em um momento crucial do
desenvolvimento humano.  preciso compreend-lo de modo absoluto e nunca nos esquecermos.
Antes de Newton, no existe nenhum sistema completo de causalidade fsica capaz de perceber,
mesmo de maneira comum, os fatos mais evidentes e mais repetidos do mundo da experincia.

Os grandes filsofos da antiguidade helnica exigiam que todos os fenmenos materiais se
integrassem em uma seqncia rigorosamente determinada pela lei de movimentos dos tomos.
Jamais a vontade de seres humanos poderia intervir, causa independente, nesta cadeia inelutvel.
Admitamos no entanto que Descartes, a seu modo, tenha retomado a busca desta mesma meta. Mas
sua empresa consiste em um desejo cheio de audcia e no ideal problemtico de uma escola de
filosofia. Resultados positivos, incontestados e incontestveis, elementos para uma teoria de uma
causalidade fsica perfeita, nada disto existe praticamente antes de Newton.

Mas ele quer responder  clara pergunta: existe uma regra simples? Caso exista, poderei
calcular completamente o movimento dos corpos celestes de nosso sistema planetrio, com a
condio de que o estado de movimento de todos esses corpos em dado momento seja conhecido?
O mundo conhece as leis empricas de Kepler sobre o movimento planetrio. Baseiam-se nas
observaes de Tycho Brahe. Exigem uma explicao. Porque hoje se compreende o esforo imenso
do esprito, pois se tratava ento de deduzir leis a partir de rbitas empiricamente conhecidas. E
poucas pessoas realmente apreciam a genial aventura de Kepler, quando conseguiu efetivamente
determinar as rbitas reais de acordo com direes aparentes, isto , observadas da Terra.
Certamente estas leis do uma resposta satisfatria  questo de saber como os planetas se deslocam
ao redor do Sol: forma elptica da rbita, igualdade das reas atravessadas em tempos iguais,
relaes entre semigrandes eixos e as duraes de percurso. Mas essas regras no respondem 
necessidade de explicao causal, porque so trs regras logicamente independentes uma da outra,
sem qualquer conexo interna. Assim, a terceira lei no pode, pura e simplesmente, ser aplicada
numericamente a um outro corpo central que no seja o sol! Por exemplo, no existe nenhuma
relao entre a durao de percurso de um planeta ao redor do Sol e a de um satlite ao redor de seu
planeta! O mais grave se revela aqui: estas leis dizem respeito ao movimento enquanto conjunto.
No respondem  questo: como do estado de movimento de um sistema decorre o movimento que

o segue imediatamente na durao? Empreguemos nosso modo de falar atual. Procuramos
integrais, e no leis diferenciais.
Ora, a lei diferencial constitui a nica forma que satisfaz completamente  necessidade de
explicao causal do fsico moderno. E a concepo perfeitamente clara da lei diferencial continua a
ser uma das faanhas de Newton. No somente exigia a capacidade para pensar este problema, mas
era preciso ultrapassar o formalismo matemtico em seu estado rudimentar. Tudo devia ser

#
traduzido de forma sistemtica. Ora, Newton, ainda aqui, inventa esta sistematizao no clculo
diferencial e no clculo integral. Pouco importa discutir e saber se Leibnitz, independentemente
dele, descobriu os mesmos mtodos matemticos ou no! De qualquer modo, Newton neste
momento de seu raciocnio teve necessidade deles, porque estes mtodos lhe so, com toda a
certeza, indispensveis para formular os resultados de seu pensamento conceptual.

O primeiro progresso significativo no conhecimento da lei do movimento fora feito j antes
por Galileu. Ele conhece a lei da inrcia e a da queda livre dos corpos no campo de gravitao da
Terra: uma massa (ou mais precisamente um ponto material), no influenciada por outras massas,
move-se uniformemente em linha reta. A velocidade vertical de um corpo livre cresce, no campo da
gravidade, proporcionalmente ao tempo. Hoje poderamos ingenuamente pensar que dos
conhecimentos de Galileu at  lei do movimento de Newton o progresso era muito banal. E no
entanto no se pode fazer pouco caso da seguinte observao: Galileu e Newton definem os dois
enunciados, segundo sua forma, como movimento em seu conjunto. Mas a lei de Newton j
responde  questo exata: como se manifesta o estado de movimento de um ponto material em um
tempo infinitamente pequeno, sob a influncia de uma fora exterior? Porque foi unicamente ao
passar para a observao do fenmeno durante um tempo infinitamente pequeno (lei diferencial),
que Newton conseguiu encontrar as frmulas aplicveis a quaisquer movimentos. Ele emprega a
noo de fora, que a esttica j desenvolvera. Para tornar possvel a ligao entre fora e
acelerao, introduz um novo conceito, o de massa. Apresenta uma bela definio, mas
curiosamente no passa de aparncia. Nosso hbito moderno de fabricar conceitos aplicveis a
quocientes diferenciais nos impede compreender que fantstico poder de abstrao se exigia para
chegar, por dupla derivao,  lei diferencial geral do movimento, onde este conceito de massa
estava ainda por inventar.

No havamos ainda compreendido, mesmo com este progresso, a razo causal dos
fenmenos de movimento. Porque o movimento somente  determinado pela equao do
movimento quando a fora aparece. Newton, provavelmente condicionado pelas leis do movimento
dos planetas, tem a idia de que a fora que age sobre uma massa  determinada pela posio de
todas as massas situadas a uma distncia suficientemente pequena da massa em questo. Logo que
foi conhecida esta relao, Newton teve a compreenso completa dos fenmenos de movimento.
Todo o mundo sabe ento como Newton, continuando a anlise das leis do movimento planetrio de
Kepler, resolve o dilema por meio da gravitao, descobre assim a identidade das foras motrizes,
aquelas que agem sobre os astros, e as da gravidade. Eis a unio da lei do movimento e da lei da
atrao, eis a obra-prima admirvel de seu pensamento. Porque permite calcular, partindo do estado
de um sistema que funciona em dado momento, os estados anteriores e posteriores, evidentemente
na medida em que os fenmenos se produzem sob a ao das foras da gravitao. O sistema de
conceitos de Newton apresenta extrema coerncia lgica, porque descobre que as causas de
acelerao das massas de um sistema so somente as prprias massas.

Nesta base, que analiso em suas linhas gerais, Newton chega a explicar em pormenores os
movimentos dos planetas, dos satlites, dos cometas, o fluxo e o refluxo, o movimento de precesso
da Terra, soma de dedues de um gnio incomparvel! A origem desta teoria particularmente
estupenda  a seguinte concepo: a causa dos movimentos dos corpos celestes  idntica 
gravidade. Agora, cotidianamente, a experincia o confirma.

A importncia dos trabalhos de Newton consiste principalmente na criao e na organizao
de uma base utilizvel, lgica e satisfatria para a mecnica propriamente dita. Mas estes trabalhos
permanecem at o fim do sculo XIX o programa fundamental de cada pesquisador, no domnio da
fsica terica. Todo acontecimento fsico deve ser traduzido em termos de massa, e estes termos so
redutveis s leis do movimento de Newton. A lei da fora  a exceo. Em seguida era preciso
alargar e adaptar este conceito ao gnero de fatos utilizados pela experincia. O prprio Newton
tentou aplicar seu programa  tica, imaginando a luz composta de corpsculos inertes. A tica da
teoria ondulatria tambm empregar a lei do movimento de Newton, aps ter sido aplicada a
massas distribudas de maneira contnua. A teoria cintica do calor baseia-se exclusivamente sobre
as equaes do movimento de Newton. Ora, esta teoria no apenas forma os espritos para o

#
conhecimento da lei da conservao da energia, mas tambm serve de base para uma teoria dos
gases, confirmada em todos os pontos, bem como uma concepo muito elaborada da natureza
conforme o segundo princpio da termodinmica. A teoria da eletricidade e do eletromagnetismo
desenvolveu-se de igual maneira at nossos dias, inteiramente sob a influncia diretriz das idias
fundamentais de Newton (substncia eltrica e magntica, foras agindo a distncia). At mesmo a
revoluo operada por Faraday e Maxwell na eletrodinmica e na tica, revoluo que constitu o
primeiro grande progresso fundamental das bases da fsica terica depois de Newton, mesmo esta
revoluo se realiza integralmente dentro do esquema das idias newtonianas. Maxwell,
Boltzmann, Lord Kelvin no deixaro de se reportar aos campos eletromagnticos e suas aes
dinmicas recprocas a fenmenos mecnicos de massas hipotticas repartidas de maneira contnua.
Mas, por causa dos fracassos, ou, pelo menos, da falta de xito destes esforos, nota-se, pouco a
pouco, desde o fim do sculo XIX uma revoluo das maneiras fundamentais de pensar. Agora a
fsica terica deixou o quadro newtoniano que, por quase dois sculos, conservava como guia
cientfico intelectual e moral.

Do ponto de vista lgico, os princpios fundamentais de Newton pareciam to satisfatrios,
que um estmulo a qualquer inovao s poderia ser provocado pela presso dos fatos da
experincia. Antes de refletir sobre este poder lgico abstrato, devo recordar que o prprio Newton
conhecia os lados fracos inerentes  arquitetura de seu pensamento, e sabe isto melhor ainda do que
as geraes de sbios que o sucedero. Este fato me comove e provoca em mim uma admirao
cheia de respeito. Por isso vou tentar meditar mais profundamente nesta evidncia.

1. Nota-se constantemente o esforo de Newton por apresentar seu sistema de pensamento
necessariamente condicionado pela experincia. Nota-se tambm que utiliza o mnimo possvel
conceitos no diretamente ligados aos objetos da experincia. E, no entanto, coloca os conceitos:
espao absoluto, tempo absoluto! Em nossa poca, muitas vezes o censuram por isto. Mas
justamente nesta afirmao, Newton se reconhece particularmente conseqente consigo mesmo.
Porque descobriu experimentalmente que as grandezas geomtricas observveis (distncias dos
pontos materiais entre eles) e seu curso no tempo no definem completamente os movimentos no
ponto de vista fsico. Demonstrou este fato pela clebre experincia do balde. Portanto existe, alm
das massas e de suas distncias variveis no tempo, ainda alguma coisa que determina os
acontecimentos. Esta alguma coisa ele a imagina como a relao com o espao absoluto.
Confessa que o espao deve possuir uma espcie de realidade fsica, para que suas leis do
movimento possam ter um sentido, uma realidade da mesma natureza que a dos pontos materiais e
suas distncias.
Este conhecimento lcido de Newton indica evidentemente sua sabedoria, mas tambm a
fragilidade de sua teoria. Porque a construo lgica desta arquitetura se imporia bem melhor, com
certeza, sem este conceito obscuro. Porque ento nas leis apenas encontraramos objetos (pontos
materiais, distncias) cujas relaes com as percepes permaneceriam perfeitamente transparentes.

2. Introduzir foras diretas, agindo a distncia instantaneamente para representar os efeitos da
gravitao no concorda com o cunho da maioria dos fenmenos conhecidos pela experincia
cotidiana. Newton responde a esta objeo. Declara que sua lei da ao recproca da gravidade no
ambiciona ser uma explicao definitiva, mas antes uma regra deduzida da experincia.
3. Ao fato singularmente notvel de que o peso e a inrcia de um corpo continuam
determinados pela mesma grandeza (a massa), Newton no apresenta nenhuma explicao em sua
teoria; mas a singularidade do fato no lhe escapava.
Nenhum destes trs pontos autoriza uma objeo lgica contra a teoria. Trata-se antes de
desejos insatisfeitos do esprito cientfico, que mal suporta no poder penetrar totalmente, e por uma
concepo unitria, nos fenmenos da natureza.

A teoria da eletricidade de Maxwell ataca e abala pela primeira vez a doutrina do movimento
de Newton, considerada como programa de toda a fsica terica. Verifica-se que as aes recprocas,
exercidas entre os corpos por corpos eltricos e magnticos, no dependem de corpos agindo a
distncia e instantaneamente, mas so provocadas por operaes que se propagam atravs do espao
com uma velocidade finita. Pela concepo de Faraday, estabelece-se que existe, ao lado do ponto

#
material e de seu movimento, uma nova espcie de objetos fsicos reais; do-lhe o nome de
campo. Procura-se imediatamente conceb-lo, fundando-se sobre a concepo mecnica, como
um estado (de movimento ou de constrangimento) mecnico de um fluido hipottico (o ter) que
encheria o espao. Mas esta interpretao mecnica, apesar dos esforos mais teimosos, no d
resultado. Ento viram-se obrigados, pouco a pouco, a conceber o campo eletromagntico como o
elemento ltimo, irredutvel, da realidade fsica. H. Hertz conseguiu isolar o conceito de campo de
todo o arsenal formado pelos conceitos da mecnica. Percebe sua funo, e lhe devemos este
progresso. Enfim H. A. Lorentz pde isolar o campo de seu suporte material. Com efeito, segundo

H. A. Lorentz, o suporte do campo  figurado apenas pelo espao fsico vazio ou o ter. Mas o ter,
j na mecnica de Newton, no foi purificado de todas as funes fsicas. Esta evoluo chega ento
ao fim e ningum mais acredita nas aes a distncia diretas e instantneas, nem mesmo no domnio
da gravitao. E no entanto, por falta de fatos suficientemente conhecidos, nenhuma teoria do
campo foi tentada a partir da gravitao de modo unilateral! Assim o desenvolvimento da teoria do
campo eletromagntico gera a seguinte hiptese. J que se abandona a teoria de Newton de foras
agindo a distncia, explicar-se- pelo eletromagnetismo a lei newtoniana do movimento ou ento
ela ser substituda por uma lei mais exata baseada na teoria do campo. Tais tentativas no chegaro
na verdade a um resultado definitivo. Mas doravante as idias fundamentais da mecnica deixam de
ser consideradas como princpios essenciais da imagem do mundo fsico.
A teoria de Maxwell-Lorentz vem dar fatalmente na teoria da relatividade restrita que, por
destruir a fico da simultaneidade absoluta, no pode se permitir a crena na existncia de foras
agindo a distncia. Segundo esta teoria, a massa no  mais uma grandeza imutvel, mas varia
conforme seu contedo de energia, sendo-lhe mesmo equivalente. Por esta teoria, a lei do
movimento de Newton s pode ser encarada como uma lei-limite vlida para pequenas velocidades.
Em compensao, revela-se nova lei do movimento; substitui a precedente e mostra que a
velocidade da luz no vcuo existe, mas como velocidade-limite.

O ltimo progresso do desenvolvimento do programa da teoria do campo  denominada teoria
da relatividade geral. Quantitativamente, pouco modifica a teoria newtoniana, mas qualitativamente
provoca modificaes essenciais nela. A inrcia, a gravitao, o comportamento medido dos corpos
e dos relgios, tudo se traduz na qualidade unitria do campo. E este mesmo campo se apresenta
como dependente dos corpos (generalizao da lei de Newton ou da lei do campo que lhe
corresponde, como Poisson j o formulara). Assim, espao e tempo se vem esvaziados de sua
substncia real! Mas espao e tempo perdem seu carter de absoluto causal (influenciando, mas no
influenciado) que Newton foi obrigado a lhes atribuir para poder enunciar as leis ento conhecidas.
A lei de inrcia generalizada substitui o papel da lei do movimento de Newton. Esta reflexo
esquemtica quer realar como os elementos da teoria de Newton se integraram na teoria da
relatividade geral e como os trs defeitos, analisados acima, puderam ser corrigidos. No quadro da
teoria da relatividade geral, a meu ver, a lei do movimento pode ser deduzida da lei do campo
correspondente  lei das foras de Newton. Quando esta meta foi realmente atingida de modo
completo, pde-se verdadeiramente raciocinar sobre a teoria pura do campo.

A mecnica de Newton ainda prepara o caminho para a teoria do campo em um sentido mais
formal. Com efeito, a aplicao da mecnica de Newton s massas distribudas de maneira contnua
provocou inevitavelmente a descoberta e, em seguida, o emprego das equaes s derivadas
parciais. Depois, deram uma linguagem s leis da teoria do campo. Sob essa relao formal a
concepo de Newton sobre a lei diferencial ilustra o primeiro progresso do desenvolvimento que
passamos a ver.

Toda a evoluo de nossas idias sobre a maneira pela qual at agora imaginamos as
operaes da natureza pode ser concebida como um desenvolvimento das idias newtonianas. Mas,
enquanto se efetuava a organizao estruturada da teoria do campo, os fatos da irradiao trmica,
dos espectros, da radioatividade, etc. revelavam um limite na utilizao de todo o sistema de idias.
E hoje ainda, mesmo tendo ns obtido sucessos prestigiosos mas espordicos, este limiar se
mostrou praticamente intransponvel, com um certo nmero de argumentos de valor; muitos fsicos
sustentam que, diante destas experincias, no apenas a lei diferencial, mas tambm a lei de

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causalidade deram provas de seu malogro. Ora, a lei de causalidade at hoje se levantava como o
ltimo postulado fundamental de toda a natureza! Mas vai-se mais longe ainda! Nega-se a
possibilidade de uma construo espao-tempo porque no poderia ser coordenada de maneira
evidente com os fenmenos fsicos. Assim, por exemplo, um sistema mecnico , de maneira
constante, capaz somente de valores de energia discretos ou de estados discretos  a experincia
prova-o por assim dizer diretamente! Parece ento, e antes de mais nada, que esta evidncia
dificilmente podia ser ligada a uma teoria de campo que funcionasse com equaes diferenciais. E o
mtodo de Broglie-Schrdinger que, de certo modo, se assemelha s caractersticas de uma teoria
do campo, deduz a existncia de estados discretos, mas fundando-se sobre as equaes diferenciais
por uma espcie de reflexo de ressonncia. Ora, isto concorda de maneira estupenda com os
resultados da experincia. Mas o mtodo, por sua vez, malogra na localizao das partculas
materiais, em leis rigorosamente causais. Hoje, quem seria bastante louco para decidir de modo
definitivo a soluo do problema: a lei causal e a lei diferencial, estas ltimas premissas da
concepo newtoniana da natureza, tero de ser rejeitadas para todo o sempre?

A INFLUNCIA DE MAXWELL SOBRE A EVOLUO DA REALIDADE FSICA

Crer em um mundo exterior independente do sujeito que o percebe constitui a base de toda a
cincia da natureza. Todavia, as percepes dos sentidos apenas oferecem resultados indiretos sobre
este mundo exterior ou sobre a realidade fsica. Ento somente a via especulativa  capaz de nos
ajudar a compreender o mundo. Temos ento de reconhecer que nossas concepes da realidade
jamais apresentam outra coisa a no ser solues momentneas. Por conseguinte devemos estar
sempre prontos a transformar estas idias, quer dizer, o fundamento axiomtico da fsica, se,
lucidamente, queremos ver da maneira mais perfeita possvel os fatos perceptveis que mudam.
Quando refletimos, mesmo rapidamente, sobre a evoluo da fsica, observamos, com efeito, as
profundas modificaes dessa base axiomtica.

A maior revoluo dessa base axiomtica da fsica ou de nossa compreenso da estrutura da
realidade, desde que a fsica terica foi estabelecida por Newton, foi provocada pelas pesquisas de
Faraday e de Maxwell sobre os fenmenos eletromagnticos. Quero tentar representar esta ruptura,
com a maior exatido possvel, analisando o desenvolvimento do pensamento que precedeu e
seguiu estas pesquisas.

Em primeiro lugar, o sistema de Newton. A realidade fsica se caracteriza pelos conceitos de
espao, de tempo, de pontos materiais, de fora (a equivalncia da ao recproca entre os pontos
materiais). Segundo Newton, os fenmenos fsicos devem ser interpretados como movimentos de
pontos materiais no espao, movimentos regidos por leis. O ponto material, eis o representante
exclusivo da realidade, seja qual for a versatilidade da natureza. Inegavelmente os corpos
perceptveis deram origem ao conceito de ponto material; figurava-se o ponto material como
anlogo aos corpos mveis, suprimindo-se nos corpos os atributos de extenso, de forma, de
orientao no espao, em resumo, todas as caractersticas intrnsecas. Conservavam-se a inrcia, a
translao, e acrescentava-se o conceito de fora. Os corpos materiais, transformados
psicologicamente pela formao do conceito ponto material, devem ser, a partir de ento,
concebidos eles prprios como sistemas de pontos materiais. Assim, pois, este sistema terico em
sua estrutura fundamental se apresenta como um sistema atmico e mecnico. Portanto todos os
fenmenos tm de ser concebidos do ponto de vista mecnico, quer dizer, simples movimentos de
pontos materiais submetidos  lei do movimento de Newton.

Neste sistema terico, deixemos de lado a questo j debatida nestes ltimos tempos, a
respeito do conceito de espao absoluto, mas consideremos a maior dificuldade: reside
essencialmente na teoria da luz, porque Newton, concorde com seu sistema, a concebe tambm
constituda de pontos materiais. J na poca se fazia a temvel interrogao: onde se metem os
pontos materiais constituintes da luz, quando esta  absorvida? Falando srio, o esprito no pode
conceder  imaginao a existncia de pontos materiais de natureza totalmente diferente, cuja
presena se deveria admitir a fim de representar ora a matria ponderal, ora a luz. Mais tarde seria

#
preciso aceitar os corpsculos eltricos como terceira categoria de pontos materiais, evidentemente
com propriedades fundamentais diversas. A teoria de base repousa sobre um ponto muito fraco, j
que  preciso admitir, de modo inteiramente arbitrrio e hipottico, foras de ao recproca que
determinassem os acontecimentos. No entanto, esta concepo da realidade serviu imensamente a
humanidade. Ento por que e como se resolveu abandon-la?

Newton quer dar forma matemtica a seu sistema, obriga-se portanto a descobrir a noo de
derivada e a estabelecer as leis do movimento sob a forma de equaes diferenciais totais. A,
Newton realizou sem dvida o progresso intelectual mais fabuloso que um homem jamais tenha
conseguido fazer. Porque nesta aventura as equaes diferenciais parciais no se impunham e
Newton delas no fez uso sistemtico. Mas tornam-se indispensveis para formular a mecnica dos
corpos modificveis. A razo profunda de sua escolha apia-se neste fato: nestes problemas, a
concepo de corpos exclusivamente formados de pontos materiais no teve absolutamente
nenhuma atuao.

Assim, a equao diferencial parcial entra na fsica terica um pouco pela porta da cozinha,
mas aos poucos instala-se como rainha. Este movimento irreversvel principia no sculo XIX
porque, diante dos fatos observados, a teoria ondulatria da luz sacode as barreiras. Antes,
imaginava-se a luz no espao vazio como um fenmeno de vibrao do ter. Mas comea-se a
brincar a srio ao v-la como um conjunto de pontos materiais! Ento, pela primeira vez, a equao
diferencial parcial parece corresponder melhor  expresso natural dos fenmenos elementares da
fsica. Assim, em um setor particular da fsica terica, o campo contnuo e o ponto material so os
representantes da realidade fsica. Mesmo atualmente, embora este dualismo embarace
consideravelmente qualquer esprito sistemtico, ele se mantm. Se a idia da realidade fsica deixa
de ser puramente atmica, continua no entanto provisoriamente mecnica. Porque sempre se tenta
interpretar qualquer fenmeno como um movimento de massas inertes e nem mesmo se chega a
imaginar como possvel uma outra maneira de conceber. Justamente neste momento, h a imensa
revoluo, aquela que traz os nomes de Faraday, Maxwell, Hertz. Nesta histria, Maxwell recebe a
parte do leo. Ele explica que todos os conhecimentos da poca a respeito da luz e dos fenmenos
eletromagnticos repousam sobre um duplo sistema bem conhecido de equaes diferenciais
parciais. E, da mesma forma que o campo magntico, o campo eltrico  figurado como uma
varivel dependente. Maxwell procura basear essas equaes sobre construes mecnicas ideais ou
ento procura justific-las pelas mesmas.

Mas utiliza vrias construes desta natureza, desordenadamente, sem levar realmente a srio
nenhuma delas. Ento somente as equaes parecem ser o essencial e as foras do campo que ali
figuram se mostram entidades elementares, irredutveis a qualquer outra coisa. Na passagem do
sculo, j a concepo do campo eletromagntico, entidade irredutvel, se impe universalmente.
Ento os tericos srios deixam de ter confiana no poder ou na possibilidade de Maxwell quando
elabora equaes a partir da mecnica. Bem depressa, em compensao, tentaro explicar pela
teoria do campo os pontos materiais e sua inrcia, com o auxlio da teoria de Maxwell, mas esta
tentativa fracassar.

Maxwell obteve resultados importantes particulares, por trabalhos que duraram toda a sua
vida e nos setores mais importantes da fsica. Mas, esqueamo-nos deste balano, para estudar
apenas a modificao de Maxwell, quando chega a conceber a natureza do real fsico. Antes dele, eu
concebo o real fsico  isto , eu represento para mim os fenmenos da natureza desse modo 
como um conjunto de pontos materiais. Quando h mudana, as equaes diferenciais parciais
descrevem e regulam o movimento. Depois dele, eu concebo o real fsico representado por campos
contnuos, no explicveis mecanicamente, mas regulados por equaes diferenciais parciais. Esta
modificao da concepo do real representa a mais radical e mais frutfera revoluo para a fsica
desde Newton. Mas  preciso tambm admitir que a realizao completa desta revoluo ainda no
triunfou por toda parte.

Em troca, os sistemas fsicos, eficazes e constitudos depois de Maxwell, fazem antes
concesses entre as duas teorias. E,  claro, este aspecto de transao bem indica seu valor
provisrio e sua lgica imperfeita, mesmo que algum sbio, em particular, tenha realizado imensos

#
progressos.

Assim, a teoria dos eltrons de Lorentz mostra com clareza, e imediatamente, como o campo
e os corpsculos eltricos intervm juntos como elementos de mesmo valor para se conceber melhor
a realidade. Em seguida, a teoria da relatividade restrita, depois geral, se faz conhecer. Baseia-se
inteiramente nas reflexes introduzidas pela teoria do campo e, at hoje, no pde evitar o emprego
dos pontos materiais e das equaes diferenciais totais.

Por fim, a caula da fsica terica se chama mecnica dos quanta. Encontra grande sucesso
mas, por princpio, rejeita para sua estrutura de base os dois programas, aqueles que designamos,
por motivos de comodidade, com os nomes de programa de Newton e programa de Maxwell. Com
efeito, as grandezas representadas em suas leis no pretendem representar a prpria realidade, mas
apenas as probabilidades de existncia de uma realidade fsica comprometida. Na minha opinio,
Dirac foi quem, do modo mais admirvel, exps a ordem lgica desta teoria. Ele observa com razo
que seria quase ilusrio descrever teoricamente um fton, j que nesta descrio faltaria a razo
suficiente para afirmar que ele poder ou no passar por um polarizador colocado obliquamente em
sua trajetria.

Estou intimamente persuadido de que os fsicos no se contentaro por muito tempo com
semelhante descrio insuficiente da realidade, mesmo que se chegasse a formular de modo
logicamente aceitvel sua teoria, de acordo com o postulado da relatividade geral. Portanto, 
preciso provisoriamente satisfazer-se com a tentativa de realizao do programa de Maxwell. Ser
necessrio procurar descrever a realidade fsica por campos que satisfaam s equaes diferenciais
parciais, excluindo rigorosamente qualquer singularidade.

O BARCO DE FLETTNER

A histria das descobertas cientficas e tcnicas revela-nos quanto o esprito humano carece de
idias originais e de imaginao criadora. E mesmo quando as condies exteriores e cientficas
para o aparecimento de uma idia j existem h muito, ser preciso, na maioria dos casos, uma outra
causa exterior a fim de que se chegue a se concretizar. O homem tem, no sentido literal da palavra,
que se chocar contra o fato para que a soluo lhe aparea. Verdade bem comum e pouco exaltante
para nosso orgulho, e que se verifica perfeitamente no barco de Flettner. E atualmente este exemplo
continua espantando todo mundo! O barco oferece, ainda, uma atrao suplementar: o modo de
ao dos rotores de Flettner ainda so, geralmente, para o leigo no assunto, um verdadeiro mistrio!
Ora, na realidade, trata-se apenas de aes puramente mecnicas, justamente aquelas que todo
homem julga conhecer naturalmente. H cerca de duzentos anos j teramos podido realizar a
descoberta de Flettner, de um estrito ponto de vista cientfico. Com efeito, Euler e Bernoulli j
haviam estabelecido leis elementares dos movimentos dos lquidos sem nenhuma frico. Contudo,
somente h alguns anos, quer dizer, depois que se utilizam praticamente pequenos motores, pde-se
executar concretamente a inveno. E no entanto, mesmo com as condies reunidas, um novo
raciocnio no se faz automaticamente. Foram precisos repetidos malogros na experincia,

Em funcionamento, o barco de Flettner se assemelha por completo a um barco  vela. Porque,
como este ltimo, utiliza o vento e somente a fora do vento o move e o faz adiantar-se. Contudo,
ao invs de agir sobre as velas, ele age sobre cilindros verticais de ferro laminado, mantidos em
rotao por pequenos motores. E estes motores s tm de combater a pequenina frico produzida
sobre os cilindros pelo ar-ambiente e sobre seus suportes. A fora motriz do barco depende
exclusivamente do vento, j o notamos! Os cilindros rotativos se parecem, visualmente; com
chamins de barco a vapor, mas tm um aspecto bem maior e mais macio. A seo transversal
oposta ao vento  cerca de dez vezes menor do que a aparelhagem de um barco a vela da mesma
potncia.

Mas, como  isto, exclama o leigo, estes cilindros rotativos  que vo produzir uma fora
motriz? Respondo imediatamente  pergunta, tentando faz-lo sem recorrer aos termos
matemticos.

Em relao a todos os movimentos de fluidos (lquidos, gasosos) a notvel proposio

#
seguinte  sempre verdadeira: em diferentes pontos de uma corrente uniforme, se o fluido se move
com velocidades diferentes, nos pontos de maior velocidade reina a menor presso e vice-versa. A
lei elementar do movimento ajuda a compreender esta lei com muita facilidade. Se, por exemplo,
um fluido em movimento tem uma velocidade orientada para a direita, que aumenta da esquerda
para a direita, as partculas individuais do fluido devem sofrer uma acelerao, em seu trajeto da
esquerda para a direita. Mas para que esta se produza,  preciso que uma fora aja sobre as
partculas em direo  direita. Isto exige que a presso exercida sobre o limite esquerdo seja mais
elevada do que a que se exerce sobre o limite direito, ao passo que, ao contrrio, a velocidade
continua maior  direita do que  esquerda.


FIGURA I

A proposio da dependncia inversa existente entre a presso e a velocidade permite, sem
dvida alguma, avaliar as presses produzidas pelo movimento de um lquido ou gs, contanto
unicamente que se conhea a repartio da velocidade no lquido. Por um exemplo simples, muito
conhecido, o de um vaporizador de perfume, vou explicar como se pode aplicar a proposio.

Temos um tubo que se alarga um pouco no gargalo A. Expulsa-se o ar a grande velocidade,
graas a um balo de borracha que se aperta. O ar expulso se espalha sob a forma de jato que vai se
alargando em todas as direes de modo constante. E assim a velocidade diminui gradualmente at
zero. Conforme a nossa proposio, no ponto A,  evidente existir, por causa da maior velocidade,
uma presso muito mais fraca do que a que se nota em um ponto afastado da abertura do tubo.
Manifesta-se portanto em A uma subpresso em relao ao ar distante em repouso.


FIGURA II

Se um tubo R, aberto dos dois lados, penetra pela extremidade superior na zona de
maior velocidade e, pela extremidade inferior, num recipiente cheio de lquido, a subpresso
que se manifesta em A aspira para o alto o lquido do recipiente; este, ao sair do ponto A, se
reparte em leves gotinhas e  levado pela corrente de ar.

No nos esqueamos desta comparao e observemos o movimento do ar ao longo de

#
um cilindro de Flettner. Seja C este cilindro visto de cima. Suponhamos primeiro que ele
fique imvel e que o vento sopre na direo da flecha.


FIGURA III

Ele tem de fazer um certo rodeio ao redor do cilindro C e portanto passa para A e B com a
mesma velocidade. Portanto em A e B existe a mesma presso e o vento no exerce nenhuma ao
de fora sobre o cilindro. Mas, suponhamos agora que o cilindro rode na direo da flecha P. Ento
a corrente de vento, realizando seu trajeto ao longo do cilindro, se reparte de modo diferente dos
dois lados; porque em B o movimento do vento  acelerado pelo movimento de rotao do cilindro
e em A ele  freado. Assim, por influncia do movimento rotativo do cilindro, produziu-se um
movimento que possui em B uma velocidade maior do que em A. Deste modo a fora que se exerce
da esquerda para a direita  empregada para fazer andar o barco.

Poder-se-ia supor que um crebro imaginoso teria podido, por si mesmo, sem problema
encontrado no exterior, achar esta soluo. Na realidade a descoberta se deu da maneira seguinte.
Notou-se que, no tiro do canho, mesmo em tempo calmo, o obus sofre afastamentos laterais
importantes e irregulares do plano vertical quando comparados com a direo inicial do eixo do
obus. Este curioso fenmeno era obrigatoriamente atribudo  rotao do obus: motivo de simetria!
No se podia encontrar outra explicao da assimetria lateral da resistncia do ar. H muito que este
problema preocupava os profissionais. Mas um dia, por volta de 1850, o professor de fsica
Magnus, em Berlim, encontrou a explicao correta. Esta explicao, a mesma que acabamos de
comentar, mostra a fora atuante sobre o cilindro colocado no vento. Mas, em lugar do cilindro C,
h o obus girando em torno de um eixo vertical e, em vez do vento, h o movimento relativo do ar
ao redor do obus que continua em sua trajetria. Magnus verifica sua explicao por ensaios sobre
um cilindro giratrio. Parecia-se praticamente com o cilindro de Flettner. Um pouco mais tarde, o
grande fsico ingls, Lord Rayleigh, notou, absolutamente sozinho, o mesmo fenmeno a respeito
das bolas de tnis. Tambm ele deu exatamente a mesma explicao correta. Nestes ltimos anos, o
clebre professor Prandtl fez pesquisas precisas, tericas e prticas, sobre o movimento do fluido ao
longo dos cilindros de Magnus. Imaginou e realizou quase toda a experincia desejada por Flettner.
Este viu as pesquisas de Prandtl. Ento e somente ento pensou que se poderia utilizar este sistema
para substituir a vela. Sem esta cadeia de observao, teria algum imaginado esta descoberta?

A CAUSA DA FORMAO DOS MEANDROS NO CURSO DOS RIOS  LEI DE BAER

Os cursos d'gua tm tendncia a correr em linha sinuosa em vez de seguir a linha do maior
declive do terreno. Esta a lei geral. Alm disto os gegrafos verificam que os rios do hemisfrio
Norte corroem de preferncia a margem direita e o hemisfrio Sul v o fenmeno inverso (lei de

#
Baer). Para explicar tais fenmenos, numerosas sugestes foram feitas. Para o especialista,  claro,
no estou bem certo de que meu raciocnio seja particularmente novo. Alis, algumas partes dele j
so conhecidas. Como, porm, ainda no encontrei pessoas que conheam totalmente as relaes
causais deste fenmeno, acredito ser til fazer uma breve exposio.

Em meu parecer, parece evidente que a eroso deve ser tanto mais forte quanto maior a
velocidade da corrente no local em que est diretamente em contacto com a margem corroda. Ou
ento a baixa da velocidade da corrente at zero  mais rpida no lugar da massa lquida. Esta
observao aplica-se a todos os casos, porque a eroso  provocada por uma ao mecnica ou por
fatores fsico-qumicos (dissoluo das partculas do terreno). Quis por isto refletir sobre os fatos
que poderiam influenciar na rapidez da perda de velocidade ao longo da margem.

Nos dois casos, a assimetria da queda da velocidade obriga a refletir, mais ou menos
diretamente, sobre a formao de um fenmeno de circulao. O primeiro plano de nossa pesquisa 

o seguinte:
Proponho-lhes uma pequena experincia, que cada um poder repetir com facilidade.
Suponhamos uma xcara de fundo chato cheia de ch com algumas folhinhas de ch no fundo. Ali
ficam porque so mais pesadas do que o lquido que deslocaram. Com uma colher mexo o lquido
com um movimento de rotao. Logo as folhinhas se ajuntam no centro do fundo da xcara. Por
qu? A razo  simples. A rotao do lquido provoca uma fora centrfuga que age sobre ele. Esta
fora, por si mesma, no causaria modificao alguma sobre a corrente do lquido, se este girasse
como um corpo rijo. Mas na vizinhana da parede da xcara, o lquido se v freado pela frico.
Ento ele gira, nesta regio, com uma velocidade angular menor do que nos outros lugares situados
mais para dentro. E justamente a velocidade angular do movimento de rotao, e portanto a fora
centrfuga na vizinhana do fundo da xcara, ser mais fraca do que nos locais mais elevados.

A Figura I representa a circulao do lquido. Ela ir crescendo at que, por causa da frico
do fundo da xcara, se torne estacionria. As folhinhas de ch so arrastadas pelo movimento de
circulao para o centro do fundo da xcara. Serviram para demonstrar este movimento.


FIGURA I

O mesmo raciocnio vale para um curso d'gua que contm uma curva (Figura II). Em todas
as sees transversais do curso d'gua (no nvel da curva) age uma fora centrfuga no sentido do
exterior da curva (de A para B). Mas esta fora  mais fraca nas proximidades do fundo, onde a
velocidade da corrente est reduzida pela frico, do que nos locais elevados acima do fundo. Assim
se constitui e se forma um movimento circulatrio (cf. Figura II). Contudo, mesmo onde no h
nenhuma curva da corrente, sob a influncia da rotao da terra, estabelece-se e se forma uma
circulao do mesmo gnero (cf. Figura II), mas bem mais fraca. A rotao provoca uma fora de
Coriolis, dirigida perpendicularmente  direo da corrente. Sua componente horizontal, dirigida
para a direita,  igual a 2.

sen
f
por unidade de massa lquida, sendo

a velocidade da corrente,


a velocidade de rotao da terra
f
latitude geogrfica. Desde que a frico do fundo determina
uma diminuio desta fora  medida que se aproxima dela, esta produz tambm um movimento
circular do mesmo tipo j indicado (Figura II).
#
FIGURA II

Depois desta experincia preliminar, analisemos a distribuio da velocidade na seo do
curso d'gua, ali onde se verifica a eroso. Por essa razo, representaremos primeiro de que modo a
distribuio da velocidade (turbulncia) se estabelece e se mantm em uma corrente. Com efeito, se
a gua calma de uma corrente fosse bruscamente posta em movimento pela interveno de um
impulso dinmico acelerador e uniformemente distribudo, a distribuio da velocidade sobre a
seo transversal continuaria a princpio uniforme. Mas, pouco a pouco, sob a ao da frico das
paredes, se estabeleceria uma distribuio de velocidade. Ela iria aumentando progressivamente,
das paredes ao interior da seo da corrente. Uma perturbao estacionria (em grande maioria) da
distribuio da velocidade sobre a seo transversal s se produziria de novo muito lentamente, sob
a influncia da frico do lquido.

Deste modo a hidrodinmica representa o fenmeno da instalao desta distribuio de
velocidade. Numa distribuio metdica da corrente (corrente potencial) todos os filamentos
redemoinhantes se concentram ao da parede. Separam-se dela, depois lentamente se deslocam para

o interior da seo transversal da corrente, distribuindo-se por uma camada de espessura crescente.
Por esta razo a diminuio da velocidade ao longo da parede decresce gradativamente. E sob a
ao da frico interior do lquido, os filamentos redemoinhantes no interior da seo transversal do
lquido desaparecem lentamente e so substitudos por outros que se formam de novo ao longo da
parede. H assim uma distribuio de velocidade quase estacionria. Observemos um fato
importante: a equivalncia entre o estado de distribuio de velocidade e o de distribuio
estacionria  um fenmeno lento. Isto explica que causas relativamente mnimas, mas de ao
constante, podem influenciar em medida considervel a distribuio da velocidade sobre a seo
transversal.
Podemos ir adiante. Analisemos que tipo de influncia o movimento circular (Figura II),
provocado por uma curva da gua ou pela fora de Coriolis, deve exercer sobre a distribuio da
velocidade sobre a seo transversal do lquido. As partculas que se deslocam mais rapidamente
so as mais afastadas das paredes, encontrando-se portanto na parte superior acima do centro do
fundo. As partes lquidas mais rpidas so projetadas pelo movimento circular para a parede da
direita. Ao invs, a parede da esquerda recebe gua vinda da regio perto do fundo e dotada de
velocidade extremamente fraca. Por este motivo a eroso deve ser mais forte sobre o lado direito do
que sobre o esquerdo. Esta explicao, convm notar, reala consideravelmente o seguinte fato: o
movimento circular lento da gua exerce enorme influncia sobre a distribuio da velocidade
porque o fenmeno do restabelecimento do equilbrio entre as velocidades pela frico interior
(portanto contrria ao movimento circular) tambm se revela um fenmeno lento.

Compreendemos assim a causa da formao dos meandros. E com facilidade podemos
deduzir algumas particularidades. Por exemplo, a eroso  no apenas relativamente importante
sobre a parede da direita, mas tambm sobre a parte direita do fundo. Poder-se- observar a um
perfil, logo que houver tendncia a se formar (Figura III).

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FIGURA III

Alm disto, a gua superficial provm da parede da esquerda e, por conseqncia, se move
sobretudo sobre o lado esquerdo, menos rpida do que a gua das camadas inferiores. Esta
observao foi feita experimentalmente.

Enfim, o movimento circular possui inrcia. A circulao no atinge seu mximo a no ser por
trs do ponto de maior curvatura. Por este fato tambm se explica a assimetria da eroso.  o
motivo pelo qual, no processo de formao da eroso, se produz um acmulo de linhas sinuosas dos
meandros no sentido da corrente. ltima observao: o movimento circular desaparecer pela
frico mais lentamente na medida em que a seo transversal do rio for maior. Portanto a linha
sinuosa dos meandros crescera com a seo transversal do rio.

SOBRE A VERDADE CIENTFICA

1. A expresso verdade cientfica no se explica facilmente por uma palavra exata. A
significao da palavra verdade varia tanto, quer se trate de uma experincia pessoal, de uma
proposio matemtica ou de uma teoria de cincia experimental. Ento no posso absolutamente
traduzir em linguagem clara a expresso verdade religiosa.
2. Por despertar a idia de causalidade e de sntese, a pesquisa cientfica pode fazer regredir
a superstio. Reconheamos, no entanto, na base de todo o trabalho cientfico de alguma
envergadura, uma convico bem comparvel ao sentimento religioso, porque aceita um mundo
baseado na razo, um mundo inteligvel!
3. Esta convico, ligada ao sentimento profundo de uma razo superior, desvendando-se no
mundo da experincia, traduz para mim a idia de Deus. Em palavras simples, poder-se-ia traduzir,
como Spinoza, pelo termo pantesmo.
4. No posso considerar as tradies confessionais a no ser pelo ponto de vista da histria
ou da psicologia. No tenho outra relao possvel com elas.
A RESPEITO DA DEGRADAO DO HOMEM DE CINCIA

Qual a meta que deveramos escolher para nossos esforos? Ser o conhecimento da verdade
ou, em termos mais modestos, a compreenso do mundo experimental, graas ao pensamento lgico
coerente e construtivo? Ser a subordinao de nosso conhecimento racional a qualquer outro fim,
digamos, por exemplo, prtico? O pensamento por si s no pode resolver este problema. Em
compensao, a vontade determina sua influncia sobre nosso pensamento e nossa reflexo, com a
condio evidentemente de que esteja possuda por inabalvel convico. Vou lhes fazer uma
confidncia muito pessoal: o esforo pelo conhecimento representa uma dessas metas
independentes, sem as quais, para mim, no existe uma afirmao consciente da vida para o homem
que declara pensar.

O esforo para o conhecimento, por sua prpria natureza, nos impele ao mesmo tempo para a
compreenso da extrema variedade da experincia e para o domnio da simplicidade econmica das

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hipteses fundamentais. O acordo final desses objetivos, no primeiro momento de nossas pesquisas,
revela um ato de f. Sem esta f, a convico do valor independente do conhecimento no existiria,
coerente e indestrutvel.

Esta atitude profundamente religiosa do homem de cincia em face da verdade repercute em
toda a sua personalidade. Com efeito, em dois setores os resultados da experincia e as leis do
pensamento se dirigem por si mesmos. Portanto o pesquisador, em princpio, no se fundamenta em
nenhuma autoridade cujas decises ou comunicaes poderiam pretender  verdade. Da o seguinte
violento paradoxo: Um homem entrega sua energia inteira a experincias objetivas e se transforma,
quando encarado em sua funo social, em um individualista extremo que, pelo menos
teoricamente, s tem confiana no prprio julgamento. Quase se poderia dizer que o individualismo
intelectual e a pesquisa cientfica nascem juntos historicamente e depois nunca mais se separam.

Ora, assim apresentado, que  o homem de cincia a no ser simples abstrao, invisvel no
mundo real, mas comparvel ao homo oeconomicus da economia clssica? Ora, na realidade, a
cincia concreta, a de nosso cotidiano, jamais teria sido criada e mantida viva, se este homem de
cincia no houvesse aparecido, pelo menos em grandes linhas, em grande nmero de indivduos e
durante longos sculos.

 claro, no considero automaticamente um homem de cincia aquele que sabe manejar
instrumentos e mtodos julgados cientficos. Penso somente naqueles cujo esprito se revela
verdadeiramente cientfico.

No momento atual, em que situao no corpo social da humanidade se encontra o homem de
cincia? Em certa medida, pode felicitar-se de que o trabalho de seus contemporneos tenha
radicalmente modificado, ainda que de modo muito indireto, a vida econmica por ter eliminado
quase inteiramente o trabalho muscular. Mas sente-se tambm desanimado, j que os resultados de
suas pesquisas provocaram terrvel ameaa para a humanidade. Porque esses resultados foram
apropriados pelos representantes do poder poltico, estes homens moralmente cegos. Percebe
tambm a terrvel evidncia da fenomenal concentrao econmica engendrada pelos mtodos
tcnicos provindos de suas pesquisas. Descobre ento que o poder poltico, criado sobre essas bases,
pertence a nfimas minorias que governam  vontade, e completamente, uma multido annima,
cada vez mais privada de qualquer reao. Mais terrvel ainda se lhe impe outra evidncia. A
concentrao do poder poltico e econmico nas mos de to poucas pessoas no acarreta somente a
dependncia material exterior do homem de cincia, ameaa ao mesmo tempo sua existncia
profunda. De fato, pelo aperfeioamento de tcnicas requintadas para dirigir uma presso
intelectual e moral, ela impede o aparecimento de novas geraes de seres humanos de valor, mas
independentes.

Hoje, o homem de cincia se v verdadeiramente diante de um destino trgico. Quer e deseja
a verdade e a profunda independncia. Mas, por estes esforos quase sobre-humanos, produziu
exatamente os meios que o reduzem exteriormente  escravido e que iro aniquil-lo em seu
ntimo. Deveria autorizar aos representantes do poder poltico que lhe ponham uma mordaa. E
como soldado, v-se obrigado a sacrificar a vida de outrem e a prpria, e est convencido de que
este sacrifcio  um absurdo. Com toda a inteligncia desejvel, compreende que, num clima
histrico bem condicionado, os Estados fundados sobre a idia de Nao encarnam o poder
econmico e poltico e, por conseguinte, tambm o poder militar, e que todo este sistema conduz
inexoravelmente ao aniquilamento universal. Sabe que, com os atuais mtodos de poder terrorista,
somente a instaurao de uma ordem jurdica supranacional pode ainda salvar a humanidade. Mas 
tal a evoluo, que suporta sua condenao  categoria de escravo como inevitvel. Degrada-se to
profundamente que continua, a mandado, a aperfeioar os meios destinados  destruio de seus
semelhantes.

Estar realmente o homem de cincia obrigado a suportar este pesadelo? Ter definitivamente
passado o Tempo em que sua liberdade ntima, seu pensamento independente e suas pesquisas
podiam iluminar e enriquecer a vida dos homens? Teria ele se esquecido de sua responsabilidade e
sua dignidade, por ter seu esforo se exercido unicamente na atividade intelectual? Respondo: sim,
pode-se aniquilar um homem interiormente livre e que vive segundo sua conscincia, mas no se

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pode reduzi-lo ao estado de escravo ou de instrumento cego.

Se o cientista contemporneo encontrar tempo e coragem para julgar a situao e sua
responsabilidade, de modo pacfico e objetivo, e se agir em funo deste exame, ento as
perspectivas de uma soluo racional e satisfatria para a situao internacional de hoje,
excessivamente perigosa, aparecero profunda e radicalmente transformadas.

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Este  um livro exemplar: no apenas o
resumo, simples e accessvel a todos, da
mais famosa teoria fsica contempornea 
a da relatividade , mas sobretudo a
apresentao do pensamento humanista de
um dos 'gnios' da humanidade.

Como Vejo o Mundo

 um texto em que Albert Einstein volta os
olhos para os problemas fundamentais do ser
humano  o social, o poltico, o econmico, o
cultural  e torna clara a sua posio diante
deles: a de um sbio radicalmente consciente
de que sem a liberdade de ser e agir, o
homem  por mais que conhea e possua 
no  nada.


EDITORA
NOVA
FRONTEIRA


SEMPRE
UM BOM
LIVRO


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